Escrito a Chumbo 5

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30 de janeiro e 2 de fevereiro

“Invulgaridades” é o título de um artigo de 30 de janeiro em que encontramos uma explicação de que “até 1968 reunia o Conselho de Ministros periodicamente – como posteriormente – e os leitores dos jornais ficavam a saber, apenas, que os membros do Governo haviam tido mais um encontro de trabalho coletivo com o presidente desse Conselho e haviam aprovado «diversos decretos-lei».” Mas, prossegue, “após 1968 continuou a reunir o Conselho, transmitindo-se depois aos ouvintes da E. N. e aos ledores da Imprensa, longas descrições do deliberado e das providências tomadas por via legislativa”.
Agora, relata o jornal, “há dias reuniu outra vez o dito Conselho e os jornais tornaram público que na reunião haviam sido aprovados «diversos decretos-lei»”, pelo que “parece pois que ao vulgar estilo de governação de antes de 1968 se voltou agora neste sector, ou melhor, escrevemos, também neste sector”. Vir-se-ia a saber depois que até 1968 Salazar reunia raramente o Conselho de Ministros, e que os assuntos mais importantes eram decididos cara a cara Salazar com cada ministro. Apenas com Marcello Caetano o Conselho de Ministros passou a reunir semanalmente. Ou seja, de uma forma indireta era dado a conhecer este facto com a entrada de Marcello Caetano como primeiro-ministro.

Outra curiosidade: “o concelho das Caldas passou à área do Mondego”. É que “por disposição legal recente os dezasseis concelhos do distrito ficaram assim distribuídos quanto à jurisdição dos Serviços Hidráulicos: Direcção Hidráulica do Mondego – Alcobaça, Batalha, Bombarral, Caldas, Leiria, Marinha Grande, Nazaré, Óbidos, Peniche e Pombal; Direcção Hidráulica do Tejo – Alvaiázere, Ansião, Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos e Pedrogão Grande”.

A abertura dos concursos para a construção dos tão badalados em anos anteriores pavilhão gimno-desportivo e piscina municipal são notícias em destaque na edição de 30 de janeiro, coisa que só ser viria a verificar vários anos depois do 25 de Abril. “Os respectivos projectos estão ainda a ser elaborados encontrando-se praticamente concluído o do pavilhão”, detalhava a Gazeta das Caldas.

 

Na Gazeta Desportiva nota para um jogo amigável realizado entre o Caldas Sport Clube e o Sporting Clube de Portugal. “Com o interregno do Campeonato o Caldas preencheu o domingo com um jogo amigável contra as reservas do Sporting”. O jornal da terra conta que “os adeptos do Caldas aguardavam com ansiedade este encontro para poderem ver até onde a turma caldense podia chegar perante um Sporting”. Relata a Gazeta que “numa tarde primorosa de sol, futebol primoroso de ambas as partes sem as equipas se submeterem à defesa dando sempre boa luta com passes largos e a bola a girar em todo o retângulo”.

 

Nota para o Padre Miguel Amorim, que era capelão das termas caldenses há sete anos e que fora convidado para elaborar a História das Caldas. Preparava-se uma “singela homenagem ao dedicado e zeloso sacerdote”.

 

 

A crise de combustíveis mantinha-se, contrariamente ao que se pensava nas edições anteriores, em que se alvitrava o final da escassez. “Agrava-se a crise: a região está sem gasolina”, titulava o artigo, que explicava que “depois de um período de acalmia em que diminuíram as filas de veículos junto aos postos de abastecimento, a situação tomou de novo aspectos de gravidade” e que “assim, no decurso desta semana o carburante rareou e ontem, fornecidos de novo aqueles postos, centenas de viaturas formaram bichas e rapidamente a esgotaram”.
Na Gazeta há ainda os “males a que se pode e deve pôr fim”, título de um artigo que resulta da denúncia de um cidadão. “Vindo gentilmente a corresponder ao pedido de notícias que sempre fazemos, prezado assinante dá-nos conta e reclama do seguinte: Em pleno centro da cidade, onde tem instalações, a representação de importante empresa nacional pratica queimar os restos e as embalagens dos produtos em que negoceia, compostos e misturas químicas que, ardendo, exalam mau cheiro e poluem”.
Trata-se, explica, “de, por forma prática e rápida, dar destino ao que não é preciso à empresa. E que transformado em incomodidade e em perigo para a saúde (será?) a vizinhança tem de receber muito contra a própria vontade”.
O jornal diz ainda que “basta que os responsáveis máximos pela existência da representação da empresa sejam alertados o que ora fazemos para que, concerteza, ponham côbro à origem de mal que pode e deve ter fim”.
O artigo prossegue com outros “males”. “Isto de permanecerem no centro da urbe postos abastecedores de combustível, oficinas de reparação de veículos, estações de serviço etc., também é mal a que se pode e deve pôr termo”.

