Escrito a Chumbo 12

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20 e 23 de março de 1974

É num artigo sem título, envolvido por uma caixa negra, em grande destaque na primeira página da edição do dia 20 de março que encontramos as primeiras informações na Gazeta relativamente ao 16 de março de 1974. Não esquecendo que o jornal vivia ainda sob a censura da ditadura, conta a Gazeta que “a insurreição de opereta, que partiu do aquartelamento local e inverteu ao chegar a Lisboa, teve aqui a sua origem como a poderia ter tido noutra qualquer instalação militar do País. Ou então os «estrategas» da inversão preferiram a cidade por estar mais próxima da capital” e que “preocupam os caldenses o presente e o futuro do concelho ante o renome com que ficou, após a difusão do acontecimento e a infeliz escolha da urbe para ponto de partida da rebelião-farsa”.
Diz ainda que “as autoridades civis e as forças da Ordem cumpriram mui prontamente o dever de a contrariar e a isso não ficará alheio o Governo, por certo, ao avaliar do fácil coartar das veleidades” e, portanto, “os caldenses devem, pois, ficar tranquilos. Nem receiem perda de prestígio da unidade militar aqui fixada, nem temam haja sido maculado o honroso passado histórico do Regimento de Infantaria 5. Este não é o pequeno grupo dos sublevados. Sim os seus honrados comandos e os seus briosos majores, que houveram de ser manietados para ter lugar o golpe; sim os da escala comum da hierarquia que, perante ordens, só lhes cumpre obedecer. Nem uns nem outros foram os indisciplinadores e desordeiros. As Caldas e o seu regimento mantêm-se firmes. Nada buliu a honra e dignidade: nem desta «pequena pátria», de todos nós, nem da sua ilustríssima unidade militar”.
A Gazeta refere ainda que “as considerações que precedem não têm, basilarmente, conteúdo político. Situam-se no campo de regionalismo, bem caldense” e que “politicamente importa afirmar aos que, no ultramar e no estrangeiro, lerem estas linhas, sendo portugueses, que nada, absolutamente nada, aconteceu. Nas Caldas e seu termo, como pelo território do continente português, todos estamos em segurança, não há alterações da ordem pública”.
O regime procurava dar uma ideia de solidez, quando se aproximava a passos largos do seu fim. “Não suponham os nossos filhos e irmãos, que asseguram a perenidade de Portugal, que afirmam a presença lusíada além-mar e que sustentam os combates de supressão do terrorismo, haver algo mudado na rectaguarda. Esta é uma rocha em que podem sentir firme apoio”, conclui.
Na mesma página garantia-se que “pelo R.I.5 o Curso de Sargentos Milicianos está a funcionar” e que “após a interrupção normal do fim de semana e a de anteontem e ontem, reiniciou-se hoje a instrução no Curso de Sargentos Milicianos a funcionar na unidade militar aquartelada nesta cidade”.
É, portanto, possível perceber que era mais fácil obter informações fidedignas em jornais internacionais do que em qualquer nacional.
José Rebelo, jornalista e professor jubilado do ISCTE, em Lisboa, que trabalhava no departamento de pesquisa do conceituado jornal Le Monde (em França) em 1974, quando se deu o Golpe das Caldas e o 25 de Abril, disse em 2017, numa conferência promovida pela Gazeta das Caldas que “foi o 16 de Março que chamou a atenção da imprensa internacional para Portugal”.
O jornal francês, Le Monde e o jornal norte-americano, New York Times, são exemplos de órgãos de referência internacionais que noticiaram longamente e em primeira página os acontecimentos, bem como todas as televisões internacionais, dando explicações a que os portugueses em Portugal não tiveram direito.

