Escrito a Chumbo 10

0
364

6 e 9 de março de 1974

“A Bonança virá” é o título de um artigo na primeira página do dia 9 de março. A agitação social sente-se nas páginas da Gazeta. Também ela sujeita aos poderes da ditadura, espelha a insegurança, por um lado, e a tentativa de controlo, por outro.
“Estamos numa hora de exame de consciência. Não é só porque as vacas magras se sobrepuseram às vacas gordas. E, principalmente, porque o momento que atravessamos exige de todos nós ponderada reflexão. Sobre os nossos problemas naturais, incidem, já que fazemos parte do todo ocidental, os reflexos fortes do Mundo claudicante em que se transformou o Mundo Ocidental. «Estão abaladas as estruturas sociais. Cantam-se louvores à sociedade permissiva». Está abalada a Igreja na firmeza dos seus princípios e na firmeza da sua doutrina. Já lá vão muitos anos decorridos sobre a última guerra e a desordem social cava-se mais profundamente do que nunca. A desordem monetária, ultimamente, «veio acrescentar às tensões inflacionárias dos preços internos e as incertezas dos valores das divisas predominantes nas trocas entre nações». Tudo isto agravou a nossa própria situação”, começa o artigo.
“Mas é preciso sermos conscientes e raciocinarmos com inteligência para sabermos o que acontece com este Governo e este Regime, aconteceria com quaisquer outros, se não acontecesse pior. E dizemos, se não acontecesse pior, porque a estabilidade segurança garantidas durante muitos anos pelos nossos dirigentes, ainda é o muro resistente da nossa defesa contra o resvalar que vai por esse mundo fora. Quer dizer: apesar de tudo, do caos que vai por esse mundo, nós ainda somos o País mais equilibrado e com maiores possibilidades de auto-defesa. Para que nada faltasse à situação caótica ainda veio o problema do petróleo cujos principais malefícios não estão na falta ou no preço exagerado da gasolina. Ora o que temos de pensar e de querer é dominar a situação. E fazer frente às crises social e económica que põem em causa os mais delicados mecanismos de que depende a riqueza das nações e o bem estar das pessoas”, lê-se.
“Não é com experiências novas nem com os olhos postos em ideologias saudosistas; não é berrando nem contestando, nem manifestando-nos nas ruas, que levamos a água ao nosso moinho! Pelo contrário, é reforçando a autoridade do Estado, é sendo realistas e encarando os problemas de frente, é abolindo o egoísmo e sendo fiéis aos princípios proclamados e que deram sobejas provas de capacidade”, prossegue.
“«Todos temos em Portugal o gosto de criticar». Isso dá-nos uma aparência de independência e de superioridade intelectual. Mas saibamos criticar construtivamente, procurando conduzir o criticado à lógica abandonada. Não façamos maledicência rotulando-a de crítica. De contrário estaremos a agravar os nossos males. Pior, estaremos a transformar uma situação passageira, que é consequência das enfermidades das grandes potências ocidentais, sobretudo da sua fraqueza e da sua divisão, numa situação própria que, então, nos desmoronará totalmente. Tenhamos paciência e resignação para atravessarmos, corajosamente, a tempestade. A bonança virá, mais depressa do que se pensa, se não exigirmos soluções cenográficas que, no fim do espectáculo, nada valem e se transformam em lixo”, conclui o artigo que faz a defesa do regime vigente”, termina. Mas nem uma palavra sobre o principal acontecimento que se anunciava: a publicação do livro do General António de Spínola “Portugal e o Futuro” que iria desempenhar nos dias seguintes uma situação catastrófica para o regime.

