Escrito a Chumbo 9

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27 de fevereiro e 2 de março de 1974

 

Na edição do dia 27 de fevereiro de 1974 destaque para as comemorações do Carnaval nas Caldas. “Não houve crises e a cidade encheu-se de forasteiros que tudo esgotaram. É preciso continuar, isto é, melhorar”, conta a Gazeta das Caldas.

“Enganámo-nos redondamente. Ainda bem. O Entrudo caldense, a tornar-se nacional cada vez mais, foi sensação”, acrescenta, contando que “de todas as bandas e por todos os meios de transporte apareceu gente e mais gente a querer folia. Folia pública. Nos corsos. Folia privada. Nos bailes. Folia intermédia por todo o lado. É assim que, chegados ao dia de hoje, quarta-feira de Cinzas, podemos dar balanço. O Carnaval na nossa cidade atingiu, este ano, um ponto que embora se não possa considerar culminante, pois muito há ainda a fazer, quer em relações públicas quer em actualização, pode melhorar bastante ainda, carecendo por tal motivo da colaboração de entidades essenciais para uma sua maior valorização além do comércio e indústria da região”.
O jornal diz que “as festas carnavalescas na nossa cidade marcaram mais uma vez pela sua imponência e tradição, deixando transparecer que elas atingirão nos anos mais próximos um ponto bastante elevado, desde que os seus entusiastas organizadores mantenham o seu entusiasmo e dinamismo” e que “os Corsos realizados no domingo e ontem reuniram cerca de mil figurantes além de duas dezenas de carros alegóricos dando à cidade por tal motivo um ambiente de imponência que é justo realçar”.
A Gazeta relata que “Zés Pereiras, Cabeçudos, Gigantones e outros mascarados tornaram este Carnaval das Caldas, um Carnaval novo, eufórico pleno de alegria e satisfação para todos aqueles que nos visitaram que foram aos milhares” e que “o recinto bastante apropriado para o efeito foi pequeno até para acolher os milhares de folgazões que ali acorreram dando à cidade um ambiente de que há muito se não estava habituado”.
Frisa-se que “a comissão organizadora dos Corsos pelo que nos foi dado ver não se poupou a esforços para que o Carnaval das Caldas atingisse o nível nacional, contribuindo assim de forma bem vincada para a conquista do turismo de inverno nesta fabulosa, mas tão abandonada região do Oeste”.
As comemorações começaram na noite de sábado, quando “os Reis de Carnaval chegaram à estação de caminho de ferro, onde eram aguardados por enorme multidão que os acompanhou sempre quando percorreram as ruas da cidade, a anunciar a boa nova para o dia seguinte que era o Corso de domingo”.
Além disso, “nos salões do Casino do Parque, Lisbonense, Pimpões e Bombeiros a alegria foi esfuziante, pois todas essas salas nas noites de carnaval e muito em especial na de segunda-feira encheram-se por completo o que denota mais uma vez o enorme prestígio que os mesmos conquistaram”.
Já na terça-feira, “a cidade novamente regurgitou de gente quer no Corso que mais uma vez encheu todos de alegria, quer ainda na Praça de Toiros onde se efectuou um Festival Taurino, quer há noite em todos os bailes”.

