Escrito a Chumbo 3

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16 e 19 de janeiro de 1974 – Na edição de 16 de janeiro o destaque vai para um artigo na primeira página que informava que afinal “O Centro Hospitalar continua a receber, gratuitamente, doentes realmente pobres”.
Lê-se que “a propósito de notícia inserida há dias nestas colunas sobre o mesmo tema, podemos informar os leitores de que estão previstas medidas para assegurar assistência médica às pessoas desprovidas realmente de recursos para fazer face, no todo ou mesmo em parte, aos encargos inerentes à prestação dessa assistência” e que ” o Centro Hospitalar continua a acolher tais pessoas”.
Mas, ressalva, “procede porém a sumário inquérito à situação do doente e do agregado familiar sendo as despesas de tratamento e internamento suportadas, na medida do possível, pelo enfermo” e que “se este, porém, é individuo que, só por incúria ou falta de educação cívica, não está abrangido pela Previdencia, podendo estar, então não encontrará, seguramente, qualquer apoio social”.
Outro tema com chamada à primeira página é a receita do Turismo, que se previa que ascendesse naquele ano a 1693 contos (o equivalente nos nossos dias a cerca de 8500 euros).

Mas há um artigo curioso nesta edição: “Achados”, que diz que “na esquadra local da P. S. P. encontram-se depositados os seguintes objectos: uma nota do Banco de Portugal, determinada importância em dinheiro estrangeiro, diversas peças de ferramenta, uma bolsa em lona contendo vários objectos escolares, dois velocípedes, dois sacos em pergamóide, contendo artigos de vestuário e um animal de espécie canina” e que todos eles “foram achados na via pública e serão entregues a quem provar a propriedade deles”.
O novo regime de trânsito citadino entrou em vigor e “progressivamente, começaram a ser colocados nas diversas artérias citadinas os novos sinais de trânsito, de harmonia com a postura aprovada em Setembro pela Câmara e em Dezembro pelo Conselho Municipal”.
A Gazeta relatava que “por sinal que apareceu na rua Sebastião de Lima a proibição no sentido poente-nascente impedindo a circulação no troço desde a rua da Alegria à do Sacramento. Prontamente o erro foi reparado pois que, de harmonia com o regulamento, nêste troço o transito não tem restrições e sim o estacionamento, que é proibido”.
Além de algumas ruas passarem a ter trânsito apenas num sentido, “um princípio geral entrará tambem em vigor no centro urbano, definido com precisão na postura: nas ruas com dois sentidos de transito o estacionamento é proibido; de notar que a proibição envolve apenas ruas própriamente ditas e não tambem avenidas, praças ou largos”.
O falecimento de Elisa de Alvarenga também é uma das notícias em destaque. “Em Lisboa, faleceu no passado dia 8, dona Elisa de Alvarenga, de seu nome completo Elisa Próspero Parissi Oliveira de Alvarenga, que contava 79 anos”, lê-se no artigo, que nota que esta era “muito considerada pelos seus dotes de espirito e de coração” e que “a extinta era natural desta cidade”, tendo sido “premiada em concursos literários promovidos por vários jornais, dirigia com muito brilho e acerto a página da mulher do diário da capital Novidades”.
A Gazeta recordava que “era a mais antiga das colaboradoras deste jornal onde foi seccionista de «Para a Mulher»” e que “ainda na nossa edição de Natal nos deu o prazer da sua colaboração”.

Na edição do dia 19 há também uma despedida, a de Luiza Satanela, que “nas primeiras horas do passado dia 12, nos seus aposentos da Pousada do Castelo, onde há longos anos residia, faleceu D. Paola Luigia Maria Oliva, de seu nome artístico Luiza Satanela”.
O jornal conta que era “natural de Turim, na Itália” e recorda que “veio para о nosso país ainda criança, notabilizando-se nos palcos portugueses como uma das melhores artistas do seu tempo”.
Luiza Satanela vivia há anos em Óbidos, “como concessionária da Pousada do Castelo, onde a sua acção também se notou, realizando ali trabalho de muito apreço e valor”.
A Gazeta refere que esta “glória do nosso teatro no seu tempo”, era “muito amiga dos pobres, pelos necessitados da Vila distribuiu largamente os seus donativos, socorrendo todos quantos à sua porta batiam pedindo auxílio”.
Na edição de 19 de janeiro salta também à vista um artigo na primeira página que nos conta que a receita da Casa do Povo prevista para aquele ano ascendia aos 17 mil contos (que corresponderiam, na atualidade, a cerca de 85 mil euros). O jornal explica que “em instalações de pequena dimensão e com um quadro de oito funcionários, apenas, a Casa do Povo do Concelho entrou no ano de 1974 englobando 6.500 sócios efectivos ou equiparados – trabalhadores rurais e agricultores de trem de vida semelhante” e que “através desses sócios estão a coberto da previdência social mais 7.500 pessoas, conjuges e descendentes dos referidos associados”.
Esta era então “uma organização que é a maior do concelho no âmbito da população que abrange, quantitativamente muito superior à de qualquer outra agremiação, pública ou privada” e que tinha um orçamento no qual “se prevê uma receita da ordem dos
17.000 contos, verba superior à própria receita ordinária do Município!”. Dessa, “15.300 contos [n.d.r: seriam hoje cerca de 76 mil euros]são consagrados inteiramente, na despesa, a fins de previdência rural: pagamentos da assistência clínica, de medicamentos, de pensões de reforma por idade avançada e por invalidez, subsidios de nascimento, de aleitação, de casamento, por doença, por morte, etc”.
Trazemos ainda um testemunho da importância da Gazeta das Caldas. Neste caso, vindo de um primeiro cabo em serviço militar algures na Guiné, de nome Carlos Rodrigues, que afirmava então que “para os militares dessa cidade o jornal é a continuação da nossa vida”.
O autor da carta, escreve “de terras do Ultramar em nome de um grupo de naturais, como eu, do concelho de Caldas”, explicando que “é com imensa alegria que recebemos o vosso jornal” e que “para nós, militares, dessa cidade, o jornal é a continuação da nossa vida pois cada notícia é uma presença”.
O militar diz ainda que “não calcula a maneira como nós o lemos quando o recebemos: só quem vive longe da sua terra natal sabe compreender a alegria que nos dá a recepção de um jornal da nossa terra” e que “sentimo-nos solidários com as alegrias e tristezas que o vosso jornal encerra”. Afirma, ainda que “recebemos todas as notícias com uma avidez insaciável só por isso explica a existência do vosso jornal” e partilha que “como membro do Corso Carnavalesco de Caldas e como me encontro a cumprir o serviço no Ultramar desejo aos meus camaradas do Corso felicidades”.

Tal como hoje, há cinquenta anos, logo no início do ano, nas primeiras semanas de janeiro, o carnaval já ocupava os pensamentos de muitos e, como mostrámos na última edição do Escrito a Chumbo, já estava a ser preparado nas Caldas.

Para a semana trazemos mais artigos escritos a chumbo!