OS BOATOS…

Na mesma página encontramos outro interessante testemunho do contexto que se vivia. “Acautelemo-nos com boatos” é o título da peça que começa assim: “são sobejamente conhecidas as causas do desiquilíbrio geral na vida económica das Nações. Desse desiquilíbrio resultaram, com o decantado caso do petróleo, os desajustamentos súbitos ou progressivos das fórmulas, até aqui conseguidas, para um viver aparentemente normal. Tudo, com o tempo, se há-de resolver de forma a que o fiel da balança volte a centrar-se. Mas, a solução terá de assentar em novas bases o que quer dizer que, até lá, teremos de passar por uma transição penosa”, aponta.
É que “para fazer frente ao interregno que é tanto económico como social, não vemos que o Ocidente, pelo menos por enquanto, se proponha equacionar o problema de forma a encontrar o valor de x. essencial à solução. De facto, que instituições políticas nos propõe o Ocidente? Duma maneira geral continua apegado a muitos, incapaz «de se erguer acima de preconceitos particularistas da opinião pública dominante». Desmoronaram-se sociedades e economias, umas arrastando as outras e, no entanto, «nunca se falou tanto de igualdade», nem, em contrapartida, se viu tamanho número de reivindicações de privilégios! «Da lei, que deve ser igual para todos, buscam eximir-se grupos e classes consideradas intocáveis». Caminha-se, em todo o mundo, para o «anarquismo turbulento da vida social»”, prossegue.
“Ora, entre nós, País situado no Ocidente desnorteado, todos estes factores têm influência, para lhe fugirmos, em defesa própria, o essencial é não deixar enfraquecer o Estado que é, por assim dizer, a lei que a todos deve impor–se, a autoridade do Governo que não pode ser desprestigiada. Não é com críticas levianas, com maledicências de profissionais politiqueiros e «vendilhões do templo», que resolvemos o nosso problema! É que a actividade dos nossos inimigos e são muitos, «não se traduz apenas em acções terroristas no Ultramar: Visa também o moral dos portugueses». Não devemos esmorecer, nem acreditar na boataria que prolifera por todos os lados. Há que confiar no futuro, preparando-o com a nossa própria unidade, a nossa própria vontade de vencer, fazendo por compreender a situação e confiando no Governo que nos quer preservar dos males ruinosos que degeneraram a estabilidade, a segurança das Nações. Mais: sabendo, de antemão, que o Mundo está a ser vítima de uma trama bem urdida e a cair nela sem se dar conta disso. Reajamos contra essa trama que todos sabemos donde vem e porque vem. Sejamos realistas e saibamos lutar para sobreviver. Não esqueçamos, todavia, que, para tal, temos de alicerçar e de nos alicerçarmos no Governo. Mas façamo-lo como homens conscientes, sem exigir milagres ou feiticismos e certos de que «por mais realista que seja a concepção de um programa de Governo, a sua execução está, porém, necessariamente condicionada pelas circunstâncias». Ora bastam as circunstâncias exteriores para dificultar as coisas; não lhe criemos nós, pelo desânimo, pela irreverência e pela desordem, pelo desinteresse e pela negação injusta e cavilosa do seu esforço e da sua capacidade, perniciosas circunstâncias interiores”, lê-se, em mais um artigo que procura fazer a defesa do poder, mas que à luz dos nossos dias nos permite perceber o contexto frágil que vivia a ditadura.

A VERDADE!

