“Apoiar os pacientes com cancro é um privilégio”

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O enfermeiro Filipe Carvalho, enfermeiro coloretal do ano no Reino Unido e personalidade do ano para a redação da Gazeta das Caldas, tem como prioridade criar condições para ajudar os doentes

Personalidade do ano de 2021 para a Gazeta das Caldas, o caldense Filipe Carvalho, vencedor do prémio Gary Logue, assegura, em entrevista, que os enfermeiros portugueses são muito respeitados no Reino Unido.

O que significa, sendo português, vencer este prémio?
Fiquei extremamente grato por ter sido selecionado. É uma grande honra para mim ter o meu trabalho reconhecido desta forma, embora esta conquista não seja algo que fiz sozinho, e há muitos outros que merecem compartilhar neste prémio, incluindo todos os outros nomeados cujo cuidados de saúde são de excelente qualidade. O facto de este prémio ter sido atribuído a um enfermeiro português é muito especial para mim, pois sempre fui defensor da boa fama que os enfermeiros portugueses têm no Reino Unido. A enfermagem portuguesa no Reino Unido é bastante valorizada pelos doentes e profissionais de saúde, pois, em geral, temos melhor formação, e somos mais proativos e independentes.

Quando fala em melhor formação refere-se a quê?
Isso é o resultado de a licenciatura portuguesa ser quatro anos e muito mais exigente quando comparada com outras, algumas de apenas três anos. Além do mais, os profissionais de saúde portugueses tendem a ser mais capacitados, mais sorridentes e mais cuidadosos. O mais importante é ter um trabalho que me permite ajudar pacientes todos os dias. Ser capaz de apoiar os pacientes a obter o máximo das suas vidas durante um momento tão difícil é um grande privilégio.

E o que faz, em concreto, um enfermeiro coloretal?
Um enfermeiro coloretal é um enfermeiro especialista em doenças do intestino, reto e ânus. Existe uma grande variação em termos de funções. No meu caso, trabalho com pacientes com cancros avançados, que requerem cirurgias extremamente complexas e difíceis. Trabalho com um equipa de cirurgiões e o meu dia a dia envolve garantir que os cuidados prestados são de padrões excecionais, incluindo prescrever medicação, fazer avaliação clínica de doentes, e admitir e dar alta a doentes de forma autónoma e independente. Sou também responsável pelo recrutamento e gestão e organização do serviço de cirurgia coloretal, o que envolve liderar uma equipa diversificada de profissionais de saúde, incluindo fisioterapeutas, nutricionistas, cuja principal missão é garantir o fornecimento constante de cuidados de saúde eficazes, seguros e de alta qualidade, juntamente com a alta satisfação do paciente. Muitas vezes utilizo o meu conhecimento e experiência, em colaboração com a equipa multidisciplinar, no desenvolvimento de novas políticas e protocolos, implementando mudanças e garantindo um atendimento de qualidade excecional.

A pandemia tem colocado muitos desafios aos profissionais de saúde. Como tem sido em Inglaterra?
Em Inglaterra, e um pouco como por todo o mundo, a doença atingiu novos níveis, levando a um aumento drástico nos níveis de cuidados do paciente que afetou todos os que trabalham no Serviço Nacional de Saúde. Foi uma experiência indescritível, com pacientes extremamente doentes e em risco de vida. Como profissionais de saúde estamos preparados para lidar com a morte, mas apesar da nossa experiência e aprendizagens e de tentarmos fazer o melhor possível, ser incapaz de ajudar os pacientes com covid-19 e as suas famílias, não foi nada fácil a nível profissional e pessoal. Ter de lidar com situações destas e trabalhar em ambientes extremamente pesados dia após dia, levou muitos profissionais de saúde a sofrer de stress pós-traumático. Os elevados níveis de pressão, devido ao número crescente de pacientes mais velhos e doentes, falta de pessoal e cortes no orçamento que afetaram condições de trabalho, levaram muitos a demitirem-se e a procurar novos empregos, gerando uma crise de pessoal ainda maior. O facto de este vírus ser novo e tão desconhecido leva a que estejamos em constante adaptação e mudança do serviço. Mas nunca foi tão importante a entreajuda e nunca precisámos tanto uns dos outros. A retenção de pessoal e recrutamento eficaz são o grande desafio do Serviço Nacional de Saúde britânico.

