“Com a normalidade com que aceitamos a cor dos olhos também devíamos aceitar a diversidade funcional”

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A secretária de Estado da Inclusão, que é invisual, participou no debate sobre inclusão

A palavra inclusão não deveria existir pois seria sinal de que não havia exclusão. A ideia foi defendida pelos intervenientes numa conversa sobre a temática, que juntou pessoas com deficiência, familiares e a secretária de Estado da Inclusão, Ana Sofia Antunes, na Escola Secundária Josefa de Óbidos no passado dia 4 de Abril.
O encontro serviu também para apresentar a associação Comunidade Filhos sem Voz, que tem por principal foco a luta contra a discriminação e o apoio às famílias que tratam das pessoas com deficiência nas suas próprias casas.

“Porque há exclusão se somos todos seres humanos? Há diversidade, mas essa começa com a nossa genética e com a normalidade com que aceitamos a cor dos olhos e cabelo também devíamos aceitar a diversidade funcional”. O apelo foi deixado por Sara Baptista, psicóloga e vice-presidente da associação, fazendo notar que os portadores de deficiência são apenas diferentes das pessoas “ditas” normais. A jovem defendeu que é pelas crianças que devem começar a educar para a inclusão se querem mudar mentalidades e reconheceu que esse caminho tem sido trilhado.
Dando o seu testemunho pessoal, Sara Baptista falou das dificuldades em conseguir emprego, lamentando que não seja dada uma oportunidade a pessoas que estudaram e que têm capacidades intelectuais.
Também Eduardo Jorge, que é tetraplégico desde 1991 devido a um acidente de carro, partilhou a sua experiência e também as dificuldades e preconceito de que são vitimas. “A informação é fundamental, assim como não aceitarmos os nãos com facilidade”, disse, lembrando que passou “noites e dias” a ler legislação e, inclusive, criou um blog onde partilha as suas vivências.
O antigo gerente comercial, depois do acidente tirou a licenciatura em Serviço Social para “enfrentar os poderes olhos nos olhos” e passou a ser activista dos direitos da pessoa com deficiência. Recentemente esteve deitado numa cama (dentro de uma estrutura com grades de aço) em frente à Assembleia da República, para alertar para o atraso dos apoios prometidos.
Entre os participantes estiveram ainda Fábio Carvalho, também associado da Comunidade Filhos sem Voz, que lamentou a falta de pessoas a assistir ao evento, sobretudo de professores e pessoas ligadas à Educação Especial. Já Nuno Nabais, coordenador da equipa de intervenção precoce de Rio Maior, defendeu que tem que ser o poder político a “empenhar-se mais” para resolver os problemas relacionados com a pessoa com deficiência.
A jovem Laura Patrício, a frequentar o 8º ano na Josefa de Óbidos, deu o seu testemunho de vítima de bulling e de como o projecto “Love My Self” a ajudou a ultrapassar essa discriminação. Agora quer divulgar esse projecto na escola, assim como promover conversas sobre saúde mental e física com os colegas.

Deficiência na agenda mediática

Cerca de 20 pessoas marcaram presença no encontro de durou mais de três horas

Presente no evento, a Secretária de Estado da Inclusão, Ana Sofia Antunes, explicou que nos últimos três anos e meio o governo tem procurado que a inclusão das pessoas com deficiência esteja na agenda mediática. “Só desta forma poderemos dar passos mais firmes no sentido de reconhecer mais direitos e obter mais apoios para esta população”, disse, dando como exemplo a criação de uma prestação especifica para as pessoas com deficiência, que lhes permite aumentar os recursos. Actualmente o Estado investe mais de 400 milhões de euros com estas prestações.
A governante falou também das experiencias piloto de Vida Independente que estão a começar em Portugal. Actualmente existem 27 centros com candidaturas aprovadas que irão permitir o apoio a 870 pessoas. Por outro lado, reconheceu que as vagas protocoladas com as várias instituições para Centro de Actividades Ocupacionais (CAO) são insuficientes, e que têm que apostar na empregabilidade das pessoas com deficiência.
Neste encontro foi ainda apresentada a associação Comunidade Filhos sem Voz, que nasceu de um movimento informal e para se centrar nas necessidades da pessoa com deficiência. O seu principal foco é a desinstitucionalização, bem como a luta contra a discriminação destes cidadãos.
Quer alertar o governo da forma como a pessoa deficiente é tratada, nomeadamente em serviços públicos. O presidente da associação, Carlos Lourenço, referiu ainda que esta não está disponível para defender bancadas parlamentares ou convicções políticas e que a deficiência está acima desses interesses pois trata-se de direitos humanos.
Esta iniciativa integrou a Semana da Josefa. No auditório estava também patente uma exposição de cartazes feitos pelos alunos, no âmbito da disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica, sobre “O Assunto é…Inclusão”.