Mas há mais nesta edição: “A verdade nua e crua”.
“Começamos pela afirmação peremptória de que é ridículo concluir que os males que presentemente nos afligem são essencialmente produto de erros ou omissões de quem governa. Conscienciosamente ninguém pode fazer tal afirmação. Honestamente, ninguém, seja qual for o seu cariz político, pode pensar tal coisa. Poderá usá-la, para fins de propaganda, confiando na ignorância de alguns, no heroísmo de muitos, na eterna contradição de muitos outros. Os nossos males, na sua esmagadora maioria, e, duma forma geral, os mais graves, são essencialmente reflexo da crise em que o Ocidente se debate e que nós, fosse qual fosse o Governo, o próprio regime, nunca seríamos capazes de evitar e de deixar de sofrer, pois no Ocidente integrados estamos. Esta é a verdade nua e crua, queiram ou não os propagandistas que por aí há: uns fazendo a sua própria política; outros, correndo ao sabor de certas águas turvas… Veja-se a França, a grande, rica e liberalíssima França, como não tem conseguido superar as dificuldades económicas e o agravamento do ciclo inflacionista! Ora os franceses discutem e protestam mas não põem em causa o Governo, nem mesmo o próprio Ministro porque ninguém ignora que a força dos acontecimentos é superior à vontade e ao próprio génio dos homens. No nosso caso, que não somos ricos mas temos operado verdadeiros milagres, o que importa é confiar no Estadista que, à frente do Governo, incansável tenta mil esforços, de vontade e de inteligência, para minimizar os nossos males. Deixarmo-nos vencer pelo desânimo, entregarmo-nos de braços abertos à descrença, ou contestarmos tudo, por tudo e por nada, é não só demagógico como é, principalmente, indigno da nossa condição de Portugueses. Indigno dessa condição e da hora difícil que a Pátria atravessa”, refere, acrescentando que “já muito antes da presente crise internacional, o Chefe do Governo alertara o País, relembrando que a têmpera e a coesão das comunidades se forjam nos momentos difíceis. Sobretudo na hora das provações. Pois se é verdade que atravessamos um desses momentos, outro caminho não temos senão o de nos ajudarmos mutuamente a vencer os obstáculos. Isto, na certeza de que, vencida a tempestade, na coesão, na constância dos grandes princípios a que aderimos, saberemos colher os frutos que a bonança do futuro não deixará de nos proporcionar. O essencial é a unidade de todos nós, no trabalho, na dedicação à Pátria, na confiança. Lembremo-nos de que somos muito pequenos para evitarmos os reflexos da crise que avassala, em proporções desmedidas, a França, a Alemanha, a Bélgica, a Holanda, a Grã-Bretanha, a Itália, os Estados Unidos, o próprio Japão! Isto, para só falarmos dos normalmente ricos e apontados como padrões de força criadora e de Liberdade”.
O regime procurava manipular as opiniões através dos jornais e manter o poder. Mas o 16 de março estava à porta. O Golpe das Caldas, que não foi bem sucedido, é hoje comumente considerado o abrir das portas para a Revolução dos Cravos, pouco mais de um mês depois.

 

 

 

A ELECTRIFICAÇÃO CHEGAVA ÀS CALDAS

É verdade! Em 1974 uma das grandes notícias era a chegada da eletrificação a vários pontos do concelho. “Fomento. O Estado e a Câmara vão electrificar mais 21 povoações do Concelho” é o título do artigo que conta que serão “beneficiadas as freguesias de Caldas, Alvorninha e Salir de Matos”.
“Acaba de ter conclusão e de ser entregue ao Município, pelo respectivo técnico consultor, Manuel Tenreiro, o projecto único para electrificação de mais 21 povoações da autarquia. O maior número das localidades que vão ficar a dispor de energia situa-se na vasta freguesia de Alvorninha. Mas a obra interessará a elevado número de pessoas de quatro ou cinco povoações, demograficamente, mais densas do que aquelas. É o caso do Imaginário e de Lagoa Parceira, da freguesia das Caldas, cujos habitantes têm também ocupações na cidade, onde se deslocam diariamente. Igualmente o Casal da Areia e Torre, da freguesia de Salir de Matos vão ficar iluminados”.

Com “um quadro da distribuição das electrificações, que porão termo à mancha de escuridão que ainda envolve a urbe”, o artigo esclarece que “o projecto, recebido nos Serviços Municipalizados na passada sexta-feira, foi devidamente examinado no decurso da última reunião da Câmara e já foi remetido ao Ministério da Economia, que superintende no sector através da Secretaria de Estado da Indústria, Direcção Geral dos Serviços Eléctricos. Do mesmo projecto consta a verba de 6.147 contos como dispêndio provável” e “tudo indica que a importante obra – a maior de sempre, no domínio das electrificações, pelo número das localidades beneficiadas – terá princípio ainda no corrente ano. Se tal acontecer, 1974 ficará como o de maior projecção na história da electrificação do Concelho. Na verdade, depois de em 1973 haverem sido beneficiados, com energia, o Campo, a zona dos Arneiros, na cidade, as Trabalhias e povoações próximas, e o Casal da Marinha, estão em andamento, rápido, trabalhos da mesma natureza no Chão da Parada, nas Bairradas, nos Casais da Mouraria, em Vila Verde de Matos, nas Broeiras e noutras localidades da freguesia de A-dos-Francos, o que permitirá electrificar mais de três dezenas de localidades em 1974”, termina. Recorde-se que até esta altura nem o Bairro dos Arneiros e o Campo tinham eletricidade, para não falar nas zonas mais rurais.

