A lição de socialismo democrático de António José Seguro

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António José Seguro foi convidado para fazer uma intervenção, que apelidou de “A força de uma ideia” na inauguração da exposição sobre o nascimento da ASP e do PS

O antigo secretário geral do PS falou sobre os ideais socialistas na conferência de abertura da exposição documental que está patente no CCC, organizada pela Associação Tito de Morais (ATM)

Orador convidado para a conferência de abertura da exposição “Da Ideia à ASP [Acção Socialista Portuguesa], da ASP ao PS — Nascimento de um partido na clandestinidade”, António José Seguro, destacou o papel dos fundadores e, assumindo-se como um socialista democrático, da social democracia, fez uma advertência: “não confundamos ideologia com os partidos políticos que dizem representar essas ideologias”. De acordo com o antigo secretário geral do PS e residente nas Caldas da Rainha, não basta “batermos no peito para dizermos que somos desta ou daquela ideologia, é importante que a prática esteja de acordo com os valores e princípios dessa ideologia e, sobretudo, os resultados”. Perante uma plateia de mais de meia centena de pessoas, lembrou a primeira vez que entrou na sede do PS, no Largo do Rato, e como a frase que leu num cartaz – “onde houver injustiças é aí que tem de estar o socialismo”-, o marcou, para questionar se ainda hoje faz sentido falar em socialismo democrático e social-democracia. Entende que sim e que tem de haver um “forte compromisso do socialismo democrático e da social -democracia com os valores da liberdade e da matriz demo liberal dos regimes políticos, com a qualidade da democracia, ética republicana no exercício das funções públicas, transparência, prestação de contas, combate às injustiças”. Numa intervenção que teve por mote “A força de uma ideia”, António José Seguro, lembrou a “causa muito mobilizadora”, que foi a criação do PS e a necessidade de “respeito pela memória”. Defensor de uma economia de mercado (e não de uma sociedade de mercado), falou da necessidade de garantir oportunidades para todos, reconhecendo que “os elevadores sociais em Portugal têm de ser lubrificados para funcionarem melhor”.

Cerca de meia centena de pessoas assistiram à sessão, que decorreu no café concerto do CCC, na tarde de sábado

Caldas na luta contra o regime
A formação do PS em Portugal está relatada em cerca de 20 documentos e fotografias, que se encontram expostos no CCC, nas Caldas da Rainha. Do vasto espólio de Manuel Alfredo Tito de Morais, o seu neto, e presidente da Associação Tito de Morais, Manuel Tito de Morais Oliveira, pegou numa fotografia, datada de junho de 1951 e captada no antigo Salão Ibéria, no Parque D. Carlos I, que regista uma sessão da candidatura de Quintão de Meireles, candidato oposicionista nas eleições presidenciais desse ano. A imagem que regista, além do candidato presidencial, Tito de Morais e o caldense Custódio Maldonado Freitas, foi apresentada durante a inauguração da exposição, mostrando a ligação da cidade aos princípios de oposição do Estado Novo. Também António José Seguro, confirmou os “pergaminhos” da cidade na luta contra o regime. “Não só foi precursora do 25 de abril com o 16 de março, as Caldas também foi sempre uma terra de opositores ao Estado Novo, e de homens e mulheres que deram tradução prática a palavras que tinham um sentido muito forte nessas pessoas: solidariedade e fraternidade”, manifestou. António José Seguro lembrou os presos políticos que foram ajudados e os seus familiares que foram acolhidos por caldenses, destacando o papel dos Maldonado Freitas, nomeadamente do pai do seu sogro, António.

Mais de 10 mil documentos
Esta é a primeira vez que alguns dos documentos do acervo de Manuel Tito de Morais são expostos e a mostra surge a convite da Câmara das Caldas. Foi inaugurada 13 anos depois da criação da Associação Tito de Morais (ATM), criada para assinalar o centenário do seu nascimento e que tem por desígnio principal “exprimir os valores” deixados pelo lutador anti-fascista. Dos mais de 10 mil documentos que constituem o espólio, cerca de 6,5 mil já se encontram disponíveis na consulta na Torre do Tombo. Há um novo conjunto de cerca de 5 mil documentos que foram recentemente abertos e estudados, dos quais foram retirados cerca de 20 que são os que consideram ter “maior influência na criação do PS” e que se encontram em exposição. A mostra está dividida em três segmentos. O primeiro compreende três documentos trocados entre Manuel Tito de Morais, em 1962 e a viver no Brasil, e o amigo Francisco Ramos da Costa, que se encontrava em França, onde define as ideias programáticas essenciais para a criação do PS. Segue-se a formação da Ação Socialista Portuguesa e, numa terceira parte, a transformação em PS, que contempla, entre outros documentos, a ata da fundação do partido, o estudo do seu primeiro logótipo e o registo, no tribunal, a 10 de fevereiro de 1975.
A associação tem ainda muitos documentos para trabalhar e quer explorar outras vias de divulgar o espólio e de o tornar “disponível online, num prazo mais ou menos curto”, concretizou Mário de Jesus, vice-presidente da ATM. ■