Quando o Carnaval das Caldas era um dos mais concorridos do país

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Notícias das Caldas

Caldas da Rainha já viveu grandes dias de folia carnavalesca. Havia bailes afamados, um concorrido desfile na Avenida com bilhetes pagos e até houve um ano em que foi contratado um casal de actores famosos das telenovelas brasileiras que veio abrilhantar o Entrudo local. A cidade envolvia-se nos festejos e havia quem passasse vários dias sem dormir. Gazeta das Caldas conversou com caldenses que dão o seu testemunhos destes carnavais de outros tempos.

“Fomos recebidos por uma autêntica multidão!”, disse Vítor Tomás, de 59 anos referindo-se ao Carnaval de 1980, ano em que ele próprio foi “rainha”. A tradição mandava que os reis do Carnaval fossem dois homens e que chegassem à Avenida de comboio. E foi assim que o então actor do grupo de teatro de revista da Corsolar (ver caixa) deu corpo e alma à ultima rainha do desfile caldense.

No Carnaval de 1980 foi no apeadeiro do Campo que Vítor Tomás apanhou o comboio para as Caldas e nem queria acreditar no mar de gente que o esperava. “Hoje só o Presidente da República juntaria tanta gente”, conta Vítor Tomás, acrescentando que a RTP veio acompanhar esta chegada.
“Fazíamos o desfile a pé, até aos Correios, seguíamos até à Rua das Montras e depois até à Praça”, explicou. Subia a uma varanda, próxima dos ex-Paços do Concelho, acompanhando o rei, que lia um discurso virado para a Praça, cheia de gente. A seguir, dirigiam-se ao restaurante Convívio (que ficava na praça) para o repasto. Só depois seguiam para os bailes dos Pimpões, da Columbófila, do Lisbonense e aos que decorriam foram da cidade, como na Foz do Arelho, no Campo e alguns em Óbidos “onde também éramos muito bem recebidos”, disse.
Naqueles dias, a corte e os reis almoçavam e jantavam no mesmo restaurante da cidade, que se enchiam de curiosos para os ver.
“Tenho ideia que Torres Vedras segue um guião muito parecido ao que nós fazíamos nas Caldas”, contou Vítor Tomás, sublinhando que os reis torrienses também são dois homens e a festa ser feita com a prata da casa. “Nós éramos o maior Carnaval. Torres começou a crescer quando o nosso se deixou de fazer”, rematou.

QUATRO DIAS SEM IR À CAMA

Ana Moniz, que também “curtia” o Carnaval, conta que “se viviam quatro dias de festa sem ir à cama!”. A foliona também pertenceu ao grupo de teatro da Corsolar e integrou o Carnaval durante vários anos, tendo sido um homem da corte.
Os carros alegóricos e trajes de Carnaval eram criados durante o ano nos armazéns da Câmara pela Corsolar, com apoio da autarquia. “E eram muito bem elaborados para aquela época”, rematou Ana Moniz.
Houve um ano, no final da década de 70, em que foram contratados para reis Carlos Eduardo Dolabella e a mulher, Pepita Rodriguez. Era um casal de actores brasileiros que, por causa das telenovelas, era muito conhecido em Portugal. Foi um sucesso enorme que atraiu ainda mais gente do que é habitual para ver desfilar o galã televisivo. As artérias por onde passava o cortejo eram vedadas e cobrados bilhetes à entrada.

Grupo de caldenses

 

Teatro, bailes e desfile

Alberto Gaspar tem 80 anos e durante muitos carnavais mascarou-se em grupo, com familiares e amigos. Além das Caldas ía para Torres Vedras, onde se juntava a um grupo de matrafonas com quem percorria os bailes.
Nos finais dos anos 40, Alberto Gaspar recorda que houve uma peça de teatro na Praça da Fruta, que representava um julgamento numa aldeia angolana e que foi interpretada por um grupo de Peniche. Nos anos 50, na cidade já se representava o Enterro do Bacalhau, uma procissão encenada onde não faltava o padre e o sacristão. “Naquele tempo era uma grande ousadia”, contou o caldense, referindo que havia gente religiosa que não gostava de paródias e que até chegou a chamar a polícia.
“O objectivo era angariar batatas e bacalhau para fazermos patuscadas”, recordou. Desta época também se lembra que se faziam bailes particulares, em largos ou em quintais particulares.
Segundo Alberto Gaspar, os desfiles eram um dos pontos altos. “Estes tinham muita fama e atraíam excursões do Norte ao Algarve”, disse Vítor Gaspar, acrescentando que o evento chegou a ser assistido por 20 a 30 mil pessoas. “O Carnaval dinamizava muito a economia local”, disse o folião, que salientou a acção da Corsolar e dos Pimpões.