E explica porquê: “há dias foram precisos três agentes da PSP para por cobro a engarrafamentos de trânsito causados por fila de automóveis à espera de gasolina”. Acresce que tal “aconteceu na segunda-feira” e que “por isso, em ocasião de tanto tráfego, o sinaleiro não estava lá”. O jornal questiona “quando é que deixa de haver polícia em abundância nuns lados (casas de espectáculo, recintos desportivos, Banco de Portugal, etc.) e passa a haver noutros onde nunca aparece: subúrbios da cidade, percursos preferidos pelos díscolos que frequentam cursos nocturnos, etc.”. E aí refere que “o director da Escola Técnica local precisa, e quanto antes, de pôr termo a mal que pode e deve suprimir. Qual é o dos alunos dessa Escola, que às 23 horas acabam as aulas e retomam a condição de «libertados» destruírem tudo que encontram no regresso para as residências. São distúrbios sobre distúrbios em que a arma de arremesso é a pedra da calçada e o alvo o sinal de trânsito ou o corpo do camarada”.
O Carnaval continuava a mexer com a cidade. Na edição de 2 de fevereiro dizia-se que “O Carnaval tem de vir a ser, nas Caldas, o mais animado e o mais frequentado”. Nele lê-se que “muitos e muitos caldenses, olhando, há dias, os pequenos écrans devem ter ficado surpreendidos ao verificarem que existe em Portugal uma cidade provinciana com uma bela, vasta e grandiosa praça, que a esta não falta a beleza artística de excelente peça de escultura, que nela se encerra uma homenagem ao passado próximo representado pela figura do Marechal Carmona, que a ornam o edifício espiritualmente impressionante de moderno templo e um imponente embora simples palácio de justiça e que se lhe segue ampla avenida, embora desprovida ainda de «existência» nela”.
Prossegue que “verdade, verdade, leitor, é que, vindo às Caldas, as máquinas de captar imagens para a TV apresentaram as de uma cidade que as desconhece e não as tem na devida conta. Ou então, os poderes mágicos dos operadores da Televisão sabem dar grandiosidade ao que não é grandioso e conferir aparências de grandeza à pequenez. Talvez que a alternativa sirva a gregos e a troianos. Seja como fôr, o que vai contar é a impressão deixada aos milhares de espectadores do País pelo TV 7 de domingo passado no seu contacto, por imagem, com as Caldas. Impressão que nos será altamente favorável, concerteza”.
O jornal detalha ainda que tal “deve-se a um punhado de senhoras e de homens que tiveram a veleidade de tomar para si o encargo de organizar, ano a ano, corsos de Entrudo”. Descreve-os como “gente de trabalho”, que “não desaproveitou o ensejo e conseguiu, sem auxílio algum, que as máquinas da R.T.P. viessem do Lumiar às Caldas”.
A equipa teve direito a “almoço, cavacas, trouxas de ovos, artigos regionais, objectos cerâmicos mais ou menos artísticos…” e passaram-se “nove horas de contactos e convívio humanos produziram cinco minutos de programa para centenas de milhares de espectadores. É isto que conta. Conta também que se assumiram responsabilidades e muito sérias. Disse-se tanto do Entrudo nas Caldas que preciso é ofereça as Caldas um Carnaval digno do que dêle se disse”. Só que, afirma, “duvidamos de que isso venha a acontecer neste ano da graça de 1974. E se tal não ocorre por certo que as gentes do Lumiar, desmentidas e desiludidas, se sentirão ludibriadas e não virão a cair noutro ludíbrio caldense. Isto representa um repto. Porque, se quisermos, haveremos de apresentar ao País um Entrudo diferente, O Carnaval mais animado e o mais frequentado de todos os demais”.
Uma particularidade: lembra-se da falta de vedação em torno da igreja de Nossa Senhora do Pópulo depois da requalificação de que falámos num Escrito a Chumbo anterior?! Nesta semana, logo na primeira página e com direito a imagem encontramos o seguinte título: “vai começar a obra?”. É que “apareceu colocado no local, que há tanto o espera, princípio do gradeamento que a gravura nos apresenta e que rodeia o vetusto templo, símbolo das termas e do burgo”. O artigo termina com uma questão: “será desta vez?”
O edifício da Escola da Foz do Arelho estava a ser alvo de obras para melhorar as condições do espaço. “O prédio, ofertado à população por Francisco de Almeida Grandella, serve de escola há sessenta anos. Ultimamente, por falta de cuidados de conservação, encontrava-se em estado deplorável”, alertava o jornal.
A então ROL – Rolamentos Portugueses (hoje denominada Schaeffler) estava há 14 anos nas Caldas e anunciava uma “nova linha de montagem” que representava um investimento de 35 mil contos (175 mil euros). A Gazeta dizia então que “mais ou tanto como a implantação de novas indústrias interessa que as unidades fabris das Caldas cresçam e se desenvolvam a bem da economia local” e que “está a ser esse o caso da empresa que instalou na cidade uma fábrica de rolamentos. Assim, durante o segundo semestre do ano em curso nova linha de montagem permitirá à Rol produzir rolamentos cónicos. Esta medida de expansão da empresa importará um investimento de 35.000 contos, verba que compreende também a despesa com a ampliação das instalações. A fábrica, onde agora trabalham 223 pessoas, passará a empregar mais cinquenta”.
Temos, ainda, um poema ao Cine Teatro Pinheiro Chagas e um artigo sobre as dificuldades sentidas na imprensa regional, que, 50 anos depois, continua a viver muitas dificuldades para poder informar.
Para a semana trazemos mais artigos escritos a chumbo. Até lá!