Buracos negros dão mote a conferência sobre ciência no CCC

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Gazeta das Caldas
“Se o nosso Sol fosse transformado num buraco negro, seria mais pequeno do que Lisboa”, diz Vítor Cardoso

Esqueça tudo o que pensa que sabe sobre os buracos negros, ou o que viu nos filmes de ficção científica. O professor Vítor Cardoso vai esclarecer tudo o que a ciência moderna sabe hoje sobre estes corpos celestes misteriosos, numa conferência intitulada Ondas gravitacionais – a nova luz, no pequeno auditório do CCC. A sessão, organizada pelos Dragões do Oeste com o apoio da Gazeta das Caldas, realiza-se na próxima quinta-feira, 14 de Junho, pelas 21h00, e é o seguimento da conferência O Universo na ponta de uma agulha, que no ano passado levou àquela sala cerca de 200 pessoas. Fique com um aperitivo nesta segunda parte da entrevista que Vítor Cardoso concedeu à Gazeta.

GAZETA DAS CALDAS: O senso comum diz que um buraco negro é como que um aspirador do espaço, que suga tudo à sua volta. A realidade é essa?
VÍTOR CARDOSO: Buracos negros são buracos no espaço-tempo. Na superfície de um buraco negro o tempo pára, acaba. Os buracos negros são distorções do vácuo, distorções causadas pela morte de uma estrela. Estes objectos, apesar de tão estranhos, tão longe da nossa experiência do dia-a-dia, são bastante simples, na realidade. São formados quando as estrelas “morrem” e implodem. Por isso são normalmente muito pequenos: se o nosso Sol fosse transformado num buraco negro, seria mais pequeno do que Lisboa!
Os buracos negros não são aspiradores…muito pelo contrário! Recorrendo mais uma vez ao exemplo do Sol: se o Sol fosse de repente transformado num buraco negro, a força sobre a Terra mantinha-se a mesma, e nós continuaríamos a orbitar o Sol uma vez por ano. A força com que os buracos negros atraem objectos é muito grande apenas junto deles, mas os buracos negros são muito pequenos… é muito difícil cair num. De facto, quase o oposto acontece: sabemos desde há uns anos que os buracos negros são uma fonte de vida nas galáxias: a matéria que cai e se afunda até ao pé do buraco negro é agitada, como por uma varinha mágica gigante, e atirada para grandes distâncias, muito para longe do buraco negro. Esta matéria pode formar estrelas, e pode até dar origem a vida como a nossa.

G.C.: A força gravitacional próxima de um buraco negro provoca uma deformação no tecido do espaço-tempo. O que isto quer dizer exactamente?
V.C.: Quer dizer que o tempo e a noção de distância de pessoas diferentes é diferente consoante o campo gravitacional onde elas estão. Por exemplo, se tomarmos dois relógios idênticos e levarmos um destes para o cimo de uma montanha, ele vai adiantar-se em relação ao seu relógio gémeo. Não há problema mecânico nenhum com os relógios, é o próprio tempo que corre de forma diferente. O tempo e o espaço são uma única entidade com vida própria, indissociável.

G.C. Os buracos negros são “só” uma força destruidora, ou representam um papel importante no equilíbrio da galáxias, e do próprio universo?
V.C.: Como disse acima, os buracos negros não são uma força destruidora. Creio que o que leva alguns de nós a pensar isso é a fatalidade associada a buracos negros: se cairmos lá dentro nunca conseguiremos sair. Mas isso não quer dizer que tenhamos que cair dentro do buraco negro.
Os buracos negros desempenham um papel fulcral na vida das galáxias. Todas, ou quase todas as galáxias, contêm um buraco negro gigantesco no centro, que controla a formação de estrelas e o transporte de energia na galáxia inteira. É um processo e uma rede de ligações incrível!

G.C.: Têm sido encontrados estes corpos celestes em localizações que surpreenderam os próprios cientistas. Que conclusões se tiraram dessas descobertas?
V.C.: Há algumas décadas descobrimos um buraco negro gigantesco mesmo no centro da galáxia. Tem cerca de 4 milhões de sóis, em massa. Há poucos dias foi anunciado que na vizinhança deste “monstro” existem dezenas, se não milhares de buracos negros mais pequenos. As implicações sobre a evolução do universo e sobre o que nos rodeia são muito grandes, e está ainda em debate o significado destas descobertas. Nos próximos anos, temos dois telescópios que vão observar estes buracos negros e dizer-nos como é que eles se comportam, e se a teoria de Einstein é válida em toda a região… nada mau, se considerarmos que há poucos anos atrás buracos negros eram considerados uma fantasia matemática!

G.C.: De que modo é que o estudo dos buracos negros já potenciou, ou pode potenciar, desenvolvimento tecnológico?
V.C.: O estudo de buracos negros, ou de qualquer outro tópico em física, é feito para elevar a humanidade. O conhecimento serve para satisfazer a curiosidade. Serve para sabermos quem somos e o que nos rodeia. Da mesma forma que um poema de Fernando Pessoa serve para nos sentirmos mais realizados, com a beleza que encontramos no pensamento de outra pessoa que tenta descrever o mundo.
É um facto que quando percebemos melhor o que nos rodeia, podemos usar esse conhecimento para tentar mudar o mundo, ou pelo menos adaptá-lo a nós. Isto tem acontecido ao longo da história da humanidade, com todas as descobertas fundamentais. A procura de buracos negros usando ondas gravitacionais, por exemplo, permitiu desenvolver os melhores métodos de polimento de superfícies ou os amortecedores mais avançados de sempre. Mas eu gostaria de repetir que não é por isso que se faz esta procura, ou que se deva fazer esta procura. Saber que a Terra gira em volta do Sol pode trazer benefícios tecnológicos, mas mesmo sem isso… não é agradável acordar e saber que percebemos o funcionamento das coisas?

G.C.: Um dos receios em relação ao funcionamento do acelerador de partículas na Suíça era a hipótese de se formarem buracos negros durante as experiências. Essa possibilidade teórica é real? E se hipoteticamente isso acontecesse, o que estaria em causa?
V.C.: A possibilidade é real, sim. Esperamos que a energias muito grandes se formem buracos negros. O maior acelerador de partículas foi o universo quando nasceu, e julgamos que se formaram muito buracos negros nessa altura. Contudo, a mesma teoria que explica esta formação no CERN ou no início do universo, também explica que estes objectos devem “evaporar”, desaparecem perdendo a massa em fracções de segundos no caso do CERN. Portanto não há base teórica nenhuma para os receios que este buraco negro iria engolir a Terra.