Decorre em Óbidos o festival que tem o “poder” de unir um território em torno dos livros e da cultura

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A escritora polaca, Olga Tokarczuk, esteve pela primeira vez em Óbidos

Apresentações, colóquios, mesas com autores ou música. Qualquer que seja a manifestação cultural, o espaço enche-se de gente interessada em ouvir, e participar, num festival que decorre até domingo e que, sob o mote do poder, aborda a atualidade.

A tenda literária foi, literalmente, pequena para acolher todos quantos quiseram, na noite de sábado, ver e ouvir a escritora polaca, Olga Tokarczuk, Prémio Nobel da Literatura em 2018. Convidada a falar sobre limites, falou sobre as fronteiras partilhando a sua “relação estranha” com estes limites e, sobretudo a diferença como os portugueses e os polacos as vêem, dando início à conversa, que se estenderia durante mais de uma hora. Mais tarde seria também aproximadamente esse tempo que demoraria a autografar os seus livros, cinco deles já traduzidos em português, mas também de leitores que os lêem em inglês e polaco.
Na mesa, que partilhou com o jornalista Carlos Vaz Marques, Olga Tokarczuk fez questão de deixar “uma vénia ao leitor”, que considera sempre “mais inteligente que o escritor” e a quem trata como co-autor, estando com ele em constante diálogo. Uma palavra de reconhecimento também à nova profissão dos blogers literários, um “fenómeno muito bom para democratizar a crítica literária”, considera a escritora que entende que as possibilidades de leitura não têm de ser definidas pela academia ou revistas literárias.
Ainda em choque com a guerra, a escritora polaca não se nega a comentar os acontecimentos atuais, mas diz não saber que testemunho pode dar sobre o que está a acontecer. “O meu novo hábito é saber o que aconteceu esta noite”, mas não por viver na Polónia, pois como acrescentou, as guerras hoje não têm limites e afetam todos. Partilhou ainda não ter encontrado “a voz do narrador terno” (que nos seus livros lhe permite alcançar uma visão global), para colocar num conto, mas reconhece que esse narrador “vê quão terríveis são os métodos de tiranos como Putin” e os impactos que tem ao nível das migrações, do sofrimento dos animais e da fome.
Desafiada por uma pessoa na assistência a escrever sobre o FOLIO e a sessão em que participava, Olga Tokarczuk justificou que a escolha dos temas dos seus livros não é consciente. “O tema aparece-me e é muito teimoso, quer ser contado”, disse a autora, reconhecendo que não é dona do seu próprio fado.
Ainda na tarde de sábado, foi inaugurada a PIM! VII Mostra de Ilustração, que este ano lançou o desafio a perto de 40 criadores de imaginarem como seria o mundo se tivessem o poder de tomar decisões. “Ai, se eu mandasse…” intitula a mostra que, a cada ano, se traduz num “manifesto de amizade, companheirismo e ternura”, sintetizou Mafalda Milhões, curadora do FOLIO Ilustra.
Num momento de partilha de emoções, a ilustradora lembrou os amigos que já não estão e, numa alusão ao fotógrafo Edgar Libório, salientou que um deles vestia amarelo, e que “desde que ele foi embora que todas as nossas entradas são sempre amarelas”, em gesto de homenagem. Ao atual executivo, Mafalda Milhões deixou o desejo para que “seja ousado” e que represente também os artistas, e aos criadores para fazerem a diferença. Também o facto do executivo ser novo, levou-a a equacionar-se sobre a continuidade do evento, que foi de imediato assegurada pelo presidente, Filipe Daniel, que o vê como estratégico para o concelho.
A mostra, onde é atribuído o Prémio Nacional de Ilustração (este ano a Ana Ventura) tem a particularidade de “estar melhor do que a do ano passado”, brincou José Pinho, que pediu apoio ao ministério da Cultura para que esta possa ter itinerância pelo país e também no estrangeiro.
Momentos depois, na Casa da Música, eram distinguidos os jovens moçambicanos, Maya Macuacua e Geremias Mendoso, com o Prémio Fernando Leite Couto. A partilha, pelo jovem autor de “O gato que chora como Pessoa”, que a biblioteca que frequentava, na cidade de Nampula (no norte de Moçambique), já não existe, levou o escritor Mia Couto (que preside à associação Fernando Leite Couto, poeta e pai do escritor) a pedir o apoio do município de Óbidos para a sua reabilitação. A proposta foi de imediato acolhida pelo autarca Filipe Daniel, que se mostrou sensibilizado com o percurso do jovem escritor e espera que esta reabilitação possa ser “transformadora numa comunidade que tem sido extremamente fustigada pela guerra”.

A história nas capas da Gazeta
Espalhadas um pouco por toda a vila estão as 16 exposições que compõem a sétima edição do festival, entre elas “A História vista pelas capas da Gazeta das Caldas”, situada no Museu Abílio de Mattos e Silva. A mostra, inserida nas comemorações do 97º aniversário da Gazeta das Caldas, reúne algumas dezenas de primeiras páginas do jornal regional, dando seguimento a uma iniciativa começada nas comemorações do 90º aniversário, num desfile pela cidade com as “primeiras” a serem então mostradas pelos alunos da Escola Bordalo Pinheiro.
Patentes estão também exposições de fotografia, banda desenhada, cerâmica, joalharia de autor, entre outras, numa ligação entre a literatura e as várias áreas. Na cerca, os concertos da FOLIA têm lotado com sons em língua portuguesa, e que vão desde o fado ao hip-hop, passando pelo rock, o jazz e os sons tradicionais.
Na cerimónia de inauguração do festival, Francisco Madelino, presidente da Fundação Inatel e co-organizador o evento, revelou que estão presentes com a música, que “liga o tempo, gerações, a tradição e a modernidade e tem no poder da palavra, em transmitir sonhos e mensagens com artistas que o fazem de forma soberba”.
Já o presidente da Câmara destacou que o evento posiciona Óbidos num “patamar de excelência” a nível cultural, sob a chancela do reconhecimento de Cidade Criativa da Literatura da Unesco.
A edição mais diversificada, em termos de quantidade e qualidade, como foi caraterizada por José Pinho, administrador da Ler Devagar, contará no próximo sábado com a presença de mais um Nobel da Literatura, o nigeriano Wole Soyinka. O dia de hoje, 13 de outubro, será dedicado à inclusão, com várias iniciativas, entre elas o seminário “Vamos ler todos juntos”, que será acompanhado com língua gestual, e o pré-lançamento de um livro multiformato. As freguesias também têm um destaque especial nesta edição, promovendo, cada uma delas, uma programação diversificada, durante um dia, no FOLIO.
Até domingo terão lugar diversas mesas de autor, apresentações e lançamentos de livros, caminhadas literárias, oficinas cinema e experiências gastronómicas literárias.