O Brexit causou-lhe alguns transtornos? Como é que a comunidade lusa tem lidado com esta questão?
Sim, alguns. A nível profissional sempre senti que emigrar para o Reino Unido foi a decisão certa, mas após o referendo de 2016, e a nível pessoal, senti que não era bem vindo e que o meu trabalho árduo estava ser desperdiçado. A sobrecarga de informações e opiniões negativas criou um ambiente sombrio, e sentimentos avassaladores e a perceção de que a vida de qualquer cidadão da UE no Reino Unido estava incerta. Como emigrante, vim para o Reino Unido, como muitos outros, em busca de melhores condições de trabalho e remuneração e, na última década, alcancei objetivos profissionais e académicos que dificilmente alcançaria em Portugal. Tenho o privilégio de trabalhar num hospital [Royal Marsden] que é extremamente favorável a qualquer profissional de saúde internacional, e me tem suportado de forma imensurável. No entanto, independentemente de todas as vitórias e suporte profissional, o clima de incerteza fez-me pensar se o meu futuro era no Reino Unido ou não, pois o meu bem-estar pessoal é o mais importante.

Como encara o futuro?
A incerteza sobre o futuro dos portugueses no Reino Unido foi e é uma grande preocupação e gerou medo e apreensão. Como muitos outros emigrantes portugueses, quero viver num país acolhedor e não ter inseguranças sobre possíveis mudanças no processo de imigração que tornarão viajar mais difícil, principalmente no retorno ao Reino Unido. Quero sentir-me seguro e não ter preocupações com implicações financeiras associadas com o aumento do custo de vida, alterações nas deduções fiscais, bem como possíveis dificuldades de acesso a apoio financeiro. Quero sentir-me valorizado e não explorado, ter segurança no emprego e remuneração justa em vez de condições de trabalho precárias. Por enquanto, a minha vida não mudou muito com o Brexit, e tenho o suporte de muitos amigos e colegas de trabalho aqui no Reino Unido, incluindo da minha esposa, que é inglesa. ■

“Os enfermeiros portugueses são valorizados no Reino Unido”

Oportunidades de progressão na carreira travam regresso

Filipe Carvalho não esconde que a “valorização não só financeira como profissional de que os enfermeiros, e os portugueses em particular, gozam no Reino Unido foi uma das principais razões” para emigrar. E, para já, não equaciona um regresso ao nosso país.
“Em Inglaterra, somos valorizados, há progressão na carreira, formação contínua, muito melhor remuneração e, além disso, aqui um enfermeiro pode fazer muito mais”, afiança o caldense, sublinhando que no Reino Unido pode “fazer avaliação clínica e prescrever qualquer medicação, o que em Portugal está reservado aos médicos”.
“Trabalho com profissionais de saúde, incluindo médicos com décadas de carreira, que respeitam a minha posição, opinião e trabalho. Neste momento, se voltasse, não sei onde encaixaria as minhas competências. Quando trabalhei em Portugal há mais de 13 anos, tal, como muito colegas, estava descontentes com as condições de trabalho, o salário e a dificuldade de progredir na carreira. A perspetiva de um país e de um trabalho novo pareceram-me um desafio aliciante. De qualquer das formas, nem tudo é fácil, e as saudades da família pesam, mas neste momento voltar não está no horizonte”, resume.
O caldense não esquece as origens, mas interrompeu o ritmo habitual de regresso à cidade onde nasceu, por causa da pandemia. “Sensivelmente, de quatro em quatro meses vou às Caldas visitar a família”, diz Filipe Carvalho, que olha para as Caldas como “um porto de grandes memórias”. Além disso, a esposa, britânica, adora a cidade “e a qualidade de vida” quando estão de visita. “Apreciamos ir às compras na Praça da Fruta, mandar um mergulho à Foz ou a São Martinho, e estar rodeado de pessoas amigáveis”, conclui o enfermeiro. ■