Escrito a Chumbo 11

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13 e 16 de março de 1974

 

 

Embora publicado com a data de 16 de março de 1974, a edição da Gazeta das Caldas ainda não trazia, logicamente, nenhuma referência ao Golpe das Caldas que marcou este dia para a História. Essas virão na próxima edição…

 

Nesta semana um dos grandes destaques era a realização das cerimónias do 10 de junho nas Caldas. “Este ano e pela primeira vez, a consagração nacional dos Heróis de Portugal que é costume efectuar-se na capital e nas sedes de distrito em 10 de Junho, terá lugar nas Caldas e não em Leiria”, lia-se na edição do dia 13.
Na edição seguinte novamente o mesmo assunto: “com vista às comemorações nacionais previstas para esta cidade, como noticiámos, pedimos aos caldenses que permaneceram no Ultramar para assegurar a integridade do território, tanto depois como antes de 1961, a fineza de nos fornecerem a sua identidade completa”, referia. “Pedimos do mesmo modo às diversas entidades, civis e militares, ligadas à defesa nos facultem lista completa dos mortos e feridos em defesa da Pátria nas províncias ultramarinas”, complementava.
Mas, até junho muito aconteceu. A Revolução de Abril retirou Portugal das amarras da ditadura e, sabemos hoje, as tais comemorações que estavam previstas para as Caldas não se chegaram a realizar.

COMPRAR E AÇAMBARCAR
“Sob este título, publicou Diário de Notícias», de 22 de Fevereiro um editorial que, com a devida vénia, seguidamente transcrevemos nalguns passos: «Os açambarcadores dos nossos dias não se parecem com os antepassados» da primeira guerra mundial. Os caricaturistas apresentavam-nos então, em toda a hediondez das suas manhas e traficâncias, rostos apopléticos, bigodes façanhudos, grossos cordões de oiro a engrinaldar os ventres de Buda. Apareciam, como médias e repulsivas ratazanas, nas caves onde escondiam os alimentos sonegados aos fregueses, para provocar a escassez, vender na alta e recolher os lucros. Hoje, não é assim. Os comerciantes, salvo casos muito raros, não se entregam a esses jogos proibidos. Por outro lado, os organismos reguladores e coordenadores verificam custos e existências. E a fiscalização, embora não seja o que todos desejaríamos, surge, de certo modo, qual espada suspensa sobre as tentações do Demónio… No momento presente, o açambarcamento identifica-se com o consumidor. É este, sobretudo, o maior responsável pela rarefacção de alguns géneros de primeira necessidade nos mercados, e supermercados, mercê de compras descontroladas, em quantidades excessivas. Ao menor sinal de carência, aí o temos, rua fora, a tocar a sereia de alarme…
Corre às lojas, arrebanha o que pode, compra num dia aquilo que costuma adquirir num mês. Quando vê a despensa (inutilmente) atulhada de mantimentos respira fundo, com a sensação do dever cumprido… Assim se armazenaram, nos primeiros tempos das medidas restritivas de carburantes, nas mais precárias condições e sujeitos a todos os perigos, bidões de gasolina e até se utilizaram banheiras para servirem de depósito do precioso combustível. Por idêntico sistema se transformaram agora arrecadações caseiras em sucursais de armazéns de secos e molhados. Como se processa o surto alarmista, capaz de desencadear a corrida aos estabelecimentos, na ânsia desvairada de um abastecimento anormal? Pois da maneira mais fácil. A criada do vizinho de baixo diz à “Simplesmente Maria” do terceiro direito que o óleo vai faltar. Jura até pelas alminhas. Quem a informou foi o marçano do merceeiro. Sim, aquele alto, dos olhos bonitos…
Daí a pouco, a notícia estala no cubículo da porteira. Esta põe o prédio ao corrente da advertência. Por seu turno, as diversas patroas, em conversa com as amigas, pelo telefone, transmitem a má nova… Cada uma delas, por sua vez, irradia a novidade. O curso do boato nunca mais se detém. Os comandos domésticos saem para a rua. E começam a operar… O que a princípio se apresentava como inconsciente atoarda ganha volume, galga distâncias, toma proporções de avalancha. E a bola de neve. Os lojistas, atónitos, veem-se a braços com um movimento para o qual não estavam preparados. As disponibilidades esgotam-se. Alertam os distribuidores. Estes recorrem às fábricas. O consumo anómalo desorganizou o circuito comercial. O produto começa a faltar realmente. Agora, sim, não se encontra em parte alguma. O comprador habitual e comedido arrepela-se. As dificuldades de normalizar o mercado agravam-se. É o círculo infernal que aprisiona as sociedades modernas. O fenómeno passa-se entre nós como em Londres, Bona ou Budapeste. As multidões são iguais por toda a parte. E nada satisfaz mais determinadas boas almas do que contemplar as prateleiras bem cheias, sobretudo, daqueles géneros que escasseiam noutras casas. O pior é o resto… Assim como a gasolina se evapora, açúcar fermenta, o azeite rança… Esses são os riscos dum egoísta desenfreado, dum mal-entendido espírito de previdência. As «açambarcadoras» no feminino, porque os principais agentes da escassez, em muitos casos, são precisamente certas donas de casa, as açambarcadoras, dizíamos, vêem a própria imagem, no espelho do seu comportamento com auréola de quem venceu uma batalha e superou os acontecimentos. Não generalizemos, porém. Mas as que estão em causa são suficientemente numerosas de perturbação considerável. Se a súbita intensificação da procura dum produto traz sempre transtornos de maior ou menor vulto, no momento presente as consequências são mais graves. A crise de carburantes, com efeito, confundiu os transportes e afectou o aproveitamento de matérias-primas. A um consumo inesperado e excessivo o mercado nem sempre está em condições de corresponder, por circunstâncias alheias, mas ligadas ao clima de penúria universal, tão característico dos nossos dias. Seria insensato, da nossa parte, como dissemos, atribuir todas as faltas às monopolistas, loiras e morenas, dos supermercados, isto é, às donas de casa e às suas tropas de choque. Há outros factores, sem dúvida. Uns lógicos. Outros anormais. Todos com muito peso. Mas, se não assacamos todas as culpas a Suas Excelências as Consumidoras, não as absolvemos das que lhes cabem, embora ressalvando as intenções…», diz o artigo que é um interessante testemunho da sociedade de então e do contexto em que vivia o país.

