A reforma energética já começou na região

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A Ivo Cutelarias foi a primeira empresa do país a criar uma central de autoconsumo com painéis fotovoltaicos

Empresas e outras entidades já assumiram compromisso com a descarbonização, com poupança na fatura e valorização de produtos

A sustentabilidade é uma palavra que entrou definitivamente no vocabulário das empresas. Investir na eficiência energética pode ser visto como um custo, mas também traz benefícios, ao ambiente e na valorização de produtos perante consumidores também eles cada vez mais atentos a estas questões.
A Ivo Cutelarias, de Santa Catarina, foi pioneira neste campo quando, em 2016, se tornou a primeira empresa do país a instalar uma central fotovoltaica de autoconsumo. “Na altura ainda não havia apoio para a eficiência energética, o nosso investimento foi financiado no âmbito da inovação”, lembra Rafael Peralta.
Essa primeira instalação permitiu à empresa de Santa Catarina poupar a emissão de 238 toneladas de CO2 por ano. Em 2022 duplicou a capacidade e desde então tem vindo a trabalhar para voltar a duplicar a instalação para os 2Mw, o que não pode fazer por questões burocráticas. “A lei só permite ter 1Mw em autoconsumo, já fizemos um pedido porque queremos aumentar a nossa capacidade”, refere Rafael Peralta. Ao atingir essa produção de energia solar, a Ivo Cutelarias estaria a evitar a emissão de mil toneladas de CO2 por ano e a cobrir 75% a 80% da sua necessidade energética atual.
“A Ivo Cutelaria sempre teve foco na sustentabilidade e isso deve-se muito à visão do meu pai [António Peralta], quer ao nível do que fazemos na comunidade, quer na utilização racional dos materiais”, realça Rafael Peralta.
A empresa tem a certificação ISO 14001, que garante boas práticas na gestão ambiental e, desde fevereiro deste ano, tornou-se também uma das primeiras empresas nacionais a deter o Sistema Comunitário de Ecogestão e Auditoria (EMAS), um mecanismo voluntário que também contribui para um melhor desempenho ambiental. Está ainda a iniciar o processo de certificação FSC, que garante que a madeira e o papel que utiliza tem origem em floresta sustentável.
Estes programas refletem práticas eficientes também ao nível da produção. “Já conseguimos uma poupança de materiais na ordem dos 7%”, ao nível das madeiras, do aço e do plástico injetável, realça o gestor da empresa, que também faz uma utilização responsável da água, que é essencial para o arrefecimento no processo de amolação das facas. Para isso, a empresa construiu um circuito fechado com 100 mil litros de capacidade, com níveis mínimos de perdas. A água mantém-se no sistema através de filtragem e compressão das lamas. Estas também são tratadas para recuperar o aço perdido no processo de amolação.
Entre 2018 e 2022 a empresa conseguiu reduzir o desperdício de 40% para 29% e trabalha para melhorar ainda mais esse desempenho.
Pelo uso racional dos recursos a Ivo Cutelarias também já substituiu os sistemas de aquecimento de água por bombas de calor, os novos pavilhões aproveitam melhor a luz natural. Os colaboradores têm formação para a reciclagem e a utilização de papel está reduzida ao mínimo indispensável.
Também reconhecida pela preocupação com a sustentabilidade na sua atividade é a Solancis, empresa da Benedita que tem atividade na área da exploração e transformação pedreira.
“A nossa atividade incorpora alguns impactes ambientais, como qualquer outra, mas que a empresa tem vindo cada vez mais a tentar minimizar, quer a nível da melhoria de processos, eficiência dos equipamentos, e medidas compensatórias”, disse a empresa à Gazeta das Caldas.
A Solancis possui 12 pedreiras, sendo que destas, nove estão inseridas na área do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros PNSAC, “pelo que existe um grande compromisso e uma grande responsabilidade da empresa para cumprir com os requisitos do Parque para esta atividade, e para demonstrar que a atividade extrativa é compatível com a preservação da natureza”, acrescenta.
A sustentabilidade começa na própria exploração das 12 pedreiras, que são exploradas apenas de acordo com as necessidades da própria fábrica, evitando assim a sobre exploração dos recursos. Os subprodutos da produção, quer nas pedreiras, quer na fábrica, são utilizados como matéria-prima de outras industrias, tais como a da cal, a cimenteira e agregados, ou ainda como produtos de construção civil, e na recuperação de áreas degradadas ou antigas pedreiras, de acordo com o Plano de Ordenamento do PNSAC. Neste último ponto, a Solancis já recuperou 20 hectares desde 2010, quando foram implementadas medidas compensatórias para a ampliação ou abertura de novas pedreiras, apesar de apenas ter necessitado de cerca de 16 hectares como medida compensatória.
A energia é uma grande área de atuação no que à sustentabilidade diz respeito e a Solancis não foge à regra, apostando tanto na produção de energia para consumo próprio, como na racionalização da energia utilizada. “A Solancis está permanentemente a investir em equipamentos de melhor eficiência energética, substituindo, sempre que possível, os equipamentos a diesel por equipamentos elétricos”, realça a empresa liderada por Samuel Delgado.