Mobilidade nas Caldas


A mobilidade também já era, há 50 anos, um tema central. Se hoje temos estradas alcatroadas e discutimos a forma de transporte, há cinco décadas a luta era por… caminhos e estradas. “Borralho, Avenal, Morenas, Ameal e Cª.” titula uma peça que começa da seguinte forma: “pois é, na verdade os apelos lançados na «Gazeta» pelos habitantes de alguns bairros periféricos da cidade são deveras elucidativos quanto ao deplorável estado dos caminhos que os servem e à autêntica amargura vivida pelos moradores dos referidos locais. Mas, também, não acreditamos que seja necessário morarem nessas áreas os homens que podem solucionar estas coisas para que a situação melhore. Isto porque ainda acreditamos nos responsáveis, no seu bom senso, na sua formação cristã, no seu espírito de solidariedade. Estas qualidades devem, ou deviam existir, em todos aqueles que exercem cargos de chefia. O que nos parece existir, isso sim, é falta de informação, de fiscalização, de espírito de bem servir por parte de quem compete vistoriar. E não nos venham dizer que não há dinheiro nem pessoal. Com os meios mecânicos que a Câmara já dispõe, em muitos, em muitíssimos casos, há lacunas que são pura negligência. Lançar umas carradas de saibro ou de sarrisca nos buracos, colocar uma lâmpada aqui e acolá serão trabalhos de monta? De grande envergadura orçamental?”, questiona. “E quantas vezes esses pequenos benefícios não serviriam para suavizar agruras e deixar bem impressionados os pobres habitantes de abandonadas regiões que, no caso vertente, até fazem parte da cidade”.

E o fenómeno da Emigração? 

O artigo prossegue recordando que “lia-se há dias na «Gazeta»: Até que ponto poderá Portugal resistir ao surto da emigração, ao abandono das nossas aldeias pela massa rural?». Parece-nos que já não está a resistir. A falta de comodidades nos meios rurais e subúrbios de vilas e cidades, insere-se perfeitamente, entre outras causas, nas raízes da emigração em massa. Se se quer combater este mal não se pode esquecer nenhum pormenor. Há coisas bastante simples que calam bem fundo no coração do povo. Veja-se o contentamento, a alegria, a hospitalidade dos nossos rurais ao receberem os representantes do Governo quando se inaugura a estrada, o chafariz, a electricidade ainda que, para tanto, muitas vezes tenham de contribuir directamente”.

O artigo nota que “Caldas da Rainha é uma cidade bonita, de nome feito, que muita gente escolhe para viver ou para descansar. Mas a cidade não se confina só ao seu centro onde também só já podem viver os ricos. É preciso cuidar dos seus arredores, torná-los aprazíveis que implica, necessariamente, remediar os caminhos, abrir outros, dotá-los de saneamento, iluminá-los capazmente. Há dezenas de lâmpadas avariadas meses seguidos. As Caldas é uma terra às escuras com flagrante falta de luz por todos os lados. Para constatar as precárias condições e o descontentamento em que vivem milhares de pessoas, convidamos a Exm.a Câmara num destes dias, ou noites, de rigoroso inverno a visitar a periferia da cidade começando pela estrada do Ameal, quinta dos Pinheiros, Bairro Salgado, Além da Ponte, Arneiros, Avenal, Morenas, etc. Talvez que desta forma algo se fizesse com mais urgência e com pouca despesa.”

As estradas e caminho na cidade e nas zonas rurais…

“Como se sabe não chega cuidar só das novas avenidas, dos novos arruamentos. Por todos os motivos mas por todos é urgente olhar para outros lados”, termina o artigo, que é publicado com uma chamada nota de redação onde se lê que “os problemas da administração pública são complexos; já de si qualquer problema precisa de ser analisado por quem se encontre na posse de todos os dados; também aqueles. Dois critérios vêm, desde sempre, determinando a Câmara no que respeita a obras de pouca monta, ou seja, obras que o Município pode efectivar sem auxílio do Estado. Se se tornam precisas nos meios rurais são as próprias brigadas de trabalho municipal que as realizam. Se se situam na cidade convirá dá-las de empreitada. Isto porque as populações das freguesias ajudam por todas as formas, e amplamente, a realização de melhoramentos, enquanto os habitantes da urbe em nada comparticipam o que, por vezes, apenas interessa a muito poucos. Daí que o revestimento a betuminoso de algumas das artérias mencionadas pelo articulista e em cartas de leitores, já publicadas, tenha sido confiado ao empreiteiro de obras públicas Manuel de Sousa do Outeiro Júnior em Junho de 1973 por deliberação camarária vinda a lume nestas colunas e também referida noticiosamente. O que decerto passou despercebido tanto aos ditos leitores como ao articulista”.

