Natural das Caldas da Rainha, António Abílio Parente aprende aos 12 anos a profissão de electricista, que o levará mais tarde a embarcar no paquete Amélia de Melo. Uma discussão com elementos da Pide, que integravam a tripulação do barco, leva-o a decidir, em 1969, emigrar para a Holanda, onde trabalhou em navios e conheceu perto de meia centena de países. Desses tempos guarda muitas histórias e aventuras. E algumas desventuras, como a do contrabando de whisky, que ditaria o seu regresso ao Chão da Parada em Março de 1975.

Nascido nas Caldas a 3 de Janeiro de 1942, António Abílio Parente teve o primeiro trabalho aos 12 anos. Tinha acabado de sair da escola e começou a “andar às galinhas”, como se dizia comummente a quem comprava galinhas para depois vender. António ganhava então 60 escudos (cerca de 30 cêntimos) por mês.
Entretanto, a mãe tinha feito um pedido para António ir trabalhar para os Capristanos, mas como a resposta tardou e tinha uma prima que era dona da loja Fluorescente de José Vinagre Félix (depois viria a tornar-se a Casa Vinagre) falou com ela. António é admitido e aprende a profissão de electricista. Foi nessa casa comercial que continuou a trabalhar, até ir para a tropa, aos 20 anos, para o Campo de Tiro da Serra da Carregueira.
Aos fins-de-semana, sempre que vinha a casa, continuava a fazer biscates para os patrões, arranjando aparelhos eléctricos ou fazendo outras pequenas reparações. Uma das casas em que normalmente fazia esses trabalhos era a do médico Ernesto Moreira, onde era “tratado como se fosse um filho”, recorda. Numa dessas ocasiões veio do Cacém, de comboio, e foi a casa do médico, ainda fardado, para entregar um ferro de engomar e a esposa, Judite Moreira, perguntou-lhe onde estava a fazer a tropa e qual o seu número. Enquanto António foi à cozinha comer a sandes que lhe era oferecida, a senhora fez um telefonema e depois informou-o que na segunda-feira seguinte seria chamado ao comandante, que era o seu irmão, José Maria Gil Júdice. Assim aconteceu: o número 2091 foi chamado ao comandante, que o mandou para a Escola Militar de Electromecânica em Paço de Arcos.
Corria o ano de 1963 e António Parente conta que aproveitou bem a oportunidade, pois aquele diploma permitir-lhe-ia várias oportunidades de emprego, como ir trabalhar para a Tap ou tirar a cédula marítima. Saiu da Escola Militar de Paço de Arcos e foi para Queluz, para o Regimento de Artilharia Anti-Aérea Fixa e depois foi transferido para o quartel de Porto Brandão (Caparica) onde esteve nos serviços de Electromecânica e foi chefe da oficina.

Uma mobilização injusta

Com 18 meses de tropa feitos, António Parente estava no Chão da Parada, onde agora vivia a família, para gozar um mês de licença. Mas é chamado ao quartel de Queluz porque está mobilizado para ir para o Ultramar. “Chorei muito juntamente com a minha mulher, que na altura era namorada”, lembra, acrescentando que os melhores alunos eram os últimos a serem mobilizados para combater no Ultramar e António tinha sido o segundo melhor.
Na data prevista apresentou-se no quartel e ali encontrou também os últimos classificados do seu curso. Foi ter com o comandante e logo se apercebeu que algo estava errado com a sua mobilização, apercebendo-se depois que tinha havido um suborno para que ficasse outra pessoa na sua vez. Resolvida a situação, António conseguiu não ser mobilizado e foi para Coimbra, durante 23 dias, para as festas da Rainha Santa onde trabalhou com os holofotes da Artilharia Anti-Aérea fixa, que tinham que acompanhar a procissão.
Acabada a tropa voltou para o antigo patrão, nas Caldas, mas a sua ideia era não permanecer lá por muito tempo. António já namorava, queria casar e ter um futuro melhor.
A primeira vez que teve férias, aproveitou-as para preparar a sua cédula marítima, que possui desde 21 de Julho de 1966, com a categoria de ajudante de electricista.
Com o documento na mão foi preparando o enxoval que quem andava embarcado precisava de ter e ficou à espera de ser chamado. Um vizinho do Chão da Parada que já andava embarcado disse-lhe, entretanto, que o paquete onde trabalhava, o Amélia de Mello, precisava de um electricista.
Como António Parente estava empregado na loja aproveitou a oportunidade para pedir um aumento ao patrão (que era também seu padrinho), e como este o negou, o jovem informou que teria então que arranjar outro empregado pois ele ia embora. Na altura António ganhava 1800 escudos (9 euros) por mês.
Fez-se então ao mar. Embarcou a 29 de Novembro de 1966 no Paquete Amélia de Mello, um navio que fazia a rota das colónias africanas levava mais de 420 passageiros e carga.
O até agora electricista em terra aprendeu um segredo para não enjoar no barco e que garante que é eficaz: comer uma posta de bacalhau salgada com pão e depois aguentar a sede e não beber água. “Foi remédio santo”, diz o caldense, que andou vários anos no mar e sem nunca mais sofrer de enjoos, mesmo nas alturas de maior turbulência.

