Escrito a Chumbo 20

0
319

15 e 18 de maio de 1974

 

 

 

“Morto em combate” é o título de um artigo, com uma caixa negra, que conta que “faleceu em Moçambique, dando a vida pela Pátria, Mário Caetano Henriques, natural de Salir de Matos, filho de Angelina Maria Caetano e de Joaquim Quitério Henriques”. Na Gazeta é prestada “homenagem à memória de mais este soldado caldense morto em combate e endereçamos condolências à família enlutada”. É de realçar que Mário Caetano Henriques viria a ser o último soldado caldense morto na Guerra Colonial e já depois do 25 de abril. A Gazeta das Caldas viria, posteriormente, a fazer uma reportagem com a família.

LIBERDADE
“A liberdade é de todos e para todos” é como se intitula um comunicado da Junta de Salvação Nacional publicado pela Gazeta das Caldas na primeira página do dia 18 de maio. “A Junta de Salvação Nacional, com mandato do Movimento das Forças Armadas no sentido de salvaguardar os objectivos que conduzem à instauração da democracia e as liberdades dos cidadãos, tendo promovido a extinção de todas as organizações que coarctavam a liberdade de reunião e associação, não aceita a criação de comissões que possam ser interpretadas como limitativas do pleno exercício da liberdade de expressão e de pensamento sob qualquer forma. Os partidos políticos organizar-se-ão de acordo com a lei das associações políticas, a elaborar pelo Governo Provisório. A Junta de Salvação Nacional declara que o único aparelho popular de defesa da democracia são as Forças Armadas. A liberdade é de todos e para todos”, lia-se.
A Gazeta das Caldas continuava nesta edição ainda com a mesma direção, apesar das diligências realizadas por elementos ligados à oposição democrática, fazendo um jornal sem grandes epítetos e mostrando uma progressiva e, para muitos, oportunística adesão à situação democrática instaurada pela Revolução do 25 de Abril.

INTENTONAS
Na mesma página, logo abaixo, encontramos uma lista das “intentonas que não obtiveram êxito”, que se inicia com o “10 de Outubro de 1946: um grupo de oficiais do Regimento de Cavalaria 6 tentam um golpe de Estado no Porto”, passa pelo “10 de Abril de 1947: cinco generais, seis oficiais superiores e 13 professores universitários são demitidos das suas funções por terem participado numa conjura que se manifestou através de greves e de uma tentativa de revolta na região de Tomar”, pelo “8 de Outubro de 1948: são presos vários oficiais superiores, entre os quais o almirante Cabeçadas, acusados de terem fomentado uma terceira conjura”, pelo “31 de Março de 1953: o capitão Galvão, fundador do Órgão Cívico Militar, é condenado a três anos de prisão por conjura” e pelo “1 de Janeiro de 1962: tentativa de golpe de Estado do capitão Varela Gomes no Regimento de Infantaria 3, de Beja. Balanço: 4 mortos, entre os quais o subsecretário de Estado do Exército”, antes de concluir com a última tentativa de derrubar o regime ditatorial em Portugal: o “16 de Março: sublevação de uma companhia de Infantaria nas Caldas da Rainha. O seu avanço foi parado à entrada de Lisboa”, recorda a Gazeta.

SPÍNOLA TOMA POSSE
Esta é uma edição marcada pela tomada de posse de Spínola como primeiro Presidente da República pós-Estado Novo. “Saudação” é o título editorial do jornal que informava que “assumiu, na quarta-feira, as funções de Presidente da República o General António Sebastião Ribeiro Spínola” e que “tomou posse anteontem o governo de Portugal, ao qual preside o professor doutor Adelino da Palma Carlos. O juramento solene prestado pelo Chefe do Estado, as palavras que proferiu no discurso de investimento e as afirmações produzidas pelo Primeiro-Ministro são garantia indesmentível de que o País vai viver, democraticamente, em concórdia na construção duma comunidade nacional de participação de todos os portugueses. A Nação será Povo e ficará a ser como o Povo a quiser. A Pátria viverá, numa primeira fase, preparando a institucionalização. Depois, e em pouco tempo, passará a dispor das instituições que os Portugueses venham adoptar segundo o seu querer, democraticamente manifestado.”
Termina este texto com a significativa frase: “Saudamos respeitosamente o Chefe do Estado e o Governo”.

