Cais palafítico da Barrosa inaugurado

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Intervenção permitiu recuperar o cais e construir um novo observatório de aves

Recuperação do cais palafítico e construção do observatório de aves representam um investimento de cerca de 330 mil euros. Inauguração decorreu em dia de festa, com atuação do rancho folclórico

A tarde do passado sábado foi de festa no Nadadouro. A inauguração da requalificação do cais palafítico da Barrosa e do novo observatório de aves juntou dezenas de pessoas, que não quiseram perder o momento.
O Rancho Folclórico Esperança na Juventude do Nadadouro animou a cerimónia, com as danças e trajes típicos. Os elementos do rancho percorreram o cais e fizeram o trajeto até perto do observatório de aves.
Segundo a presidente da Junta do Nadadouro, Alice Gesteiro, o cais palafítico da Barrosa terá sido construído por marinheiros há largas décadas, sendo utilizado pelos pescadores e mariscadores, mas há mais de 20 anos que a Lagoa de Óbidos deixou de ser navegável naquela zona, o que levou ao esquecimento e abandono daquela infraestrutura.
Deste antigo cais ainda restavam alguns vestígios quando se iniciaram os trabalhos, mas já visivelmente degradados.

O Cais da Rainha
Ao contrário do Cais da Rainha, – que também fica no Nadadouro e que está bem documentado pois era o local onde a Rainha desembarcava quando vinha para as termas – o Cais Palafítico da Barrosa tem falta de informações, explica a presidente da Junta do Nadadouro.
Ainda assim, no artigo “Registo arqueológico e as alterações ambientais observadas na zona costeira da Lagoa de Óbidos ao longo do tempo, concelho das Caldas da Rainha: Evolução da paisagem e ocupação”, publicado no Boletim do Centro Português de Geo-História e Pré-História, os investigadores dão nota do cais palafítico abandonado. Os dados apontam para “vestígios pré-históricos e romanos associados à pesca junto ao atual cais, já em ruínas, onde se recolheram alguns pesos de rede”, refere o artigo de Alexandra Figueiredo, Cláudio Monteiro e Raquel Henriques, que consideram que terá sido ali construído um primeiro cais, de estrutura de apoio aos pescadores, mandado erguer por D. Sebastião, que se deslocava à lagoa para pescar.
A obra, que representa um investimento de cerca de 330 mil euros, tem uma extensão a rondar os 400 metros e inclui a construção de um novo observatório de aves, numa zona privilegiada. Esta estrutura, também em madeira, tem a forma de uma embarcação.
O novo cais palafítico tem nove entradas e uma zona de passadiço e não é direcionado a embarcações com motor, até porque a navegação a motor está proibida naquela zona da lagoa.

Falta melhorar a envolvente
Um dos próximos objetivos passa pela colocação de duas cabanas de pescadores, feitas sob o método tradicional, na envolvente do cais, que é a zona onde se situa o primeiro campo da bola do Nadadouro. Aí deverão também ser plantadas árvores autóctones. “Temos que melhorar esta zona e arborizar, para evitar que as canas invadam, como têm invadido e temos que fazer o caminho pedonal até ao centro da freguesia e uma eventual ligação das duas margens, que já temos vindo a falar”, disse Alice Gesteiro.
O presidente da Câmara das Caldas, Vítor Marques, afirmou que vão “estar atentos para que, no futuro, seja possível fazer outros investimentos, seja na questão do Cais da Rainha ou noutros momentos, que haverá muito para fazer aqui na nossa costa da lagoa”.
O edil caldense admite a necessidade deste projeto ter uma continuidade até ao Nadadouro. “Faremos este caminho”, assegurou durante a inauguração.
Já o adjunto da Secretária de Estado das Pescas, Ângelo Marques, salientou que “o papel dos GAL [Grupo de Ação Local] é exatamente este: manter viva a tradição olhando para o futuro e incentivando a ciência e a modernização do setor”.
O mesmo responsável recordou que “o GAL Pesca Oeste teve um valor de 354 milhões de euros de apoio público que permitiu aprovar várias dezenas de candidaturas”, entre as quais esta. “Este momento é um bom exemplo de um instrumento que privilegia a articulação profícua entre as entidades governamentais, as autarquias, as associações e outras entidades parceiras”, resumiu Ângelo Marques.
Por sua vez, o vice-presidente da Câmara das Caldas, Joaquim Beato, explicou que a obra não cumpriu os prazos, tendo demorado 387 dias a concluir, “porque as marés não ajudaram”. O autarca considera que esta “é uma obra que dignifica o local”. ■

O Rancho Folclórico Esperança na Juventude do Nadadouro na inauguração

 

Memórias de quem usava o cais palafítico

Policarpo Marques, é natural do Nadadouro e conta já 83 primaveras. O pai era pescador na Lagoa de Óbidos. “Tinha uns aparelhos para apanhar taínhas, que era o que ele pescava, que eram as narsas e eu, com sete anos, comecei a ir com ele e tomei o gosto”, recorda.
Mais tarde, há cerca de 50 anos e já depois de ter feito a tropa, combinou com o irmão e compraram um pequeno barco de madeira, a remos e começaram o seu negócio. “Eu e o meu irmão pescámos carradas de peixe na Lagoa, de todos os tipos, douradas, robalos, taínhas, linguados…”, conta.
“Na altura vínhamos vender à Praça do Peixe nas Caldas, a antiga, na Praça 5 de Outubro, e eu tinha uma motorizada Famel, com um atrelado que levava uns 80 quilos de peixe. Lembro-me de levar duas carradas, porque se vendia tudo. Vinham senhoras que tinham restaurantes em Lisboa para comprar o nosso peixe”.
O cais palafítico da Barrosa era o local mais abrigado, onde atracavam. Policarpo Marques lembra-se, por exemplo, de ver uma dúzia de barcos ali atracados. “Um dia vínhamos do braço da Quinta do Bom Sucesso e a aberta estava fechada. Já de madrugada, com a água muito alta, a chegar ao cais, veio um temporal que nos deixou cheios de medo de ir ao fundo”, conta. “Outra vez veio uma tempestade com relâmpagos e caiu um num pinhal perto de onde nós estávamos a pescar”. Há mais de 20 anos que Policarpo deixou de pescar, mas continua a ser um amante da Lagoa. “O novo cais vai atrair muita gente”, afirma. ■

Foto do antigo cais, cedida pela Junta de Freguesia