A HISTÓRIA DO BACALHAU
A questão do bacalhau também continuava na ordem do dia. “O bacalhau pode, afinal, ser vendido em regime livre” é o título de um artigo desta semana que começa assim: “disparate da nossa autoria de que, com pena, pedimos desculpa aos merceeiros Na penúltima edição deste jornal, cometemos o dislate de afirmar que o preço máximo de venda ao público do bacalhau não podia exceder o limite de 42$00. E frizámos o «escândalo» de, na mesma altura em que o Governo fixava tal preço máximo, ser posto à venda nas mercearias da cidade a mercadoria a 90$00 o quilo e mais. Afinal o que causou «escândalo» foi o nosso reparo. E justamente”.
É que “os comerciantes locais se a esse alto preço puseram à venda o bacalhau foi porque legalmente o podiam fazer. Na verdade, o produto, consoante a qualidade, o peso e o tamanho, ou é comerciável em regime «livre ou está sujeito a tabela. O submetido a tabela não pode ser vendido a preço superior ao limite máximo acima referido. O outro, esse pode ser vendido a qualquer preço desde que o armazenista e o retalhista não aufiram lucro superior, respectivamente, a 6 e a 10%. Assim nos desdizemos, reparando o erro cometido e pedindo humildemente desculpa por havermos induzido em erro os leitores e termos acusado, implicitamente, de especuladores os comerciantes da especialidade. Com a mesma veemência e clareza com que confessamos o grave pecado praticado, protestamos indignadamente contra a medida que consente um aumento sem igual do preço do bacaIhau. Não sabemos até onde as autoridades, que superintendem no comércio dos géneros alimentícios, querem que chegue a incapacidade de compra dos consumidores de produtos que formam as ementas corriqueiras na alimentação cotidiana. Mas porque a permissão da venda por mais do dobro do preço anterior do bacalhau tomou agora a feição de simples pormenor no desconcerto geral não vale a pena abordá-lo em si. Preferimos tornar pública na parte essencial, a portaria n.º 87 de 6 de Fevereiro passado, que determina: «Os tipos comerciais do bacalhau salgado seco são os seguintes: a) especial – peixes com mais de 4 Kgrs.; b) grande – peixes com mais de 2 a 4 Kgrs.; c) crescido – peixes com mais de 1 a 2 Kgrs.; d) corrente – peixes com mais de 0.5 a 1 Kgrs.; e) miúdo – peixes até 0,5 Kgrs.; f) sortido-peixes partidos ou amputados, com ligeiros defeitos de preparação ou conservação, bem como espécies afins com menos de 0,5 Kgrs.;» Ficam sujeitos ao regime de homologação prévia os tipos comerciais de bacalhau corrente, miúdo e sortido».