O BACALHAU…

Encontramos ainda um “Escândalo”. É que há “bacalhau oferecido ao público por mais do dobro do preço máximo legal!”. A Gazeta conta que “entre a indisciplina económica em que se vive, causou, apesar de tudo, escândalo o facto de terem estado, em montras e portas de mercearias desta cidade, patentes preços da ordem dos 92$00 por quilograma de bacalhau. A ocorrência tem de inusitado a circunstância de coincidir com a fixação, por despacho ministerial de tais preços em pouco mais de 40$00, no máximo, e com a distribuição à Imprensa duma nota da Inspecção Geral das Actividades Económicas que refere expressamente ser esse o preço das espécies mais caras”, lê-se.
“O consumidor pergunta se é o comerciante que prevarica, especulando, pura e simplesmente, ou se é a autoridade competente que está na Lua e fixa preços impraticáveis. Em que ficamos: o bacalhau (o mais caro) custa 40$00 ou custa 90$00? Se é este o preço real, resta saber se ao «fiel amigo» (doutros tempos) não será melhor dar o destino que tem a lagosta – residência dos milionários”, questiona o jornal.

A MOBILIDADE

A mobilidade continuava na ordem do dia esta semana. “É preciso tratar sem discriminações os habitantes das Caldas”, porque “o estado lamentável em que se encontram os acessos e os arruamentos (?) internos de zonas como as que dão pelos nomes de Morenas, São Cristóvão e semelhantes fazem crer que, catalogação municipal, os habitantes das Caldas se dividem na categoria de caldenses de primeira classe e de caldenses de segunda classe. Isto para limitar a análise ao que se passa na sede do Concelho. Porque se fôssemos mais além…”, principia.
“De 1969 a 1972, a Edilidade não pensou em mais nada do que em monumentos, medalhas, avenidas e estradas de turismo. Foi erigido – e muito bem o monumento ao Marechal Carmona que, subscrevendo o respectivo decreto, elevou a vila a cidade. Foram distribuídas medalhas ao acaso quer assinalando esse monumento e muitos as tomaram por «condecorações» a atestar pseudo-feitos quer o centenário do nascimento de Francisco Elias, quer ainda a premiar servidores sem pretensões. Foram abertas estradas de semelhante espavento que difícil se torna mantê-las quanto mais alcatroá-las. Foram rasgadas, por fim, avenidas que são artérias desguarnecidas de edifícios e absolutamente despropositadas para as exigências do trânsito. E, entretanto, povoações de densa população flutuante, como a Foz e Salir no verão, as sedes de quase todas as freguesias e a própria cidade não foram providas de arruamentos. Para não ir muito longe tome-se como exemplo as ruas da Emenda, de Linda-a-Pastora, de 1915 e veja-se como se pode transitar ainda, entrando ou saindo de habitações onde vivem centenas de pessoas. Precisamos portanto de acabar com discriminar. Os habitantes daquela zona, como os dos Arneiros, de Além da Ponte (lado poente), das Morenas, de São Cristóvão, do Avenal, etc. são tão caldenses como os de Salir, de Tornada, do Carvalhal, da Foz, das zonas das avenidas, etc. As mesmas brigadas de trabalho que, em 1973, dotaram as sedes de algumas freguesias de arruamentos capazes, podem e devem deslocar-se aos subúrbios citadinos e aí realizarem as obras que executaram na Encosta do Sol (mas com mais acerto), em Salir, no Carvalhal ou Tornada, sem prejuízo de o fazerem também na Foz do Arelho que muito precisa disso, em São Gregório, A dos Francos, Landal, etc”.

 

DA GAZETA DAS CALDAS

Esta semana trazemos ainda uma História curiosa da própria Gazeta. É que uma “grave avaria no sistema eléctrico da compositora das nossas oficinas próprias torna difícil a produção do jornal”.
Mais, “por infelicidade, a empresa vendedora dessa máquina não está, como lhe cumpria, capazmente apetrechada, sendo necessário importar da Alemanha uma simples resistência que, apesar de simples, não se produz no País”.
Assim, “as carências indicadas, muito de lamentar, vão dar aso a irregularidades de confecção e expedição do periódico, do que desde já prevenimos os leitores”.
Na mesma nota informa-se que “no passado domingo, editorial recente deste jornal foi reproduzido aos microfones da Emissora Nacional. Registamos a atenção dispensada”.

Para a semana trazemos mais artigos escritos a chumbo, desta vez já em cima do 16 de Março, a revolta caldense… Até lá