CRÓNICA D’ALDEIA
Na Crónica d’Aldeia, de Nobre Ferreira, conta a Gazeta que “tudo decorreu com muita ordem”. É que “também o homenzinho cá da aldeia tem direito às suas opiniões, aos seus comentários, à livre expressão do seu pensamento. Porque não? Assistimos, entre sobressaltados e perplexos, aos acontecimentos dos últimos dias no nosso país. Fomos presentes à grandiosa manifestação do dia 1 de Maio na Praça República em Caldas da Rainha. Vamos tomando conhecimento, através dos órgãos de informação, da onda de entusiasmo que varre o país de lés a lés. E depois de tudo isto, julgamos ainda estar sonhando. Como é possível desencadear tamanha transformação na vida política nacional sem derramamento de sangue, sem retaliações, sem esse cortejo de terríveis e inevitáveis actos de vandalismo que, regra geral, acompanha o fervilhar das paixões em casos tais? Dir-se-ia que os remoques pejorativos, vindos de todo o lado, que nos rotulavam acerbamente incapazes de respirar o fragante aroma da liberdade desejada, nos fizeram bem, nos amadureceram, nos incutiram a dimensão das responsabilidades e, com ela, o gosto pelas boas maneiras. Não há dúvida nenhuma que demos grande lição de civismo ao Mundo dos nossos dias que nos conceituámos no conjunto das nações obtendo carta de alforria em matéria política. E vem-nos então insensivelmente à memória uma frase que ouvimos, há anos, a um homem de Peniche, médico de profissão e pessoa muito espirituosa e respeitável, que presidia, no Teatro Pinheiro Chagas, a uma sessão de propaganda democrática. Voltando-se, no encerramento da sessão, que decorreu com grande entusiasmo, para o representante da autoridade (aquela presença tutelar ultrajante que era imposta pelo regime agora deposto), disse-lhe, com o ar mais natural deste mundo: Pode dizer ao Dr. Salazar que nesta sessão de desordeiros tudo decorreu com muita ordem». Bem haja pois, o povo português, por esta lição de exemplar comportamento que está dando aos homens do nosso tempo, que viviam já descrendo da nossa maturidade e do nosso decoro políticos como se, em todos os tempos, não tivéssemos sabido marcar galhardamente e com verticalidade a nossa posição. Já alguém disse – e com muita propriedade – que a liberdade não se conquista merece-se. Provemos, pois, que a merecemos, depois de, finalmente, a termos conquistado mercê da gesta do nosso povo. Mas não nos esqueçamos de que nem só de liberdade vive o homem. Acima de tudo, é necessário sabermos fazer uso dela, para não nos suceder o que porventura sucederia a quem, ao manejar uma perigosa arma de jogo, por inapto, voltasse os canos da arma contra si próprio. O regime político-fascista, agora deposto, foi produto do que aconteceu. Se o 28 de Maio de 1926 encontrou a «Pátria doente», como se afirmara em memorável julgamento da época, o 25 de Abril de 1974, em boa hora surgido, não a encontrou menos doente. A terapêutica de então, como medida de emergência e transitória, seria necessária e profícua se o “doente”, à força de longo e doloroso tratamento profilático, não acabasse por intoxicar-se. Faça-se pois a desinfestação do país em clima ordeiro e pautado pelos mais elementares princípios de respeito pela liberdade individual, que não enjeita, antes pelo contrário, as crenças alheias. «Não haverá o mais leve desvio da pureza dos princípios que inspiraram o movimento afirma o glorioso militar que preside à Junta de Salvação Nacional. Que assim seja – e nada nos autoriza a duvidar – são os nossos mais ardentes votos”.