Tramado por colegas no barco

António Parente e Maria de Lurdes, com quem está casado há 52 anos

um dos dias em que andava em alto mar saiu do turno, na casa das máquinas e foi para a messe. A refeição era peixe cozido, mas não havia azeite para a temperar. António pediu uma omelete, que lhe foi negada. Mais tarde viria a encontrar o despenseiro de bordo, juntamente com os “frigorifeiros” a comer uma caldeirada de cabrito no frigorífico do barco. “Eramos novos, tinha sangue na guelra e revoltei-me, chamei-lhe de tudo, mas não sabia que ele era da Pide”, diz António Parente, sobre a discussão que viria a alterar a sua vida.
Na viagem seguinte do paquete ficou em terra, de férias, juntamente com outros colegas e quando foi para embarcar de novo, um comissário que lá estava avisou-o para fugir pois iria ser preso, tendo sido dado como comunista. “Vim para casa a chorar”, recorda.
Face aos novos acontecimentos, António Parente percebeu que teria que sair do país. Falou com um senhor das Caldas, António Ramalho, que andava embarcado na Holanda e que lhe disse para tentar arranjar um passaporte para o levar consigo e que na Holanda lhe arranjaria trabalho.
Corria o ano de 1969 e António Parente decidiu ir falar com o então presidente da Câmara das Caldas, Paiva e Sousa . Contou-lhe o que se passava e pediu-lhe para obter um passaporte. Deixou os dados e foi-lhe dito para voltar 15 dias depois. “Foi um santo que me apareceu: 15 dias depois tinha o passaporte”, recorda, acrescentando que o passo seguinte foi dirigir-se a Santarém para tratar da licença militar.
Nesta altura já António estava casado há dois anos com Maria de Lurdes. Tinham começado a namorar num baile da terra, tinha ele 20 anos e ela 17. Já tinha também a sua única filha, que tem actualmente 51 anos.
Como o dinheiro ganho no navio tinha sido todo investido na casa que fez no Chão da Parada, António Parente teve que pedir 10 contos (50 euros) emprestados para poder emigrar. Deixou 500 escudos (2,50 euros) à mulher e levou o resto do dinheiro porque não sabia o que iria encontrar na Holanda.

Partida para a Holanda em 1969

A 18 de Julho de 1969 António Parente já estava na Holanda a trabalhar, como atesta a sua cédula marítima. A viagem para o norte da Europa foi feita de comboio. Embarcou na já desaparecida estação do Bouro e viajando em sucessivos comboios atravessou Portugal, Espanha, França e Bélgica até desembarcar na estação de Rosendahl (Holanda), onde se instalou na Pensão Alegre que era de um proprietário português.
Foram à procura de trabalho na companhia onde estava António Ramalho – a Van Nievelt, Goudriaan & Co’s Stoomvaart Maatschappij, N.V. – e ficou combinado que logo que houvesse alguma vaga que o português era chamado. Poucos dias depois António Parente estava a apresentar-se no navio granoleiro Asmidish, onde agora, por dificuldade na língua, já não executava as funções de electricista, mas de segundo cozinheiro e padeiro. Foi a exercer essas tarefas que partiu no navio rumo ao Canadá. “Foi uma viagem terrível porque o navio ia em lastro [não levava carga]”, recorda, acrescentando que carregaram o grão que depois viriam a descarregar em Chicago (EUA). Cada viagem demorava um a dois meses e, durante o Inverno, havia rios no Canadá onde os quebra-gelo tinham que andar à frente do navio para que este pudesse seguir viagem.
O barco, onde andou durante 13 meses, também chegou a ir buscar alumínio à Guiana Inglesa (América do Sul), que depois ia descarregar na Canadá. A 3 de Dezembro de 1970 desembarcou e veio passar um mês de férias a Portugal, o primeiro, desde que tinha emigrado.

