Caldas da Rainha e Deruta já são cidades irmãs

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Os representantes autárquicos das duas cidades unidas pela cerâmica

O protocolo de geminação entre as duas cidades com fortes tradições cerâmicas foi assinado a 24 de março no Hospital Termal. Este permitirá uma colaboração global entre as duas comunidades e o reforço dos lados de amizade já existentes

O presidente da Câmara de Deruta (Itália), Michel Tonniacini, ofereceu um ovo em cerâmica, pintado por artistas locais, ao seu homólogo caldense e deixou o convite para que, no próximo ano, artistas caldenses venham a concretizar esta tradição da cidade italiana. Este terá sido o primeiro desafio da geminação entre as cidades das Caldas da Rainha e Deruta, assinado no passado dia 24 de março, no salão nobre do Hospital Termal. A cerimónia, que começou no largo com a Banda Comércio e Indústria a interpretar os hinos nacionais dos dois países, contou com a presença de autarcas das cidades agora geminadas e do chefe de missão adjunto da embaixada de Itália, Simone Salvatore, para quem esta geminação se traduz num “testemunho de constante melhoria das já excelentes relações entre Portugal e a Itália”.
O protocolo assinado prevê a realização de atividades de colaboração nos domínios institucional, cultural, social, ambiental, desportivo e económico. Simone Salvatore destacou que as duas cidades partilham uma tradição secular, a cerâmica, que é também um sector que, de uma forma mais geral, une Portugal a Itália, “tanto de uma forma artística como artesanal e industrial, contribuindo para aumentar o intercâmbio entre os dois países que, desde há dois anos ultrapassou o valor recorde de 9 mil milhões de euros por ano”.

Vítor Marques e Michel Tonniacini assinaram o protocolo de geminação

Também a vereadora caldense, Conceição Henriques, falou sobre a herança comum das duas cidades, lembrando que nas Caldas, a arte do barro remonta às origens da cidade, no século XV. “A cerâmica é um elemento identitário”, salientou, abordando a criação de objetos utilitários, mas também a produção artística, de elevado valor decorativo e dimensão estética. Lembrou os artistas fundacionais da cerâmica tradicional, como Maria dos Cacos ou Rafael Bordalo Pinheiro, e os que contribuíram para que esta assumisse o seu lugar na corrente modernista, como Ferreira da Silva e Júlio Pomar, mas também o papel fundamental dos estabelecimentos de ensino, como a Escola Secundária Rafael Bordalo Pinheiro, o Cencal e a ESAD. Conceição Henriques falou também do acervo existente nos espaços culturais, das fábricas e oficinas artesanais, bem como dos criadores individuais, que têm feito a história da cerâmica e contribuíram para que obtivesse a chancela de Cidade Criativa da Unesco para o Artesanato e as Artes Populares.
Em fevereiro deste ano, a autarca caldense esteve em Deruta, para uma visita de reconhecimento do território e pôde constatar o seu património cerâmico. “O importante museu de cerâmica que serve de inspiração para o alargamento do museu de cerâmica das Caldas”, exemplificou a autarca, dando ainda nota da “riqueza da formação artística” que encontrou, nomeadamente no liceu artístico de Deruta, com o qual estão previstos intercâmbios.

 

A Banda Comércio e Indústria interpretou o hino dos dois países

Sinal de amizade e fraternidade
“Um momento histórico”. É assim que a assinatura do protocolo de geminação é vista pelo presidente da Câmara de Deruta, Michel Tonniacini, destacando que este permitirá ampliar o espírito de unidade, não só numa perspetiva cultural e turística, mas também num sinal de amizade e fraternidade entre as duas cidades. O autarca italiano realçou que, neste intercâmbio pretendem envolver, especialmente, os jovens, “com projetos que tocarão o mundo” e fazer um caminho, em conjunto, que potencie as áreas da história, artesanato, natureza, gastronomia e vinhos destes territórios.
Para o presidente da autarquia caldense, Vítor Marques, a “cerâmica é a língua que une Caldas da Rainha e Deruta”. Lembrou que o conceito de geminação entre cidades nasceu na Europa, após a II Guerra Mundial, por vontade de presidentes de câmara e cidadãos que assim queriam evitar um novo cenário de guerra. Considera que, tal como no passado, atualmente revela-se “fundamental promover instrumentos de desenvolvimento da dimensão não só europeia, mas de dimensão global, que possibilitem a afirmação de cidadania e diversidade cultural”.
A política de geminações, memorandos de entendimento e parcerias com cidades cerâmicas são, para as Caldas, “um instrumento valioso para a política cultural municipal e para a consolidação de projetos que aportam valor à chancela da cidade criativa da Unesco, no domínio do artesanato e das artes populares”, concretizou.
Vítor Marques salientou ainda que esta união com Deruta “promete valorizar ambas as cidades e promover intercâmbios enriquecedores”, envolvendo as comunidades, artistas e entidades para a “promoção de ações de cooperação em matéria de cultura, turismo, educação, desporto e atividades económicas”. Pediu o contributo de todos para o desenvolvimento dos projetos e reflexão de questões de interesse comum, realçando que é assim que se “constroem territórios mais coesos e resilientes”.
A comitiva italiana integrou também o vereador da cultura, Piero Montagnoli, e a conselheira da Câmara de Deruta para as relações internacionais e geminações, Laura Fuccelli. ■

Três dias de visita à cidade caldense

A comitiva de responsáveis autárquicos de Deruta esteve de visita às Caldas da Rainha entre os dias 23 e 25 de março. Para além da assinatura do protocolo de geminação entre as duas cidades com vasta produção cerâmica e rica história cultural, o encontro compreendeu visitas ao Centro de Artes, Museu da Cerâmica, Fábrica Rafael Bordalo Pinheiro, Cencal e Escola Superior de Artes e Design. A comitiva teve ainda possibilidade de conhecer alguns dos eventos caldenses, ao participar nas inaugurações da Ode à Primavera e da exposição nacional Saber Fazer, assim como no evento Domar o Fogo. A visita ficou completa com passagem pelo Hospital termal, Igreja de Nossa Senhora do Populo, Parque D. Carlos I, Praça da Fruta, Ermida de S. Sebastião e CCC.

Visita da comitiva ao Hospital Termal

Deruta é uma cidade com cerca de 10 mil habitantes e localizada na Região da Umbria. Sendo um dos grandes centros de produção cerâmica de Itália, apresenta evidências arqueológicas de muitas dezenas de fornos cerâmicos, os mais antigos dos quais remontam ao século XIII, e que têm vindo a ser preservados pelas autoridades locais. Contudo, tratando-se de uma região habitada há milhares de anos e contando com solos de argila de muito boa qualidade, florestas e banhada pelo rio Tibre, acredita-se que a produção cerâmica anteceda em muitos séculos os fornos conhecidos.
É também em Deruta que está localizado o maior museu de cerâmica de Itália, com mais de 6000 peças. ■