DATAS
Nesta edição a Gazeta das Caldas assinala a particularidade de haver uma coincidência de datas. É que “o dia 15 de Maio marca desde há decénios o acontecimento maior da vida caldense: o nascimento, no século décimo quinto, das termas e do burgo. O dia 15 de Maio passa agora a ser data nacional, a ficar na História de Portugal. Visto que em 15 de Maio de 1974 a Nação passou a ter, sob o signo da democracia, Chefe do Estado e Governo. Coincidem, portanto, o renascimento da Pátria e o nascimento das Caldas da Rainha só que afastados nos tempos por quase cinco séculos”.

 

EXONERAÇÕES
Na última edição do Escrito a Chumbo demos conta da exoneração do presidente da Câmara das Caldas. Esta semana o jornal contava que “foram enviadas para publicação no Diário do Governo as portarias que concedem a exoneração dos presidentes das camaras municipais de Alcobaça, Bombarral, Caldas, Castanheira de Pera, Leiria. Nazaré e Pombal. Sete dos mais populosos concelhos deste distrito. Outras portarias, remetidas ao mesmo tempo para publicação, exoneram presidentes de câmaras de diversos concelhos do País”.

 

O 15 DE MAIO

Aproveitamos para falar do 15 de maio de 1974. As comemorações do dia da cidade contaram com a homenagem à fundadora, com “flores no pedestal do monumento a Dona Leonor”. Conta o jornal que “tanto a Câmara Municipal, como o Centro Hospitalar, cooperados pelas associações e colectividades locais, tiveram presente que 15 de Maio é a data em que se comemora o fundar das termas e o lançar dos alicerces do Concelho das Caldas da Rainha. Sem espaventos e com a maior simplicidade a data histórica, convencionalmente estabelecida como a do nascimento do burgo, foi assinalada – assinalada com flores depostas na base de monumento erigido a Dona Leonor. Iluminações concentradas mormente nos edifícios das Termas marcaram também o feriado concelhio – respeitado em todos os sectores com suspensão de actividades nas repartições públicas, nos estabelecimentos do Ensino, na Indústria e no Comércio”.

 

OS DIREITOS
Logo após a Revolução dos Cravos, nos vários sectores profissionais realizam-se reuniões e assembleias para reivindicar direitos e criar sindicatos. Nestas semanas encontramos vários casos. Ficamos a saber que “nas instalações do Casino teve lugar, há dias, um plenário de funcionários administrativos dos quadros camarários” e que “na reunião foram reinvindicados os direitos dos participantes visando a sindicalização”. Mas também que “os trabalhadores do Museu de José Malhoa elegeram, para defesa dos seus direitos, uma comissão representativa dos seus sectores (técnico, administrativo e auxiliar) que funcionará como delegação dos serviços deste Museu, tendo em vista o futuro enquadramento sindical a nível nacional e contactos com comissões idênticas de outros organismos”.
Os “professores do Ensino Primário do concelho de Marinha Grande, plenamente conscientes e solidários com a nova orientação da vida política do País, reuniram-se em Assembleia Geral, a fim de analisar e determinar a sua linha de conduta. Por votação, foi aprovada, por unanimidade e a título prioritário, o pedido de criação, com secções a nível distrital, dum sindicato nacional dos docentes de todos os ramos de ensino”.
E ainda os “regentes escolares de todo o País reuniram nas Caldas”, conta o jornal, detalhando que, “vindos de diversas localidades do País aqui formaram assembleia que funcionou nas instalações da Escola do Magistério Primário. Trataram dos seus interesses profissionais – muito sérios e respeitáveis – reclamaram a justa solução dos seus problemas”.

 

PARTICULARIDADES
Duas particularidades: é que a Gazeta publica na primeira página do dia 15 uma fotografia do “Golpe de Estado às primeiras horas do dia 25 de Abril” com as “Forças Militares nos Restauradores”. E, há 50 anos, era notícia a primeira tele-universidade, na Alemanha, algo que hoje, dada a evolução da tecnologia, é tão natural.