O SANEAMENTO E OS TRANSPORTES COLETIVOS
Nesta semana soubemos da comparticipação de 435 contos para saneamento da cidade. “A Câmara tomou conhecimento do ofício em que a Direcção Hidráulica do Mondego informa da comparticipação de 435 000$00, para as obras de «Esgotos do Bairro de Casas Económicas em Caldas da Rainha”. Na mesma semana, a autarquia “tomou conhecimento, através de oficio da Direcção dos Serviços, de Transportes da Direcção-Geral de Transportes Terrestres, do despacho de 23 de Janeiro do corrente ano do Secretário de Estado das Comunicações e Transportes que sanciona, tornando-a executória, a deliberação de 16 de Março de 1973 desta Câmara Municipal, que adjudicou à firma Transportes Auto-Penafiel, Lda., a concessão dos transportes colectivos urbanos de Caldas da Rainha” e que “posto isto e concedidos os poderes necessários ao presidente, ou quem suas vezes fizer para em nome da Câmara outorgar em todos os actos necessários à concretização deste assunto, designadamente a escritura a lavrar, mais foi deliberado que se promovessem agora com maior urgência as diligências precisas para que os transportes colectivos sejam um facto o mais rapidamente possível”.

AS ESTRADAS
Sob o título: “Estradas nacionais ao abandono” a Gazeta traz uma carta de um leitor, assinada pelo próprio. “Como leitor desse jornal e contribuinte venho chamar atenção de quem tem obrigação, para dar solução ao seguinte: como é notório os pavimentos das estradas, principalmente das que não são principais, estão abandonados ao Deus dará, como se usa dizer. Sem policiamento, sem cantoneiros e sem que sejam vistas pelos poderes públicos. É o caso da estrada que passa por Landal, freguesia de Caldas da Rainha, que embora levasse uma reparação geral, há poucos anos, está a deteriorar-se por falta de conservação. Acontece que por exemplo no Landal, as águas em enxurrada, formando declive, rebentaram com a berma da estrada, formando um sulco junto ao alcatrão, pondo em deterioração o pavimento de alcatrão, e em perigo não só a restante berma, como os veículos que têem necessidade de travar à beira por qualquer motivo imprevisto. Isto não é de admitir que assim aconteça já vai para um mês, sem que alguém, que tem obrigações, para com o Estado e o público utente lhe dê solução. Eu sei que se tem praticado uma forma de se verem livres de cantoneiros pelo baixo salário que auferiam, mas as soluções seriam para melhorar os serviços o que não acontece. Sei que cada vez se paga mais para transitar nas estradas com veículos, mas a verdade é que estas estão cada vez mais deterioradas e ainda se fazem auto-estradas, esquecendo-se outras que já existem. Isto assim a continuar, é desnecessária a existência de Chefes de Conservação, uma vez que não têem cantoneiros ou não dão ordens convenientes para a conservação do que custou dinheiro aos contribuintes e que precisa de vigilância. Para agravar mais o contribuinte ainda se paga mais o sêlo do carro, que ainda não vi melhorar a situação por este encargo, que parecia ser justo…”

LUZ NO CHÃO DA PARADA
“Porque se espera para dar à luz no Chão da Parada? Obra de Santa Engrácia. O empreiteiro, que não tardou muito a principiar os trabalhos, tarda agora em concluí-los. Já há fios e postos e algumas lâmpadas. Só não há as outras nem a preciosa energia eléctrica. O que se passa? Passa-se que os moradores do Reguengo, do Chão da Parada e dos Casais da Mouraria continuam às escuras. Porquê?”, questiona o jornal, que também aponta para um “sinal de trânsito por substituir há semanas e rua na obscuridade por falta de zelo”. Diz que “1. Não pode incumbir, de modo algum, aos que, no alto, dirigem um serviço público, seja qual for, cuidar dos «quase nadas» que a todos passam despercebidos mas que afectam respeitáveis interesses localizados apenas em uns tantos. 2. Aos que, subordinados àqueles, chefiam sectores específicos é que compete reparar os pequenos males, até sem incómodo para os seus superiores; deixando de o fazer revelam incúria, inaptidão para o exercício das funções em que estão providos e correm até o risco de se entender que há desmazelo propositado para comprometer esses superiores. 3. Pois parece que ao colocarem-se novos sinais de trânsito haveria ensejo para retirar os que estão deteriorados mas assim não acontece; é o caso daquele que, quebrado, permanece na avenida de Salazar, há semanas, sem ser retirado; e é o caso de outros que nem vale a pena referir aqui. 4. Há longos meses um candeeiro da iluminação pública da rua do general Santos Costa, a poucos metros da sede deste jornal, apareceu quebrado; só vários dias após foi retirado; e nunca mais foi substituído. Este, além de outros”, aponta a Gazeta.