Procurado pela Pide

Entretanto, enquanto estava embarcado no Asmidish, apareceram dois elementos da PIDE na sua residência no Chão da Parada. Era noite e em casa estavam apenas a mulher e a sua filha pequena. Perguntaram por António Parente e a esposa, Maria de Lurdes disse-lhes onde ele estava. No final, um deles voltou-se para trás e aconselhou-a a não voltar a dar tantos pormenores, limitando-se a dizer que António saiu do país, caso aparecessem outros polícias a procurá-lo.
Não voltou a acontecer e o tempo que António passou no Chão da Parada decorreu sem sobressaltos. Quando se preparava para regressar à Holanda, um rapaz da terra pediu-lhe se o levava consigo, para tentar fugir à tropa, a que António acedeu e ajudou-o, inclusive, a tratar dos papéis em Santarém.
Na viagem para Holanda António é interpelado por elementos da Pide, já junto à fronteira, que o mandam regressar a casa. Mas o emigrante trocou-lhes as voltas. Disse ao amigo com quem viajava que levasse a sua mala e que quando chegasse a Hendaya esperasse por ele na estação do comboio, que ele lá estaria.
Entretanto, António telefona à esposa mas não regressa a casa. Vem até S. Martinho do Porto falar com um homem que conhecia um “passador” em Melgaço. António é então orientado para apanhar o comboio para o Norte, sair no Porto e ir ter a Viana do Castelo, onde teria o “passador” à espera. “Ele disse-lhe como eu era, o que levava vestido, tudo”, recorda, acrescentando que quando chegou ao ponto de encontro viu um Volkswagen estacionado e um indivíduo dirigiu-se a ele e disse-lhe: “entre aí para dentro e não fale nada”. António fez o que o “passador”, de nome Horácio, lhe indicou e foi levado para uma pensão em Monção, onde pernoitou. A meio dia do dia seguinte voltou para o levar para perto de Melgaço. “Não sei por onde passei, só sei que atravessei um rio e encontrámos uma senhora que vinha de Espanha e que me disse está livre”, recorda. António estava aflito até que chegou a Venta de Baños, já em Espanha, e pôde seguir viagem de comboio para junto do amigo, que o esperava.
Já em 1971 conseguiu obter um passaporte na Holanda, de imigrante, o que lhe permitiu depois ir e vir descansado, até de avião.

Ouvir jazz em Nova Orleães

barcar no navio Castilla, da mesma empresa, que fazia o transporte de bananas. Arranjavam tripulações mistas com portugueses, cabo-verdianos, galegos, espanhóis e holandeses e “nunca houve o mais pequeno desentendimento com ninguém”, recorda.
Este trabalho permitiu-lhe conhecer os portos de praticamente todo o continente americano. Uma vez saiu do navio para ir conhecer Nova Orleães, juntamente com o amigo Joaquim do Coito, e deram-se ao “luxo de ir à Bourbon Street, que era onde os “monstros” do jazz tocavam, para os ouvir, mas da rua”, lembra.
No barco, António trabalhava na cozinha – era o responsável pelas entradas e era também quem lavava a loiça e fazia o pão.
Depois do Castilla foi para outro bananeiro chamado Talamanka, onde fez duas viagens e conheceu mais uma série de países. Desses tempos recorda que, apesar de não ser permitido à tripulação sair dos barcos, ele acabava sempre por arranjar maneira.
Foi na Líbia, do tempo do Kadhafi, que António Parente fez o maior negócio da sua vida. Vendeu duas caixas de whisky (ainda que tivesse sido avisado pelo comandante que era proibido vender bebidas importadas) a um cabo-verdiano também embarcado que lhe pagou e depois as despachou. Com esse dinheiro foi a terra e comprou mais de uma dezena de rádios Philips, que depois escondeu dentro de um saco tapado de peixe e levou para o barco, para os vender na Costa Rica. “Era assim que conseguia fazer mais algum dinheiro para poder mandar o meu ordenado inteiro para casa”, conta, lembrando que ganhava 550 florins, o que na altura correspondia a 3.500 escudos (cerca de 17 euros).
“Um ordenado que era melhor do que se ganhava por cá e também pagavam à parte as horas extraordinárias”, acrescentou o emigrante.