 

O BENFICA
Terminamos com o futebol, porque nesta semana a equipa do Sport Lisboa e Benfica veio às Caldas para jogar um encontro amigável com o Caldas Sport Clube, no Campo da Mata. Foi “um bom treino para os caldenses”, conta a Gazeta.
Num encontro arbitrado por Porém Luis, auxiliado por Henrique Serrão e Falcão da Silva, o Caldas alinhou com Ferreira (José António); Figueira (Inácio), Malta, Américo e Orlando: Gaspar, Vala e Paulo Veloso: Zézinho, Garrincha (Dino) e Sena, uma equipa onde se encontram muitos nomes conhecidos dos caldenses e que fazem parte da história do clube alvinegro. Pelo SL Benfica jogaram Álvaro (Amaral); José Júlio, Bastos Lopes, Barros e Maia da Silva (Sarmento e depois Fausto); Sheu, Nelinho (José Maria) e Rui Lopes; José Pedro (Cavungi), Moinhos e Diamantino.
A Gazeta diz que “não despertou grande entusiasmo aos adeptos do futebol e principalmente caldenses e benfiquistas a presença do S.L. Benfica (representado por alguns nomes bastante conhecidos) na nossa cidade. Não foi grande a assistencia que o encontro registou e mesmo essa não teve ocasião de vibrar, porque a partida foi disputada numa toada lenta e sem situações de grande perigo nem para uma, nem para outra baliza. Começando os caldenses logo de início ao ataque iam, aos poucos, deixando-se dominar pela maior técnica e meIhor preparação física da maioria dos elementos benfiquistas. No final da primeira parte o marcador estava em branco e apenas uma vez o golo esteve à vista: aos 21 minutos, num livre contra o Caldas, bastante longe da baliza, que José Pedro é encarregado de marcar e fá-lo com pontapé fortissimo levando a bola a bater na barra. Na segunda parte ainda mais se acentuou a superioridade benfiquista. A sua melhor condição física veio ao de cima e os caldenses já não tinham forças suficientes para contrariar os seus adversários. Aos 15 minutos surgiu o primeiro tento benfiquista apontado por Rui Lopes, depois de boa jogada de Nelinho que recebeu a bola na extrema direita correu com ela, rematou, António José fez-se ao lance defendendo para a frente da baliza onde estava Rui Lopes que enviou a bola para o fundo das redes. Os homens do Caldas procuraram igualar o marcador, criaram algumas boas jogadas, tiveram até o golo à vista, mas quase sempre a defensiva lisboeta levava a melhor. Aos 35 minutos surgiu o segundo e último golo da partida, de novo para o Benfica. Desta vez foi seu autor J. Maria que concluiu da melhor maneira um passe de Diamantino para a frente da baliza caldense. Até final nada mais digno de registo se passou. O Benfica continuou a fazer a bola correr todos os cantos do terreno enquanto ao Caldas poucas forças lhe restavam para que pudesse realizar um «volte-face. O resultado final de 0-2 aceita-se perfeitamente, já que o Benfica foi superior ao Caldas e podia ter marcado mais um ou dois golos; mas a diferença mínima também não escandalizaria ninguém e o Caldas bateu-se bem e podia ter feito pelo menos um golo. Estamo-nos a lembrar de duas jogadas que podiam ter resultado em golo: uma que Zézinho desperdiçou atirando por cima da barra quando estava em boa posição de marcar, e outra de Garrincha que remata de fora da área ao ângulo superior esquerdo obrigando Álvaro a excelente defesa para evitar o tento. No Caldas destacamos Ferreira, Gaspar e Zézinho. No Benfica Alvaro, Barros, Sheu e José Pedro. Arbitragem sem problemas”, conta a crónica do jogo, assinada por João Cascão.

 

Para a semana trazemos mais artigos escritos a chumbo, até lá.