Andreia Heitor, a pescadora que aprendeu a gostar do mar

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A pescadora dentro do seu barco Odin, no porto de abrigo da Nazaré

Natural da freguesia da Cela, no concelho de Alcobaça, Andreia Heitor é pescadora desde 2015. A jovem, de 30 anos, e com formação na área, acompanha o marido diariamente e é ela a responsável por atirar as artes ao mar

Não provém de uma família com ligações ao mar, nem a pesca fazia parte do seu mundo, até que o marido começa a ir ao mar com colegas e ganha-lhe o gosto. Rui Heitor compra uma pequena lancha de seis metros e, algum tempo depois, um barco a gasóleo, mais estável e que já lhe permitia ir até às 25 milhas da costa. Tem o barco desde 2015 e, um ano depois, Andreia Heitor começa a “fazer-se ao mar”. A até então vendedora num minimercado aprende as artes da pesca para ajudar o marido. Começa por tirar um curso no Formar, na Nazaré, que lhe deu a carta de pescadora e passa a acompanhar o “mestre” a bordo do Odin. Nunca tinha andado no barco e a primeira vez sentiu-se mal disposta, mas depois foi-se habituando e, hoje em dia, o mar já não lhe faz “impressão”, conta à Gazeta das Caldas.
Sempre que o tempo está bom, o dia do casal começa no mar. Ao fim de semana, deixam o Porto de Abrigo da Nazaré de madrugada, embora a hora esteja “dependente das artes”. Se forem à pesca com redes (para apanhar cherne, carapau, raia ou safio) partem pelas 4h00 da manhã, para começar a largar pelas 5h30, 6h00, ao romper do dia. Já as gaiolas, usadas para apanhar o polvo, mas também o marisco, são colocadas mais perto da costa, e não precisam de ir tão cedo.
Durante a semana vão mais tarde. Deixam as três filhas na escola e partem, largando as redes pelas 9h30 e trabalhando mais perto da costa. E como sabem o que ir pescar? “É o mar que manda, se está raso vamos ao polvo, mas nesta altura do ano usamos mais as redes”, conta a celense, que gosta particularmente de desemalhar o peixe das redes. “Ficamos contentes quando vemos o resultado do nosso trabalho”, partilha. E quando chegam os dias de mau tempo, o casal fica em casa a preparar as artes.
Andreia Heitor nunca apanhou um susto no mar, mas conta que, por vezes, saem da barra com o mar calmo e, “de um momento para o outro, começa a levantar-se o vento forte e ficamos apreensivos”. Por outro lado, já viveu momentos bons, sobretudo quando os golfinhos acompanham o dia de pescaria.
“Esta profissão, se não for entre familiares, é muito difícil”, realça Rui Heitor, acrescentando que o “pessoal novo” quer ter um emprego certo e que a pesca é uma incerteza. Para além disso, é muito solitária, Andreia e Rui passam longas horas em que apenas vêm céu e mar no horizonte, mas acabam por estar “sempre entretidos”, adianta a pescadora.
O barco é conduzido pelo marido e Andreia toma conta das artes. Ao apito, ela lança as redes ao mar e garante que estas ficam bem esticadas para apanhar o peixe. Uma tarefa que exige atenção, porque as artes são lançadas com o barco em andamento e basta um descuido para a pessoa magoar-se ou ficar presa.
“O fato também é largo para prevenir, deve sair bem caso algum cabo prenda na roupa ou botas”, esclarece Rui Heitor, que já teve alguns precalços.
Apesar de a pesca ser uma profissão exercida essencialmente por homens, Andreia nunca se sentiu discriminada. E ressalva que, noutros locais do país, como na zona da Póvoa do Varzim são as mulheres quem entralha as redes, que vão à chegada dos barcos para levar o peixe e deixam-no na lota. Noutros casos, são as mulheres que trazem os barcos e depois levam para outros portos. “Considero que não há profissões de homens e outras de mulheres, quando temos de fazer uma coisa, esforçamo-nos e fazemos”, conta a pescadora, que é o exemplo dessa determinação.
Atualmente com 30 anos e três filhas, todas pequenas (com idades entre os 4 e os 9 anos), Andreia Heitor quer continuar na pesca, pois permite-lhe conciliar o horário com o da escola. As meninas ainda não foram ao mar, mas está prometida uma ida para verem os golfinhos. Para o futuro, porém, não é uma profissão que deseje para as filhas: “prefiro que elas estudem e tenham outra vida, que a do mar é complicada”. ■