Supermercado E.Leclerc fez estacionamento que faz sombra e gera energia

A utilização de equipamentos de corte a fio ou serrotes, em detrimento de equipamentos de perfuração, são alguns desses equipamentos e, além de permitirem poupança energética, evitam emissão de ruído e de poeiras.
Na cobertura da fábrica estão instalados painéis fotovoltaicos que produzem cerca de 40% da média anual de eletricidade consumida, número que a Solancis quer aumentar através da instalação de baterias para armazenamento da energia produzida nos dias em que não há consumo, ou que este é inferior à energia produzida.
Importante é também a água. Para poupar este recurso, a empresa trabalha com um circuito fechado, com tratamento através de decantação para a reutilização da água e com a produção de lamas. Estas são reaproveitadas pela indústria cimenteira, mas a Solancis tem participado em projetos para o desenvolvimento de produtos que possam incorporar algumas destas lamas.
A preocupação da Solancis ao nível da sustentabilidade tornou-a numa das primeiras indústrias da pedra a nível europeu com Declaração Ambiental de Produto (DAP). Os primeiros dados, de 2018, indicaram que a empresa emite 64 kg de CO2 por tonelada de produto acabado, número que reduziu para os 37 kg em 2023.
Atualmente, o fator que mais condiciona a sustentabilidade ambiental da empresa é o transporte, que é feito por rodovia para o mercado europeu e marítimo para o resto do mundo. “Embora consigamos ser mais sustentáveis em termos de produção, relativamente aos nossos concorrentes em cada país, vamos ficar prejudicados na sustentabilidade do transporte”, lamenta a empresa, que procura alternativas mais sustentáveis. “Identificamos a necessidade urgente da criação de uma rede ferroviária que nos ligue rapidamente a toda a Europa, é talvez a principal forma de diminuir a pegada carbónica no transporte dos nossos produtos para o nosso principal mercado, que é a Europa”, rematou.
Mas há mais exemplos de empresas e de associações que apostaram forte na sustentabilidade. O supermercado E.Leclerc das Caldas tem, desde março deste ano, um parque de estacionamento que além de sombra, gera energia. Com 950 módulos de painéis fotovoltaicos, a que se juntam 186 módulos na cobertura do edifício (ou seja, são 1136 no total), tem gerado, em média, 80 mil kWh, permitindo cobrir entre 40 a 50% das necessidades diárias de energia. O parque foi construído de forma a recolher as águas pluviais e a permitir a sua penetração no solo (com uma permeabilidade de 40%). “Em termos de pegada carbónica estamos a falar de uma redução de cerca de 200 a 300 toneladas de CO2 por ano”, referem os responsáveis da empresa que também tem, desde 2015, painéis termovoltaicos para aquecimento das águas sanitárias e luzes LED na loja, sendo que do plano de ecoeficiência e responsabilidade ambiental fazem parte medidas como a redução dos plásticos e cartazes, etiquetas e folhetos em papel. A aposta na sustentabilidade está também patente na procura e oferta de produtos locais e regionais, numa lógica de circuitos curtos, exponenciada pela primeira feira de produtores regionais, esta semana.
Outros bons exemplos de investimentos na sustentabilidade são as associações humanitárias de bombeiros voluntários. No caso das Caldas, em 2022, fizeram uma aposta em duas centrais fotovoltaicas de 52 painéis cada, uma no quartel e outra na piscina. “Vale muito a pena, nota-se muito. Poupamos entre 12 a 14 mil euros por ano, ou seja, mais de mil euros por mês”, explicou Carlos Gouveia, da direção dos Bombeiros, à Gazeta. Tal representa uma poupança de quase 20% na fatura energética do quartel e de oito a nove por cento na piscina. “É espetacular”, frisa. O investimento rondou os 35 mil euros e num prazo de três anos estará pago. “Foi muito bom para os Bombeiros”, frisa. “Temos um problema na piscina, que precisa de melhorias, mas o edifício não tem licença de utilização”, conta. É preciso melhorar o aquecimento das águas e adquirir bombas com maior eficiência. Mas também é necessária uma manta para cobrir a piscina durante a noite. Depois pretendem dotá-la de mais painéis. No quartel, “mudámos as janelas todas e a iluminação para LED e isso permitiu uma poupança energética”.
Na Benedita os Bombeiros investiram num estacionamento que funciona como central fotovoltaica e que permite uma poupança a rondar os mil euros mensais. Os cerca de 65 painéis custaram mais de 78 mil euros e permitem uma poupança de 40% na fatura energética. ■