O ACORDEÃO
Também nesta edição dá-se conta de que “principiou a preparação do Campeonato Mundial de Acordeão”, estando “constituída a comissão organizadora da competição mundial de acordeão, que decorrerá nas Caldas em Setembro”. “A comissão teve há dias a sua primeira reunião sob a presidência de Luís Filipe de Carvalho Alves Correia, vereador e presidente da Comissão Municipal de Turismo”.

UNIFICAÇÃO DAS BANDAS DE MÚSICA?
“Em estudo a unificação das bandas de música do concelho” titula um interessante artigo que conta que “estão a decorrer diligências no sentido de dotar a autarquia com um único agrupamento musical resultante da fusão dos existentes. Destes, o único que desenvolve intensa actividade é o de A dos Francos, sobrevivendo ainda, mas por entre as maiores dificuldades, a Banda Comércio e Indústria. As filarmónicas de Alvorninha e de Santa Catarina cessaram, praticamente, de existir e há muito que não actuam. São causas das vicissitudes que atravessam as bandas tanto a falta de regentes e executantes como todas as demais carências, em especial a de apoios oficiais”, conta o jornal. “No caso do concelho das Caldas torna-se ainda possível manter tradições musicais quase centenárias se houver compreensão dos responsáveis pela existência das colectividades a Banda, na cidade, e as filarmónicas de A dos Francos, Alvorninha e Santa Catarina. Dessa compreensão deram já louváveis provas que muito as honram, as agremiações de A dos Francos e das Caldas que, em assembleias gerais recentes, deliberaram participar num todo único concelhio. Aguarda-se que as duas restantes se pronunciem”, complementa.
Hoje, 50 anos depois, felizmente, olhamos para o panorama das bandas musicais no concelho e vemos… vitalidade e diversidade!

CURIOSIDADES
Trazemos ainda duas curiosidades: “gratifica-se. A quem entregar brinco perdido em 21 ou 22 p. p. Tratar pelo telef. 22840 ou nesta redacção” e o caso do “porta-moedas achado. Dá-se a quem provar pertencer-lhe. R. Almirante Reis, 64-2.-E”.

A PUBLICIDADE DE HÁ 50 ANOS
Trazemos alguns anúncios curiosos: “a Vossa hérnia deixará de vos preocupar!… Myoplastic Kleber é um método moderno incomparável. Sem mola e sem pelota, este verdadeiro músculo de socorro, reforça a parede abdominal e mantém os órgãos no seu lugar. “Como se fosse com as mãos”. Bem-estar e vigor, são obtidos com o seu uso. Podereis retomar a vossa habitual actividade. Milhares de herniados usam Myoplastic em 10 países da Europa (da Finlândia a Portugal). As aplicações são feitas pelas Agências do Institut Herniarire de Lyon (França). Podereis efectuar um ensaio, completamente gratuito em qualquer das Farmácias abaixo indicadas: CALDAS DA RAINHA – Farmácia Freitas – Dia 13 de Março (Só de tarde); ABRANTES – Farmácia Mota Ferraz Dia 14 de Março (Só de manha); TOMAR – Farmácia da Misericórdia, Rua da Infantaria 15 – Dia 14 de Março (Só de tarde). Durante o intervalo das visitas do Aplicador, as Farmácias Depositárias poderão atender todos aqueles que se lhes dirijam para adquirir cintas”.
Outro: “Do Míldio safei-me eu… Venham as boas colheitas. Cuprosan. O melhor amigo dos viticultores, acaba de vez com as dores de cabeça que o míldio Ihe traz. Eficaz como o sulfato de cobre mas mais fácil de aplicar. Cuprosan é vendido em Portugal pela: AGROP. Cuprosan Super Azul – o mais completo organo-cúprico”.

Para a semana trazemos mais artigos escritos a chumbo. Até lá!