Escrito a Chumbo 17

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24 e 27 de abril de 1974

“Intranquilidade” é o título do primeiro artigo da Gazeta das Caldas que nos conta a história do 25 de abril. Com uma grande mancha negra e impresso em papel cor-de-rosa (era o que havia nesta época em que se sentia uma falta de papel gritante em todo o país), o artigo, publicado no dia 27 de abril, conta que “os acontecimentos de anteontem causaram a maior perturbação na vida nacional. O País, carece, acima de tudo, de poder assegurar aos Portugueses normalidade no trabalho de cada dia e tranquilidade nos lares e nas ruas”.


No jornal, que viria a sofrer grandes transformações em pouco tempo, sente-se ainda o medo e o alinhamento de quem mandava com o regime ditatorial. “Esperamos que das ocorrencias havidas nada resulte que prejudique a Pátria ou a diminua no respeito a que tem tem jus. Aos caldenses pedimos serenidade e civismo. Para alem de tudo o mais, a autarquia deve manter-se una pois ao bem de Caldas da Rainha, como ao da Nação, interessa sobremodo que nada nos divida”.
E mais nada nesta edição faz menção à Revolução dos Cravos. Ou seja, ainda não foi nesta edição da Gazeta que os leitores puderam ler notícias livres dos poderes, mas já se começava a contar a História.

A PRAÇA DA FRUTA
Ao invés, a Gazeta conta-nos que havia sido dado “outro passo em frente no prolongamento da Praça da República”. É que “como oportunamente noticiámos, a Câmara pediu à Caixa Geral de Depósitos autorização para ocupar as ruinas que, no cimo da Praça da República, são, há 18 anos, propriedade da instituição oficial de crédito. Esta veio agora, meses passados dizer que sim ao Município e de pronto as brigadas de trabalho da Edilidade retiraram os tapumes e deram começo, na quarta-feira, à demolição dos restos dos prédios que aí existiram”.

A MOBILIDADE
Como temos visto, a mobilidade era, há 50 anos, um dos grandes desafios, como é ainda hoje. Nesta semana a Gazeta publicava uma carta de estudantes da Escola Preparatória Rafael Bordalo Pinheiro que eram naturais de Tornada e que não tinham transportes para a escola. “Andam 5 quilómetros a pé para frequentar as aulas!” titulava o artigo, que começava por explicar que “Somos estudantes de noite e frequentamos a Escola Preparatória Rafael Bordalo Pinheiro que funciona na Escola Comercial de Caldas. Somos residentes todos na freguesia de Tornada, a qual não tem transportes durante a noite, o último transporte que há para esta localidade é às 22.11 h. Todos os dias temos de nos deslocar 5 ou mais quilómetros a pé ou de bicicleta durante todo o Inverno. É lamentável e rigoroso que isto tenha sempre de acontecer. Será que não haverá quem dê solução ao caso, quem tenha, pena de pobres estudantes da noite de Tornada que têm de apanhar todas as rigorosas chuvas de Inverno, todas essas geadas, todo esse frio? Quem nos poderá dar solução? A Junta de Freguesia de Tornada, a empresa de transportes terrestres que serve a localidade durante todo o dia? Pois é de lamentar que alguns desistam da escola como já aconteceu a alguns que não conseguiram resistir. Pois é lamentável que nós durante 8 ou mais horas de trabalho durante o dia, à noite ainda termos esta difícil tarefa. Pois Tornada já tem bastante civilização e habitantes porque não há-de ter um transporte para os estudantes como as outras terras. Nós precisávamos de uma carreira às 19.30 h. para Caldas e outra às 23.30 h. ou mesmo meia-noite para Tornada, pois nem só os estudantes a frequentavam. Quem nos dá um transporte e quando? Aqui ficam as nossas perguntas à espera de uma resposta! Terminamos enviando sinceros agradecimentos pela transcrição desta carta – obrigados. Estudantes da Freguesia de Tornada”.

Também relacionado com a mobilidade temos a “Condução e trânsito”, uma peça que realça que “torna-se assustador o número de acidentes rodoviários que todos os dias, com ou sem limites de velocidade, ensanguentam as nossas estradas, as nossas próprias vilas e cidades. A todo o momento assistimos a manobras perigosas. Fácil nos era efectuar uma lista mensal do que observamos ou lemos, nos jornais, a este respeito. O número de «mini-fangios» ao volante de carros minúsculos e de «pseudo-volantes» em carros de «várias mãos», é elevadíssimo. Basta, para o confirmar, dar uma volta ao sábado à tarde ou ao domingo, mesmo apesar das restrições da gasolina que, como se sabe, não está à venda nesses dias. Cremos bem que é chegado o momento de se pensar que, pelo menos nos centros urbanos, os problemas da condução são factos importantíssimos em relação aos do trânsito. Não será exagerado, por isso e para segurança de todos nós, exigir três provas a cada candidato à carta de condução: exame psico-técnico, para se saber se tem condições mentais (presença de espírito, rapidez de acção, conhecimento de missão); exame de condução e exame de mecânica. Este, para que cada aspirante a condutor saiba que máquina vai conduzir, seus pontos fracos e suas exigências. Aliás, a segunda e terceira provas já foram obrigatórias para os condutores de ligeiros. Quanto melhores e mais conscienciosos condutores forem os encartados, mais fáceis serão as soluções dos problemas do trânsito. Estas, com efeito, não residem unicamente nas regras que o código ou as posturas estabelecem. Estão num amplo conjunto de elementos e de factores onde entra, com peso substancial, mais do que a obediência do condutor, o seu conhecimento da máquina que conduz, a sua consciência do que está a fazer. O parque automóvel nacional aumenta desmesuradamente de mês para mês. O automóvel hoje, para a maioria, não é um artigo de luxo. É uma enxada. É preciso ter isso na devida conta, demais que não pode nem deve ser uma enxada que mate por incúria de quem a usa. Tem de ser a enxada que ajuda a ganhar o pão de cada dia, facilitando as ligações, encurtando o tempo e as distâncias, sem complicar nem fazer perigar a vida de terceiros”, lê-se.

