D. Leonor é por si só uma marca que poderia alavancar o turismo das Caldas

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Margarida Varela, uma estudiosa de D. Leonor e criadora da rota Raynha das Águas, considera que a marca da monarca poderia alavancar o turismo da cidade

A mentora da Rota Raynha das Águas, que reúne grupos de visitantes com o objetivo de dar a conhecer a origem das Caldas e a sua fundadora que mandou erguer o Hospital Termal a partir de 1485, considera que a cidade não está a tirar partido da “marca” Rainha D. Leonor.
A monarca fundou as Caldas depois de ter “visto alguns pobres que se banhavam em águas fumegantes, melhorando assim das suas ‘frialdades’”, decidindo criar melhores condições para os que usavam aquelas águas.
A caldense chama a atenção para o facto de se aproximar a data dos 500 anos da morte da Rainha, a 17 de novembro de 1525. E gostaria que, daqui a três anos, “as Caldas da Rainha se enchesse de gratidão e se engalanasse condignamente para festejar esta mulher!”.

Margarida Varela, na Rota Raynha das Águas, dá a conhecer aspetos da vida da Rainha fundadora que tanto admira

Para Margarida Varela, a educação de D. Leonor, dada pela mãe D. Beatriz, “foi preponderante para a estrutura forte do seu caráter”.
Após a morte do marido, D. Beatriz recebeu a administração da Ordem de Santiago e foi nomeada pelo Papa Grã-mestre da Ordem de Cristo. “É a única mulher na História a desempenhar este cargo”, contou a investigadora, acrescentando que a mãe de D. Leonor teve um papel ativo na política dos reinados de D. Afonso V, D. João II e D. Manuel I.
Segundo Margarida Varela, D. Leonor esteve à frente dos negócios do Reino de Portugal, com plenos poderes, por três vezes. A primeira, em 1471, com apenas 13 anos, “de uma forma meramente virtual, mas o facto é que esteve”. Na segunda, em 1475, mostrou já um tato político invulgar, no momento em que o exército “se debatia em terra estrangeira, na vizinha Espanha, numa guerra que arruinou os cofres do Estado”. “A Regente D. Leonor manteve o reinado em paz tal como constataram o seu sogro e o marido quando regressaram a terras lusas”, assinala.
Na terceira regência, no curto espaço de tempo que vai de 29 de março de1498 a 9 de outubro do mesmo ano, D. Leonor instituiu a Misericórdia de Lisboa, a primeira das misericórdias portuguesa, das muitas que se haveriam de criar um pouco por todo o território nacional e que chegam até aos dias de hoje como obra assistencialista. Segundo Fernando Correia, o Hospital Termal serviu à rainha “como projeto-piloto de assistencialismo aos mais desfavorecidos e carenciados”.

Do conhecimento e da cultura
D Leonor é também uma mulher do conhecimento e da cultura. No entender desta investigadora, é com o casal João e Leonor que Portugal se abre aos ventos do Renascimento e às ideias que vêm de fora.
“Leonor era uma mulher segura para tomar decisões, pois adquiria conhecimento. Estudava e inteirava-se do que se passava pelo mundo”, afirma Margarida Varela, acrescentando que a rainha “se rodeava de gente culta que ajudassem a fazer crescer os seus projetos com qualidade e modernismo”.
Caldas perdura no tempo porque D. Leonor “ousou sonhar sem medo e sem qualquer preconceito de que por ser mulher não seria possível…”, diz a investigadora, que escolhe citar Mário Gonçalves Viana, o qual na edição de 18 de novembro de 1925 escreve o seguinte na Gazeta das Caldas, no in Memoriam da Rainha D. Leonor: “Não foi a beleza que tornou o seu nome respeitado e venerado, foi a humildade; não foi a grandeza da sua situação, foi o seu amor pelo Povo, aquém ela muito quis, e o seu culto pelos desprotegidos, que nunca esqueceu”.
Foi na dissertação de licenciatura em Ciências Históricas e Filosóficas da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra de Deolinda Margarida Ribeiro, a primeira mulher licenciada do concelho das Caldas, que Margarida Varela encontrou referência a uma “Bengalla” ou bastão que a Rainha usava no desempenho do cargo de Provedora do seu Hospital. Seria, pois, uma das primeiras canas vindas da Índia e ofertada por D. Manuel.
Até à sua morte, D. Leonor cuidou sempre do seu hospital, que consumiu muito das suas rendas e joias. A tal “Bengalla” foi depois usada pelos seguintes provedores como símbolo de autoridade.
No séc. XVIII, o vandalismo dos homens fê-la desaparecer”, refere Margarida Varela.

Rainha, uma marca turística
A investigadora considera que a cidade Caldas da Rainha “é impar na sua génese”. E sublinha que a localidade “nasce pela mão duma mulher extraordinária que nos deixa um legado patrimonial material e imaterial singular e belo”. Como tal, afirma que D. Leonor “é por si só uma ‘marca’ por excelência para a criação de um produto turístico sem paralelo em todo o mundo!”
Na sua opinião, em volta de D. Leonor, o turismo caldense pode gerar valor em várias vertentes, desde o cultural ao gastronómico, do ecológico ao económico.
“Basta olhar com orgulho e sabedoria para todo o legado que esta cidade é”, referiu a mentora da Rota da Raynha que passa por locais como o Parque, a Mata, o Museu do Hospital e das Caldas e pode ser complementada com ceias quinhentistas, coordenadas com rigor por Margarida Varela.
A Rota Raynha das Águas, explicou, foca-se na vertente histórico-cultural e na gastronomia quinhentista. Para a investigadora, D. Leonor “ainda hoje nos deixa “ferramentas” para continuarmos a erguer o que ela iniciou há 500 anos”. E volta a referir palavras de Fernando Correia que dizia que esta Rainha “pelo conjunto da sua inteligência, bondade, carácter, cultura e obra é a mulher mais notável da História de Portugal”.