COM CLAREZA E DECISÃO
Não será inocente ou casual a inclusão nesta edição de um artigo intitulado de “Com clareza e decisão”, em que é feita a apologia do líder, defendendo-o e elevando-o. “O problema foi posto, mais uma vez, com clareza e decisão. A clareza e decisão a que nos habituou Marcello Caetano e que, no fim de contas, se bem virmos as coisas, lhe não devia ter sido equacionado. O dever de defender o Ultramar, a integridade territorial do País, até ao último tostão, até ao último homem, é inalienável”, refere o jornal. “Por outro lado, ter posto tal problema, uma vez, em momento, afinal mais grave do que este, devia ter bastado. A Nação pronunciou-se então. E devia tê-lo feito para sempre; uma vez por todas. Na hora grave da escolha do caminho a seguir, o País experimentava os primeiros passos de um novo modo de estar político. E escolheu, sem dúvidas, nem medo. Agora, o País sabe que, a despeito dos anos decorridos, da tão falada saturação, as terras do Ultramar não só mantém suas fronteiras intactas, como atravessam o maior surto de progresso sócio-económico da sua história. Mas o País sabe, também, que nos seus territórios europeus, esse mesmo surto de progresso sócio-económico lhe prepara não só um futuro promissor, como lhe garante, no presente, a vitalidade de que nunca usufruiu. Nunca os seus trabalhadores tiveram tantas regalias; nunca a Assistência e a Saúde abrangeram, em qualidade e quantidade, tantos beneficiários; nunca os salários subiram a tais níveis. E isto, se não é o bom, ainda, é, pelo menos, uma promessa real e prática, um abrir de caminho novo em prol do povo”.
O artigo, que procura justificar a política da ditadura, reconhece que “a vida encareceu”, mas aponta que a culpa é da inflação, que “esfuma muito os esforços do Governo no sentido de um melhor nível de vida para os Portugueses. Mas não é, de facto, a África nem a guerra que temos de sustentar que está na origem do mal. A causa apontou-a, sem rebuço, corajosamente, o Presidente do Conselho: está na Europa, na América e no Médio Oriente. Há que aguentar, até ao restabelecimento da normalidade, apertando o cinto se for preciso, dispensando os fins de semana e os cruzeiros se for necessário. Antes produzindo, trabalhando afincadamente e bem… e em paz… e em unidade. «Nem só de pão vive o homem», mas temos de pensar que, na hora que atravessamos, o pão chega e sobra, forçosamente, não por nossa culpa, mas pelo estado a que o Mundo chegou. E em todos os aspectos. Ao pedir nova reflexão ao País, através dos seus representantes na sua Câmara mais alta, e não carecia de o fazer para continuar a cumprir o mandato que a Nação lhe atribuiu, o Presidente do Conselho e os homens que o acompanham no Governo, lançaram um repto ao patriotismo nacional, ao portuguesismo de todos os Portugueses, incluindo os que se lhe opõem mas se não vendem, nem se deixam escorregar em fraquezas ou venalidades. Em África, não defendemos a nossa riqueza. Defendemos a nossa dignidade, a nossa honra e a vida e a fazenda de milhões de africanos, brancos negros. Defendemos e respeitamos a memória dos que lá morreram, dos que lá deixaram a sua carne e o seu sangue certos de que o fizeram no cumprimento de um dever sagrado. Mas há mais: lutando pela sua conservação e fomentando, sem precipitações, ao mesmo tempo, a sua autonomia participada, estamos a defender a Europa, a América e até mesmo a própria África. Duvidar desta verdade é estupidez, é cegueira perniciosa. O Mundo Ocidental não o quis compreender ainda, ou está tão vendido e tão rendido aos seus interesses oportunistas que nem vê que, hoje, pode dizer dos Portugueses, o que, há anos, Churchill disse dos próprios Ingleses: «Nunca tantos deveram tanto a tão poucos»”, lê-se.

CALDAS DEPOIS DO GOLPE
Na edição do dia 23 o tema do 16 de março continuava na ordem do dia, ainda que tratado a medo pelo jornal, amarrado pelo lápis azul da censura. A Gazeta procura aqui separar as Caldas (instituições e população) da tentativa de golpe militar, na esperança de que se mantenha a atividade militar na cidade. “Continuará na cidade C. S. M. [Curso de Sargentos Milicianos]?”, questiona a Gazeta. “Segundo os anais das Forças Armadas, unidade militar no seio da qual haja sido esboçado ou praticado acto de rebelião é unidade militar objecto de punição que pode consistir em alteração de estruturas e funcionamento. Receiam assim os caldenses que deixe de localizar-se nas Caldas a escola de sargentos milicianos. O prejuízo seria enorme para a cidade e para o concelho, no plano pecuniário. A presença, durante quase todo o ano, de milhar e meio de instruendos e o vai-e-vem de familiares deles, que os visitam, significam na economia local milhares de contos. Por estes aspiram muitas outras cidades e vilas, que a si mesmo se julgam com direito a substituir as Caldas no seu papel de preparação militar. Daí a dúvida que a todos atormenta. O Governo age com justiça. Sabe que a autarquia, a única a padecer com a decisão que se tome, em nada contribuiu para a causa suscetível de a determinar. Mais: a tudo fomos alheios, continuamos a viver a nossa vida corrente, não nos solidarizámos, pelo contrário repelimos, condenamos e deploramos o acto dos tresloucados, que quizeram deslustrar a dignidade da Pátria e do Exército (sem o conseguirem) e o prestígio do Regimento, e que agiram por forma a afectar os interesses dos milhares de habitantes desta região. O Governo será justo. No sentido de que o seja procede activamente a Edilidade. Esperemos pois que as Caldas não percam o curso de sargentos milicianos”.
Uma particularidade que suscita a curiosidade é esta frase: “procede activamente a edilidade”. Sem dar mais pormenores, a Gazeta revela que a autarquia fazia aqui esforços junto do poder central para defender a sua terra. Resta saber o que é que isso significaria, em termos práticos, relativamente ao golpe.