AO GRANDE CRIADOR DO CASO IMENSO
Interessante é também perceber, na edição do dia 24 de abril, um texto de Plínio Correa de Oliveira, também vindo de Lisboa, com a doutrinação oficial do regime. “Ao grande criador do caso imenso” é o título do artigo que diz que “neste crepúsculo de lama e de oprobrio, o mundo todo se vai deixando rolar, sonolento e envergonhado, pelos sucessivos precipicios da aceitação gradual do comunismo. Porém, no panorama da geral devastação, o Cardeal Mindszenty tem se erguido como o grande informado, o criador do grande caso internacional, de uma recusa inquebrantável, que salva a honra da Igreja e do genero humano. O seu exemplo com o prestígio da púrpura romana intacta nos ombros robustos de pastor valente e abnegado mostrou aos católicos que não lhes é lícito acompanhar as multidões que vão dobrando o joelho ante Belial. Assim para a figura do egrégio purpurado se voltam as vistas admirativas dos sócios e militantes da TFP e organizações afins, nas Américas e na Europa. Em-polgados pela atitude santamente intrépida do ex-Arcebispo de Esztergom (e diga-se de passagem que a partir do dia em que ele foi deposto e assim martirizado, seu nome ficou fundido na mesma glória com o de Esztergom, até à consumação dos séculos) os presidentes dessas entidades lhe enviamos uma mensagem conjunta que abaixo transcrevo. Estou certo de que incontáveis leitores gostariam de a ter assinado, muitos com seu sangue, ou com suas lágrimas, sangue de suas almas. O sangue de alma do herói de Esztergom e dos que pela terra inteira sofrem em uníssono com ele. Sangue a que foi dado, desde Abel até o fim do mundo, o poder maior do que qualquer outro poder de subir ao Céu e de clamar diante de Deus. Eis o texto da mensagem: «Eminencia. Os presidentes das Sociedades de Defesa da Tradição, Familia e Propriedade (TFP) da América do Sul e do Norte bem como entidades afins de Portugal e Espanha todas consagradas à acção ideológica anticomunista, apresentam a Vossa Eminencia o testemunho da profunda admiração que nelas desperta a conduta de Vossa Eminencia face à tirania vermelha que domina a Hungria. E osculam com a maior reverência a Sagrada Purpura, expressão simbólica do martírio, tão dignamente usada por Vossa Eminencia. Dessa admiração participam intensamente os sócios e militantes que temos disseminados pelas vastidões do território americano, na sua grande maioria jovens católicos pertencentes a todas as classes sociais, desde as mais elevadas até às mais modestas. É clara a razão por que nos animamos a juntar nossas vozes às de tantas associações, grupos e personalidades húngaras que no Mundo Livre celebram nestes dias de dor e de glória o nome de Vossa Eminencia. Se bem que a natural esfera de acção de Vossa Eminencia seja a nobre arquidiocese de Esztergom e através dela o território húngaro, o problema diante do qual Vossa Eminencia tomou atitude é de carácter universal: pode um católico coerente com sua Fé acomodar-se a um regime comunista, e estipular com ele pactos realmente úteis à Religião? Esta pergunta, Eminencia, atormenta os católicos do mundo inteiro, solicitados pelo propaganda vermelha a mudar a atitude de repulsa lúcida e heróica ao comunismo, que Pio IX e os grandes papas que lhe sucederam, lhes haviam ensinado. Na imensa confusão surgida nos meios católicos em razão do exito alcançado pelas aliciantes sugestões comunistas, o «non possumus» firme de Vossa Eminencia, repercutindo no mundo inteiro, vale por uma lição e por um exemplo próprios a manter os católicos na via da fidelidade aos ensinamentos tradicionais imprescritíveis, emanados da Cátedra de Pedro em antigos dias de luta e de glória. E é por esta razão que, a par da admiração, tributamos a Vossa Eminencia um agradecimento, profundo, que seria injusto não levar ao conhecimento de Vossa Eminencia. O Reino Apostólico da Hungria recebeu desde Santo Estevão a missão gloriosa de sér, baluarte da Igreja e da Cristandade. Esta missão, ele a cumpre por inteiro em nossos dias, na pessoa augusta de Vossa Eminencia. Pois, lutando por seu dilecto rebanho, Vossa Eminencia ao mesmo tempo esclerece e orienta com um duplo prestígio da Púrpura e do mártírio todos os católicos da Terra. E cria assim indestrutíveis entraves ao comunismo internacional. Na esperança de que nosso preito de admiração conforte a Vossa Eminencia, rogamos suas valiosas bençãos e orações para nós e para as organizações que temos a honra de representar».