BAILES A ABARROTAR DE GENTE

“Antigamente o Carnaval era mais característico e o que se salientavam eram os bailes”. Quem o diz é o caldense Guilherme Santos, 67 anos, que sempre se divertiu na sua terra natal.
O baile do Casino era mais selecto pois dirigia-se a sócios mas um dos principais era o do Lisbonense. “Estava sempre a abarrotar de gente”, contou o folião que se mascarava sempre com os amigos e mais tarde com a família.
No hotel, os bailes eram grandiosos e acompanhados por orquestras. “Os quatro dias custavam 80 escudos (40 cêntimos), numa altura em que se ganhava 200 escudos (um euro) por mês”, relembrou o folião acrescentando que a “liberdade da juventude começou naqueles bailes”. Numa altura em que o Hotel já mal funcionava, o seu espaço continuava a ser alugado apenas para a passagem de ano e, claro, para o Carnaval. A folia durava até de manhã e era famosa a “volta à Rainha” que era dada pelos resistentes, acompanhados pela Orquestra, na quarta-feira de cinzas. Enquanto os foliões ainda bailavam e dançavam, até meio da manhã, os funcionários da Secla passavam para ir trabalhar.
Os mascarados percorriam os vários bailes da cidade a pé e o percurso era interrompido para comerem um prego no pão, às duas da manhã, no Camaroeiro. Os bailes entretanto deram lugar às discotecas, que passaram a ter um papel cada vez mais preponderante nesta quadra.

ESTRATÉGIA PRECISA-SE

“Neste momento não há Carnaval nas Caldas!”. Palavras do caldense Paulo Agostinho que pertence a um grupo de foliões que se mascara há mais de 30 anos. Vai mantendo a tradição, mas dirigem-se a Torre Vedras para a festa. Nas Caldas, diz, “falta o espÍrito da folia”. Hoje há apenas alguns eventos pontuais.
Paulo Agostinho participou e foi em carros patrocinados por empresas nos desfiles da Corsolar. Depois seguia-se à noite para os bailes “e as pessoas envolviam-se nos festejos”. Nos últimos anos as coisas mudaram. No último jantar que tentou realizar nas Caldas eram 15 mascarados. “O gerente veio pedir-nos que fizéssemos menos barulho pois havia um casal que queria jantar tranquilamente. Assim não vale a pena…”, referiu o folião que defende que para voltar a existir espirito carnavalesco é preciso investir nos mais novos. Paulo Agostinho lamenta que no concelho só haja um único baile que envolve milhares de pessoas: o do Nadadouro. E refere, com agrado, algumas tentativas que têm sido feitas por associações, como os Pimpões, mas que tem que haver uma estratégia que, neste momento, não existe.
“Somos amigos há mais de 30 anos e mascaramo-nos todos os Carnavais”, reforça Paulo Feliciano do mesmo grupo, designado Godofredo. “Vamos continuar até as pernas deixarem!”.
Este considera que é preciso investir no Entrudo e começar a trabalhar com muita antecedência. Poderia apostar-se num Carnaval de Gala já que na vertente popular “não chegamos lá”. E deu outros exemplos, como já viu na Suíça, onde se faz um evento carnavalesco com animação de rua com as bandas filarmónicas locais.

Entrudo é combinado no Natal

Do grupo faz também parte Jorge Pereira. Todos os anos, num dos dias mascaram-se de palhaços e noutro de mulheres. Houve um ano que foram de nazarenas e até levaram cestas com peixe fresco.
O folião explica que, entretanto, o espírito dos bailes foi substituído pelos eventos nos bares e discotecas e não eram raras que estes tiveram que fechar as portas por já não podiam acolher mais foliões.
Os Godofredo organizam uns jantares na época natalícia, designados “Carnatal”, onde pensam quais são as máscaras do ano seguinte.
Este ano, o grupo vai retomar a tradição de abrir as hostes para a folia, realizando um jantar nas Caldas. Para Jorge Pereira faria todo o sentido voltar a criar condições para que possa regressar o Carnaval caldense. Enquanto tal não acontece, este grupo de mascarados caldenses continuará a rumar para Torres Vedras.

Corsolar doou fundos a instituições caldenses

A Corsolar foi responsável, nos anos 70, pela organização do carnaval. Para além dos corsos carnavalescos entre 1970 e 1975, durante dois anos fez o desfile da Primavera, além de ter um grupo de teatro de revista. A Corsolar angariava fundos para a construção de um centro de dia ou lar e existiu até 2016, altura em que cessou funções e fez um donativo de 4000 euros aos bombeiros das Caldas e de igual valor à Misericórdia local.
Este grupo, fundado em 1968, e que contava com 300 sócios, estiveram ligados Alberto Saramago, José Domingos e Manuel Serafim. No ano passado o presidente era Vítor Domingos, o vice-presidente Prata Rodrigues e Fernando Branco, o tesoureiro. Extinguiu-se assim o grupo que sonhou construir na cidade um apoio para a terceira idade com o lucro obtido com a folia local.

 

 

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