Comboio passa com cancelas abertas na passagem de nível do Campo

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As barreiras estavam na posição de abertas no momento em que passou o comboio | JOEL RIBEIRO

Na passada quarta-feira, 6 de Julho, uma automotora com destino a Leiria saiu das Caldas da Rainha às 17h13 e passou na passagem de nível do Campo com as barreiras abertas porque o funcionário em serviço as não fechou. Os automóveis que iam a passar naquele momento aperceberam-se da chegada da composição, cujo maquinista apitou e procurou parar, tendo-se evitado um acidente de consequências trágicas.
É a quinta vez no espaço de três anos que ocorre um incidente deste tipo naquela que é a última passagem de nível com guarda da linha do Oeste pois todas as outras estão automatizadas. A Infraestruturas de Portugal diz que ainda este ano esta também será automatizada.

José Mendonça que naquele momento vinha da Cidade Nova para as Caldas não ganhou para o susto. Aproximava-se da passagem de nível, que tinha as barreiras levantadas, quando de repente vê os dois carros a travar à sua frente e uma automotora a buzinar e a passar em frente, vindo a parar uns metros mais à frente. Não fossem os carros se terem imobilizado e algum teria ficado debaixo da composição.
O caso aconteceu no dia 6 de Julho com o regional saído das Caldas às 17h13 com destino a Leiria. A Infraestruturas de Portugal (ex-Refer) e o GISAF (Gabinete de Investigação de Segurança e de Acidentes Ferroviários) já abriram um inquérito.
Esta é a quinta vez nos últimos três anos que se regista um incidente deste tipo, felizmente todos sem consequências. O último ocorreu em 22 de Abril do ano passado, pelas 8h00 com uma automotora que vinha de Leiria para as Caldas.
Segundo a Infraestruturas de Portugal (IP), o agente envolvido “foi retirado de serviço em passagem de nível aquando do  [penúltimo] incidente e foram realizadas avaliações médicas e técnicas tendo sido considerado apto para o desempenho de funções. Este foi integrado em acção de formação, na qual obteve nota positiva, após o que retomou o serviço na passagem de nível.”
Contudo, e ainda segundo a IP, “após a ocorrência [agora] reportada o colaborador foi suspenso de funções tendo sido aberto um inquérito interno”.

A ÚLTIMA PASSAGEM DE NÍVEL DO OESTE

A passagem de nível do Campo é a última sobrevivente de cerca de 60 que existiram na linha do Oeste entre o Cacém e a Figueira da Foz. Estes atravessamentos rodoviários ao caminho-de-ferro eram guardados 24 horas por dia por centenas de mulheres que trabalhavam por turnos (por vezes de 12 horas) e que fechavam as cancelas antes da passagem dos comboios, de acordo com os telefonemas recebidos dos chefes de estação mais próximos.
A partir da década de oitenta a CP, e mais tarde a Refer (agora Infraestruturas de Portugal) foi eliminando-as, através do seu encerramento, ou da construção de viadutos e passagens inferiores, ou automatizando outras com a colocação de sinais acústicos e luminosos, com ou sem barreiras automáticas.
Deste processo restou uma única: a passagem de nível ao quilómetro 106 da linha do Oeste, no Campo, que actualmente já só tem horário de expediente. Só está guarnecida durante o dia de segunda a sexta e fica fechada durante a noite e aos fins-de-semana e feriados.
A maior parte das vezes é um funcionário da Infraestruturas de Portugal que assegura a sua vigilância.
Gazeta das Caldas apurou que das cinco incidências registadas nos últimos três anos, quatro delas ocorreram com o mesmo funcionário.
Antigamente, o aviso da partida do comboio da estação colateral era dado à guarda de passagem de nível com alguns minutos de antecedência e esta fechava logo a seguir as cancelas. Mas como as estações foram fechando e ficando desprovidas de pessoal, a distância entre as que estão guarnecidas e a guarda da passagem de nível foi ficando cada vez maior. Antes na passagem de nível do Campo, o aviso de um comboio que vinha de norte para sul era dado desde S. Martinho ou de Valado dos Frades. Mas depois passou a ser Martingança ou até Leiria. Ou seja, o aviso chega a ser dado com 55 minutos de antecedência porque acontece não haver mais nenhuma estação aberta entre Caldas e Leiria. Durante esses 55 minutos a Infraestruturas de Portugal não possui qualquer mecanismo redundante de segurança no caso de haver uma falha do guarda da passagem de nível. Este pode adormecer, desmaiar, ser raptado, morrer, ou ser vítima de qualquer outro imprevisto, sem que haja outra alternativa para assegurar a passagem do comboio com as barreiras fechadas.