A NATALIDADE
Nessa edição, destaque para a baixa natalidade no concelho em 1973 e a taxa de mortalidade infantil, que era um dos problemas da época que nos colocava no grupo dos países menos desenvolvidos do mundo ocidental. Também refere a quebra da natalidade por causa da emigração.
“Atento aos problemas demográficos. o Centro de Saude, da superior direcção do dr. Mário de Azevedo e Castro, encontra-se capazmente esclarecido àcerca, da natalidade e da mortalidade na área do Concelho. Segundo dados pelo Centro recolhidos, o ano de 1973 acusou crescimento apreciável de nados-mortos e descida brusca na natalidade. Algo insólito aconteceu, pois, no ano findo. O aumento do número de crianças que não nasceram com vida permite se admitam carencias na assistencia pre-natal. Já a redução dos nascimentos não tem significado preciso e fácilmente determinavel.Visto que resultará porventura da emigração, da generalização do emprego de meios anti-concepcionais, das incertezas da evolução do custo de vida, do crescimento da corrupção e de um infinito número de outras causas. De qualquer maneira, importaria que as autoridades locais conjugassem os seus esforços pelo menos para tomarem consciencia dos problemas implicitos nas referencias anteriores, tanto mais que tudo indica não se fazer uso prático dos dados recolhidos pelo Centro de Saúde os quais, no entanto, não podem nem devem destinar-se apenas a gráficos que adornam paredes”, aponta o jornal.

VARIANTE À ESTRADA NACIONAL
A questão da variante à estrada nacional é, também, um tema de referência. “Está de novo na ordem do dia a construção duma variante à estrada nacional”, lia-se na Gazeta do dia 24. “Segundo informação recente da Junta Autónoma das Estradas, persiste o propósito de desviar do centro urbano o transito de viaturas. O desvio será feito através de variante à E. N. 8 que marginará a cidade pelo nascente. Por outro lado tinha a Câmara definido duas circulares destinadas ao descongestionamento da circulação rodoviária urbana. A Junta, que levou mais de dois anos a pronunciar-se àcerca da intensão camarária, acaba de emitir parecer segundo o qual não se justificam as duas circulares mas apenas uma e coincidente, em parte, com a mencionada variante.A análise dos métodos de trabalho das repartições estaduais que superintendem na matéria conduz à conclusão de que decorrerão decénios até que se firme uma decisão final do Ministério das Obras Públicas e outros decénios até que a decisão seja executada. Entretanto, dezenas de proprietários na zona onde virá a existir (?) a hipotética variante-circular estão impedidos de construir, dispor livremente do que lhes pertence, enquanto esperam que aquêle departamento do Estado tome resoluções. E a cidade vai, a nascente, estagnando”, acusa a Gazeta das Caldas, numa edição que tem ainda a particularidade de, por um lado, publicar o relatório de atividades da SECLA, na altura a principal unidade industrial das Caldas, e, por outro, anunciar também a instalação de uma nova indústria, de capitais suiços, que não se viria a concretizar. O jornal anunciava-a como certa e referia que ia empregar mais de uma centena de pessoas. “Começa a dar frutos a política de industrialização há meses iniciada pelo Municipio. Consiste a nova orientação camarária em dispor das largas centenas de metros quadrados de terrenos do seu domínio privado para vender a empresas industriais merecedoras de crédito e capazes de actividades fabris válidas. Correspondendo à iniciativa da Edilidade o Estado, através dos serviços competentes, está a canalizar para as Caldas os industriais estrangeiros que mostram interesse em investir e a Imprensa chama a atenção dos congéneres portugueses para as facilidades que aqui podem encontrar. Existe, em consequencia, uma dezena de perspectivas de investimentos de volume médio e pequeno no sector fabril. Vão desde a reduzida empresa de pré-esforçados, a querer dez mil metros de terreno, até ao grande consórcio luso-nipónico predisposto a dar emprego, em pouco tempo, a 3.000 pessoas. Tudo, porém, não tem passado até aqui do plano das prospecções por parte dos particulares e dos ingentes esforços dos «camarários para concretizações. Uma destas está, finalmente, à vista: Empresa de capitais, suiços vai implantar nas imediações do Campo edifícios que cobrirão 32.000 metros de terreno numa área de 7.8 hectares. O projecto está pronto. Assegurado está, tambem, o necessário licenciamento. Falta apenas firmar a compra à Câmara do terreno preciso que há-de ser vendido dentro de dias, segundo se espera”, garantia o jornal.

Para a semana trazemos mais artigos escritos a chumbo, nas primeiras edições livres da Gazeta das Caldas. Até lá!