Cerâmica aposta na produção mais sustentável

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Dar um contributo para que as empresas criem produtos mais sustentáveis, com uma aposta clara no ecodesign, é o objectivo do modelo de formação que o Cencal está a criar no âmbito do projecto INEDIC – Inovação e Ecodesign na Indústria Cerâmica.
A sua apresentação foi feita na ESAD, a 21 de Outubro, no âmbito do I Fórum do Oeste pela Educação e Desenvolvimento Sustentável, iniciativa do Creias-Oeste – Centro Regional de Educação e Inovação. Os primeiros frutos deverão ser conhecidos no próximo ano.

O Cencal, em colaboração com LNEG (Laboratório Nacional de Engenharia e Geologia) e a ESAD, está a desenvolver um novo modelo de formação na área do ecodesign para a indústria cerâmica, que será posteriormente utilizado em quatro empresas portuguesas.
O projecto de ecodesign, denominado INEDIC – Inovação e Ecodesign na Indústria Cerâmica – consiste no desenvolvimento de metodologias e de matérias na área daquela dimensão do design, aplicadas na formação que vai ser ministrada às empresas para que as testem na linhas de produção.
É financiado pela União Europeia (através do programa Leonardo Da Vinci) e coordenado em Portugal pelo LNEG e engloba instituições nacionais, como o Cencal, ESAD, Centro Tecnológico da Cerâmica e do Vidro, o Centro Português de Design, e entidades espanholas e gregas.
“Todas empresas aderentes vão ter uma formação para a qual temos andado a preparar os manuais e as ferramentas”, explicou Maria Helena Arroz, directora dos serviços técnicos do Cencal e representante daquele centro no projecto. Após esta formação e a aplicação desta filosofia do ecodesign nas empresas – Cerâmica Moderna do Olival (Ourém), a Revigrés (Águeda), a Spal e a Faria e Bento (Alcobaça) em Portugal – serão executar vários projectos concretos.
“Em cada país será dado apoio às empresas no sentido de se demonstrar que é possível desenvolver projectos de ecodesign, com vantagens para o ambiente e para o desenvolvimento sustentável e para as próprias empresas”, resumiu Maria Helena Arroz.
No desenvolvimento dos seus trabalhos, as empresas terão que se preocupar em utilizar materiais não sejam nocivos para o ambiente, produzir sempre o mínimo de resíduos e gastar o mínimo de recursos naturais e de energia (na fase da cozedura). Simultaneamente, deverão produzir “maravilhosos produtos que o consumidor queira adquirir e não se importe de pagar um pouco mais se reconhecer neles essa mais valia”, referiu a responsável.
Além disso, procura-se que as peças, se forem utilitárias, tenham funções inovadoras ou formas diferentes, o que vai depender muito das empresas e de cada designer, acrescentou.
Para o Cencal é importante esta aposta no ecodesign. Já tinha sido feita uma primeira experiência nesta área, com a criação de ecopeças que estiveram em exposição no Museu da Cerâmica há vários anos e “foram bastante apreciadas”.
Maria Helena Arroz considera que actualmente já existe um segmento da população, cada vez mais informada e mais exigente naquilo que consome, que será o público alvo para o ecodesign. O projecto deverá terminar no próximo ano com a edição de um manual orientador para o sector cerâmico.
Na conferência, que decorreu na ESAD, vários docentes defenderam a aposta no design sustentável e foram dados alguns exemplos de produtos criados em áreas como a saúde, agricultura e artes e que obedecem a esses requisitos.
“É muito importante questionar o que é relevante fazer e depois encontrar uma resposta ao nível das metodologias das ferramentas”, explicou o professor Luís Pessanha, a uma plateia repleta de alunos atentos.
Por seu lado, Rodrigo Silva, sub-director da ESAD, reflectiu sobre a importância do design contemporâneo que, conhecendo os elementos da crise que se atravessa, “não deve propor soluções do passado, mas novas soluções que terão que partir de premissas ligadas à ecologia e sustentabilidade”. O docente defendeu a invenção de bens que suscitem novas formas de viver e trabalhar e o “saber viver mais sustentado, capaz de fazer mais com recursos cada vez mais escassos”.
Para Rodrigo Silva a economia e o design devem andar lado a lado, permitindo assim imaginar novas soluções para o desenvolvimento sustentável, para o espaço público e a regeneração da vida urbana. Considera que a aptidão de sobreviver na globalização passa pela capacidade das cidades atraírem recursos humanos e que o design tem aí um papel chave, na medida em que deve ser um parceiro do urbanismo e da ecologia. “O design será uma nova prosperidade, que não assenta no modelo de consumo e da industrialização intensiva, mas numa abundância que se alicerça na imaginação e capacidade de fazer mais e melhor com menos”, realçou.
E o ecodesign será um dos termos em destaque nesse repensar do modo de produção, agora assente na ideia da sustentabilidade.

“Há sensibilidade para as questões da sustentabilidade, mas muito pouco conhecimento”

O I Fórum do Oeste decorreu entre 4 de Setembro e 23 de Outubro com o objectivo de dar visibilidade às actividades que se realizam na região e contribuem para o desenvolvimento sustentável. Ao todo, foram 17 as iniciativas realizadas em vários concelhos.
No final, Suhita Osório Peters, empresária e membro fundador da rede Creias Oeste, entidade que organizou o fórum, salientou que “há sensibilidade para as questões da sustentabilidade, mas muito pouco conhecimento”. Considera que as pessoas não conhecem bem os problemas nem têm grande interesse em resolvê-los, nem estão habituadas a tomar a iniciativa.
“Estamos a fazer tudo com o sacrifício dos poucos que trabalham e que estão a sacrificar os fins-de-semana e tempos livres”, explicou, acrescentando que se pudessem distribuir mais as tarefas seria mais fácil e atingiriam mais pessoas.
Suhita Osório Peters fez também nota da dificuldade que tiveram em mobilizar as escolas que, na sua opinião, deveriam ser os “principais parceiros num fórum sobre educação”. Reconhece que talvez a altura não tenha sido a ideal, por ser muito próximo do início do ano lectivo, e deixa a sugestão de que o segundo fórum devia ser feito por escolas ou especificamente para as escolas.
O objectivo é que estes fóruns tenham continuidade, mas a responsável destaca que são as pessoas e instituições que têm que querer fazer qualquer coisa. “De cima para baixo já temos muito neste país”, disse, acrescentando que neste primeiro evento houve muitas actividades que foram feitas pelos próprios intervenientes nos projectos.