Dois caldenses “vigiados e perseguidos” no seu tempo

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José Constantino Correia Rosa (1917-1999)
Romão Vieira Amora (1904-1986)

Uma viagem pela história do farmacêutico José Constantino Correia Rosa (1917-1999) e do agricultor e comerciante Romão Vieira Amora (1904-1986)

Dois cidadãos caldenses, ambos por adoção, provavelmente desconhecidos pela maioria dos seus conterrâneos, foram no tempo da ditadura alvo da vigilância e perseguição pela polícia política que imperava na época.

Recordamo-los hoje, para não repetir os nomes mais conhecidos da oposição local e regional, e poder dar-lhes o devido testemunho de justiça e de reconhecimento.

Provavelmente em ambos os casos as suas situações económicas e sociais não levariam a qualquer “suspeição” de desafeção com o regime vigente, mas as suas convicções e as suas ligações por amizade ou solidariedade, levaram-nos a tomar e assumir posições, que noutras condições teriam graves consequências pessoais.

Falamos primeiro de um conceituado e respeitado farmacêutico, de nome José Constantino Correia Rosa (1917-1999), nascido em Alenquer e que veio para as Caldas com 27 anos com a sua esposa, que ao longo da sua vida e para além da sua atividade profissional, assumiu posições de cidadania ativa e intervenção política, social e cultural, tendo sido de alguma forma afecto ao PCP na clandestinidade, e uma destacada figura do Movimento de Unidade Democrática (MUD) e das comissões de apoio às candidaturas oposicionistas à Presidência da República. Em 1961 foi candidato a deputado à Assembleia Nacional nas listas da oposição frente aos candidatos caldenses da situação Aníbal Correia e José Venâncio Paulo Rodrigues. A Oposição Democrática viria a desistir por considerar “não existir condições mínimas para a realização de eleições”.

Nas Caldas da Rainha na sua atividade social teve um papel muito ativo no Rotary Clube Caldense, tendo desempenhado as mais variadas funções no clube local, como foi nomeado delegado junto da Comissão Organizadora da Conferência nacional em 1962, membro do Conselho Administrativo da Fundação Rotária Portuguesa e Governador do Distrito Português no ano rotário de 1966/67, o mais alto título rotário no nosso país.

Uma situação peculiar é que nestes períodos foram convidadas tanto pessoas do meio cultural ligados ao regime, como notoriamente à oposição, tal como David Mourão Ferreira, Urbano Tavares Rodrigues, Vasco da Gama Fernandes, Ferreira de Castro, Padre José Felicidade Alves. No caso deste último deu lugar a um relatório da PIDE, “em cumprimento do superiormente determinado”, que está arquivado na Torre do Tombo, referente à palestra na Pensão Portugal de Felicidade Alves (que depois seria expulso na Igreja e perseguido pelo regime), intitulada “Comunicação profunda sobre a filosofia religiosa, no campo científico, estabelecendo a equação entre os dois campos”.

Em 1958 publicou o texto duma conferência que tinha proferido sob o título “Um Farmacêutico Ilustre do Século XV” (Tomé Pires, boticário e naturalista português nascido em 1448 e cuja obra foi encontrada numa biblioteca parisiense), bem como em 1963 fez uma comunicação sobre o escritor Aquilino Ribeiro que tinha sido homenageado pela Sociedade Portuguesa de Autores que viria a ser extinta pelo regime.

Negócios nos Vidais
Romão Vieira Amora (1904-1986), agricultor e comerciante, tendo sido apoiante e proponente das diversas candidaturas democráticas no distrito de Leiria, nomeadamente em 1969 em que integrou um movimento de muitas centenas de democratas que à escala nacional se empenharam ativamente para que as listas CDE e CEUD se unificassem e a oposição aparecesse unida contra o regime. Neste movimento estiveram figuras de grande projeção a nível nacional como Fernando Lopes Graça, Mário Dionísio, Francisco Lyon de Castro, Armando Adão e Silva, Maria Judite de Carvalho, Luís Nunes de Almeida (futuro Vice-presidente do Tribunal Constitucional), Egídio Namorado, Luís Stau Monteiro, etc.. Romão Amora foi a única personalidade das Caldas da Rainha e da região a aparecer como signatária do referido documento, tendo em Leria a oposição se apresentado unida, contrariamente ao que aconteceu em Lisboa, Porto e Braga.

Romão Amora descendente de uma família de agricultores, negociantes de vinho e exportadores de Lapas (Torres Novas) viria para as Caldas na sequência dos negócios da família na região e de se ter apaixonado por Zulmira da Silva Sebastião, uma jovem filha também de um comerciante e agricultor local, com quem a sua família mantinha negócios. Viria a ter nos Vidais armazém e caldeira de uma importante empresa de comercialização e destilação de vinhos (José Amora & Cª (Filho) Suc.), que se alargaria a vários outros negócios, bem como estenderia a atividade a Angola, para onde exportava vinho.

Quis ser sepultado no cemitério dos Vidais freguesia a que esteve ligado grande parte da sua vida apesar de ter vivido nas Caldas da Rainha. Em documentos encontrados também na Torre do Tombo da PIDE podia ler-se sobre ele “que moralmente nada consta contra si” mas que “politicamente é inteiramente desafecto ao atual governo e desde há anos que vem fazendo parte da comissão da oposição de Caldas da Rainha o que ainda se verifica nas últimas eleições para deputados.” É referido ainda que é “irmão do inimigo da situação Aristides Vieira Amora”. Foi pai de Adérito Amora, que viria a ser diretor da Gazeta das Caldas durante um ano a seguir ao 25 de Abril de 1974.

A ambos fica a nossa homenagem nesta comemoração do 49º aniversário do 25 de Abril. ■