Apanhado a fazer contrabando

Na carreira do Brasil, que começava em Manaus e depois passava por localidades como S. Salvador da Baia, Ilhéus, Rio de Janeiro, Santos e Rio Grande do Sul, António Parente já não trabalhava na cozinha. Era criado e cabia-lhe as tarefas de limpar as cabines dos oficiais e lavar os corredores, entre outras. Nessa altura já falava holandês e o comandante chega ao pé dele e diz-lhe que teria que ir para o bar. De acordo com o emigrante caldense, esta proposta surgiu porque o comandante bebia muito e o empregado do bar, que era holandês, não lhe servia a bebida por tal não ser permitido.
António assumiu as novas tarefas e, porque o comandante bebia mas não pagava a bebida, o valor tinha que ser reposto do bolso do português. A compensação vinha em tabaco e whisky, que depois era contrabandeado e já era tido como uma prática corrente. Mas houve um dia em que não correu bem e foram apanhados em Buenos Aires (Argentina).
Os conhecimentos que António tinha no local permitiram que o navio não fosse multado, mas o tripulante logo que chegou a Roterdão foi mandado embora da empresa. “Os holandeses têm uma coisa muito boa, mas também muito má: as pessoas têm que fazer mil coisas bem e não podem fazer uma coisa mal”, conta, destacando a exigência que têm para com os trabalhadores.
Um oficial ainda quis arranjar-lhe trabalho noutra companhia na Holanda, mas António Parente decidiu regressar a Portugal, o que aconteceu a 11 de Março de 1975.
Nesse dia houve uma tentativa falhada de golpe militar, organizada pela facção afecta ao general António Spínola. Esta operação, que sai gorada e obriga Spínola a exilar-se em Espanha, resulta de notícias enviadas pelos serviços secretos espanhóis que davam conta da preparação de um golpe da esquerda radical, que previa o assassinato de 1500 pessoas ligadas à direita.
De Lisboa até ao Chão da Parada o táxi onde António veio teve que parar umas 10 vezes a mando de brigadas dispostas pelo caminho. Para comemorar o regresso, o casal matou um porco que a mulher tinha criado e juntaram toda a família.
António voltou a contactar o padrinho para saber se lhe dava emprego e perante a resposta negativa, começou a trabalhar por sua conta até que os amigos Arlindo Rosendo e António Alfredo Aniceto o convidam para ir trabalhar para os Serviços Municipalizados. O ordenado era de 5500 escudos (27,43 euros).
Começa a trabalhar nos Serviços Municipalizados das Caldas em 1975 como electricista, que incluía trabalhar também na GNR, PSP, Tribunal e Finanças, além da própria autarquia. Depois, esses serviços mudam para a EDP, que foi formada em 1980, essencialmente com os trabalhadores das camaras. Também António Parente ingressou na empresa e o seu salário mais do que duplicou, passando a auferir por mês 11.700 escudos (57 euros). Permaneceu no piquete de avarias das Caldas, da EDP, até que em 1999, com 60 anos, negociou a pré-reforma. Daí para cá fez muitas festas e tem tido uma vida associativa activa, que começou quando veio da Holanda, e dedicou-se ao folclore, no qual esteve durante quase 30 anos ligado à associação do Chão da Parada.
Hoje conta que não guarda grandes saudades da Holanda. Por outro lado, ao contrário de outros emigrantes da região, nunca aproveitou para fugir do navio no Canadá ou nos Estados Unidos porque não quis e sempre entendeu que “se fosse para viver noutro país, era na Argentina, pela sua paisagem e a beleza natural”.