Chefias militares proibiram sessão de debate nas comemorações do 16 de Março

0
507
notícias das Caldas
A sala cheia só ouviu um relato sucinto dos acontecimentos

O comandante da Escola de Sargentos do Exército (ESE) das Caldas da Rainha recebeu indicações da sua hierarquia para cancelar a “tertúlia debate” prevista para as comemorações do 16 de Março que se realizaram naquela unidade naquele dia.
Gazeta das Caldas apurou que as chefias militares recearam que o debate fosse demasiado aceso, trazendo mais uma vez à tona as divergências entre os militares que participaram nos acontecimentos ocorridos há 37 anos nas Caldas da Rainha e que levariam a acelerar a revolução de 25 de Abril.

A presença de 11 oficiais e vários antigos aspirantes e furriéis que estavam no quartel caldense naquele dia constituía uma boa oportunidade para que muitos dos jovens estudantes e respectivos professores pudessem fazer perguntas e ouvir de viva voz o relato dos acontecimentos contados pelos seus protagonistas. Mas afinal tudo se resumiu a uma sucinta narração dos factos feita por um tenente-coronel, tendo a sessão terminado abruptamente, para grande espanto dos professores e dos militares convidados.
Contactado pela Gazeta das Caldas, o comandante da ESE, Alves de Oliveira, começou por dizer que a ideia do debate tinha sido da Câmara Municipal, com quem a unidade co-organizou as comemorações, mas que depois se entendeu não lhe dar seguimento porque “este não é o fórum para se estar a debater isso”. O comandante disse que “a intenção desta iniciativa não era a de haver mais discussões, mas sim dizer aos mais novos que houve este acontecimento”.
Admitindo que “há diferentes sensibilidades” sobre o 16 de Março de 1974, o coronel Alves de Oliveira disse ainda que este assunto deve ser deixado para os historiadores.
Questionado sobre de quem partiu a decisão de anular o debate (os convites referiam uma “tertúlia debate”), o responsável disse que “a ideia nunca foi haver debate” e que não se deu conta que os professores e alunos se tivessem manifestado desiludidos pela falta dele.

MILITARES INSATISFEITOS

Mas não foram só os professores e alunos que ficaram desagradados com as cerimónias. Alguns dos militares presentes não gostaram daquilo que foi considerado um excessivo protagonismo atribuído ao general Matos Coelho que veio presidir às cerimónias, tendo tido direito a guarda de honra.
Entre os seus antigos camaradas houve quem comentasse que, embora este seja agora general (a maioria dos participantes não passou de coronel) em 1974 Matos Coelho teve um papel nos acontecimentos com a mesma relevância dos restantes.
Armando Ramos, que na altura comandou a coluna militar caldense para Lisboa, inconformado com aquilo que classificou de “inverdades” que têm sido ditas sobre o 16 de Março, dirigiu-se ao comandante da ESE e ao presidente da Câmara das Caldas manifestando o seu desagrado pela falta de debate e entregou-lhes um surpreendente dossier com as conclusões e algumas peças do processo do 16 de Março (ver caixa). Uma outra cópia foi ainda entregue ao coronel Rocha Neves.
Na sessão, entre os militares presentes que tinha participado na tentativa de golpe de estado de há 37 anos, encontravam-se Adelino Matos Coelho, Armando Ramos, Bettencourt Coelho, Carlos Carvalhão, Gonçalves Novo, João Lucas, Moreira dos Santos, Rocha Neves, Virgílio Varela e Vítor Silva Carvalho.

 

O fantasma do processo de averiguações

Depois da coluna de revoltosos que marchou para Lisboa (para fazer uma revolução que não se concretizou) ter regressado às Caldas e se ter rendido às forças leais ao regime, todos os oficiais foram ouvidos por averiguadores que reuniram um enorme processo com as versões dos vários intervenientes depois de as terem cruzado.
Este processo estava praticamente concluído à data do 25 de Abril, mas obviamente não chegou a ser entregue ao brigadeiro Serrano (que comandou as forças de cerco ao quartel das Caldas) devido à Revolução.
Durante 37 anos o processo andou quase desaparecido. Oficialmente não existia nem constava do Arquivo Histórico Militar porque nunca chegou a ser entregue à hierarquia militar, tendo ficado na posse dos oficiais averiguadores.
Com cerca de mil páginas, o documento constitui uma peça fundamental para contar a história do 16 de Março e dirimir diferentes versões do sucedido, sendo muito desejado pelos historiadores e pelos envolvidos nos acontecimentos.
Na posse de Armando Ramos, que o obteve de um averiguador com a promessa de só o divulgar após a sua morte, o processo servirá de base a um livro que este está a escrever para o 40º aniversário do 16 de Março. No entanto, aquando do 39º aniversário, aquele militar diz que entregará o documento ao Chefe do Estado Maior do Exército.