A nota afirma ainda que “o empreiteiro que não parece muito zeloso no cumprimento das obrigações contratualmente assumidas e se desculpa com carências, principalmente de mão de obra está agora à espera que termine o inverno, segundo diz, para executar as obras…”.

E as lâmpadas fundidas?
Já “quanto a lâmpadas que se fundem ou quebram e não são substituídas na rede de iluminação pública, claro que há desleixo e uma certa desorganização dos Serviços Municipalizados. Mas há também quem se entretenha a parti-las, à pedrada ou a tiro, revelando uma propensão de destruir que bem conviria merecesse a atenção do articulista e dos leitores que reclamam”, termina.

“Firmeza e unidade”


Tendo em conta o contexto político, é interessante salientar um artigo intitulado de “Firmeza e unidade”, alinhado com o regime e com a sua posição colonialista, contrária a tudo o que era a evolução mundial. “Nas Nações Unidas que de unidas só têm o nome continua a processar-se o ataque contra Portugal. Não desarmam os nossos inimigos na conjura contra nós urdida, esforçando-se por nos levarem a aceitar os seus desejos que seria o abandono do que há séculos é terra lusitana. Não nos admira que levem tão longe a sua maIdade que acabem por votar sanções contra Portugal. Mas mesmo que tais restrições nos venham a ser impostas, há-de ver-se o que vale a vontade de um povo quando tem a noção da injustiça de que é alvo e a certeza da razão que lhe assiste”, refere.
“Contra tudo e contra todos, nós temos de fazer prevalecer os nossos direitos, que são sagrados, e demonstrar ao Mundo que a abdicação hoje tanto em voga, não entrou ainda nos sentimentos das portugueses, daqueles que estão dispostos a vender a Pátria por um prato de lentilhas. Estes, sim, que nos entristecem por o vermos de gorra com os nossos inimigos e dispostos a transaccionar parcelas sagradas da terra portuguesa que deviam defender à custa da própria vida”.
Num artigo que tem que ser analisado à luz do seu tempo e que nos permite conhecer a História com rigor, mas também o pensar e agir da ditadura, que nos permite recordar para evitar cair nos mesmos erros, lemos que “o Ultramar português foi cimentado com o sangue dos nossos maiores em cuja terra muitos repousam para a eternidade. Não é uma ficção, como nos atribuem, a existência da lusitanidade no continente africano: é a realidade nascida da gesta dos Descobrimentos, ano após ano mantida através da aglutinação do negro que livremente ombreia connosco e se sente tão português como todos nós”.
E prossegue: “mas isso não interessa àqueles que apenas têm em vista a terra que nos pertence. Por mais direitos que invoquemos, e por maior que seja a verdade que nos assiste, nada conta nem nada existe que não seja a sua intenção e o fim criminoso com que nos pretendem esbulhar. E há Santo Deus! – quem, sendo português, deseja que abdiquemos entregando tudo a uma independência concertada que, de qualquer modo, concertada ou não seria sempre renunciar. Ora se o problema é grave pela periculosidade que representa no desfalque do património da Nação, mais se agravará, evidentemente, se portugueses houver que, destruindo a coesão, façam o jogo dos nossos inimigos. A hora não é de divisões partidárias nem de questões de Regime: a hora tem de ser de unidade, estando em jogo unicamente e apenas a defesa da Pátria. E a Pátria situa-se acima das questiúnculas dos homens; e criminosa será a atitude daquele que não a honre ou queira transaccionar qualquer das suas parcelas. Mas também não dormimos. Cá vamos marchando na vida, embora modesta, que construímos e que nos há-de conduzir, com a ajuda de Deus, à manutenção da nossa integridade. Incúria seria, é certo, menosprezar a gravidade do momento; mas também não nos podemos deixar atemorizar até ao ponto de perdermos o ânimo para lutar, aceitando, de mãos caídas a usurpação que nos pretendem impor. Eles sabem que na firmeza da nossa atitude está a fraqueza dos seus intentos. Por isso se esforçam por todos os meios em nos criarem dificuldades quer por uma propaganda activa, quer por uma acção enérgica de desprestío e de corrupção. Temos a verdade e, a justiça do nosso lado e somos uma unidade disposta a defender estes valores. Isso o que não devemos nunca esquecer”, conclui.