 

 

 

FRENTE COMUM
Nesta edição temos ainda um artigo intitulado de “Unidos numa Frente Comum” e ilustrado com uma imagem de Marcello Caetano com representantes das Forças Armadas a mostrarem apoio à política ultramarina. “Insistem os nossos inimigos no uso da perigosa arma que é o boato. E um instrumento tão eficiente, que até existe o estudo psicológico dos seus efeitos, sempre perniciosos e de resultados, em parte, seguros. Que mais não seja geram a confusão. Depois, de par com esta arma, surge a opinião pessoal, às vezes bem arquitectada e exposta, mas que está longe da realidade que os homens do Governo defendem, e eles lá sabem a razão por que o fazem. Tudo isto só serve para nos dividir a todos, que é justamente o que o inimigo pretende para melhor nos enfraquecer e, logo, nos destruir. Perante o grave momento que atravessamos, tão grave que o não podemos menosprezar, não nos podemos dar à leviandade de ter cada um a sua opinião e de querer fazê-la vingar. Se queremos vencer os ataques, que nos dirigem, não temos outra alternativa se não a da nossa inteira união, constituindo uma frente única em que se despedacem as setas que nos atiram. O problema que se nos pôs não é de partidarismos políticos mas tão somente de salvação nacional, dado estar em jogo não o triunfo de um programa mas a própria sobrevivência da Nação. Por isso não custa a compreender que é necessário, prementemente necessário, que todos nos unamos numa frente comum, na certeza que os dirigentes saberão estar à altura da sua missão, eles e nós unidos no mesmo forte sentimento de lusitanidade. A diversidade de vozes dispersa a verdade; a unidade fortalece-a, amplia-a, torna-a viril e categórica. Não estamos tão sós como por vezes inconscientemente se afirma. Parecerá que assim é na balbúrdia das Nações Unidas. Mas uma coisa é a voz desse areópago e outra a da verdade que nos apoia na certeza de que estamos a defender uma grande fronteira da Europa. Eles bem o sabem. Por isso se encarniçam no ataque, espumando de raiva por nos saberem de porte alevantado, vendo o tempo passar e sem que consigam mais do que boatos e algumas acções de emboscada. E alguns actos espectaculares que têm conseguido alcançaram-nos à custa de certos traidores, gente suficientemente de carácter miserável que não se importa de vender a terra sagrada em que nasceu por um insonso prato de lentilhas. Mas os traidores são de todas as épocas e de todos os povos. O que todos nós temos de ser é portugueses de um só rosto e de uma só face, todos empenhados numa só ideia que é a defesa da terra sagrada da Pátria. E enquanto a Pátria está em perigo devem abater-se todas as bandeiras para só ficar uma única a de Portugal. A propaganda contra nós lançada no estrangeiro é enorme, tudo para nos diminuir e nos vencer. Mas saibamos nós, contra tudo e contra todos, manter a nossa coesão aguentar os embates com galhardia de ânimo, e lá chegará a altura de o próprio estrangeiro se admirar com o valor da nossa persistência. Então, saberá confrontar entre o que lhe diziam e o que em realidade nos anima, e concluirá. Diz o povo que a verdade vem sempre ao de cima. Assim é, realmente. Também a nossa verdade virá ao de cima e não haverá, então, nem força nem boato que lhe resistam. Tenhamos, por isso, ânimo para saber esperar na união de todos, contra a deslealdade e a fraqueza de alguns”.

Nas páginas da Gazeta sente-se a instabilidade que se vivia e percebe-se quais os principais motivos de fratura entre o regime ditatorial e a população e vê-se um ditadura em queda, mas que tenta agarrar-se ao poder e justificar as suas ações, que procura manipular opiniões e vedar o acesso a informação.
Irónico ainda iremos ver como o jornal reagirá daqui a algumas semanas, numa primeira edição ainda duvidando do êxito do 25 de Abril e depois dando a volta aderindo aos novos tempos, e fazendo “as mesmas pessoas” um discurso às avessas deste que vimos hoje.

Para a semana trazemos mais artigos a chumbo, quando estamos cada vez mais próximos da Revolução que repôs a Liberdade em Portugal. Até lá