“Um mundo dementado?”


Ainda em termos de análise global, temos “Um mundo dementado?”. É que é “lamentável a todos os títulos o panorama que o planeta em que vivemos nos oferece. Raros os países onde não impera a agitação político-social, atentados à bomba, reivindicações à mão armada, assaltos a aviões, sangrentas e impunes acções de guerrilheiros, pronunciamentos militares, mortandades causadas pela imprevidência de incompetentes Governos, instabilidades ministeriais, lutas de partidos, povos oprimidos por potências imperialistas greves – perturbações impulsionadas por extremistas e que agravam desastrosamente as economias nacionais”, começa o artigo. “Agora, acresce a chantagem do «oiro negro levada a efeito por primários Estados árabes e que favorece apenas os grandes potentados sem beneficiar os seus respectivos povos que são, reconhecidamente, estatisticamente, os de mais baixo padrão internacional de vida. E tudo isto, e muito mais, constituindo, sem dúvida nenhuma, alguns desses factores ameaça latente à paz internacional. Isso perante a apatia da ONU, inútil organização criada num momento de euforia por espíritos idealistas, mas cujos resultados se têm vindo a adulterar, de modo que a tornam um órgão de dissidências entre as duas facções políticas antagonizadas – os blocos ocidental e oriental. De um lado, nações com larga maturidade política, a quem o Mundo deve principalmente o grau de civilização até há pouco vigente, e que se devotavam ao respeito mútuo. Estes formam agora a minoria no famigerado Palácio de Vidro de Nova Iorque. Da outra banda, e em maioria esmagadora, povos recém-saídos da barbárie, impondo com o discutível valor de votação, que erradamente se apelida de democrática, os quais com as suas pretensões insidiosas ferem o direito dos outros.”

E a crise energética contou muito…
“O que está a ocorrer no mundo com a crise energética é flagrante sintoma da falta de moral internacional que atravessamos”, acusa mais um artigo altamente tendencioso. “Meia dúzia de Estados árabes, argumentando com a força do seu petróleo, e a pretexto da luta com Israel, (que não souberam vencer no campo de batalha) tentam submeter o Globo à sua vontade, donde a razão está ausente. Dificultam o progresso, paralisam o bom entendimento universal e provocam a queda da economia geral sem proveito para ninguém. Estarrece a passividade do bloco ocidental (o mais prejudicado) ante a deprimente situação. Mais, verifica-se uma corrida pressurosa de estadistas responsáveis ao Próximo Oriente, em vergonhosa subserviência, a manifestarem servilmente aos chantagistas os seus inesperados sentimentos amigáveis. O centro da política económica parece ter-se deslocado para o Cairo, agora aparentemente senhor todo-poderoso dos destinos da humanidade. Pois em face de tão tristes circunstâncias, a nossa conhecida organização sediada em Nova Iorque, conserva-se olimpicamente silenciosa, absolutamente inactiva. Não são os delegados afro-asiáticos que a governam? Num só tópico, porém, a ONU, se mostra activa e palavrosamente enérgica: precisamente nos ataques a Portugal (um oásis no meio da turbulência mundial), pretendendo por todas as formas minimizar-nos. Calunia-se, injuria-se, mente-se, falseia-se, desconhece-se ostensivamente toda a obra colossal por nós realizada na Metrópole como no Ultramar, para nos atacarem, incessantemente. Certo é que começam a ser numerosas as falas de individualidades marcantes nos concertos intelectuais e científicos que se vão ouvindo a nosso favor”.

Os nossos “defensores”
“Em artigos de jornais, nas tribunas de deputados, em entrevistas… Esclarecem a situação, desmentem atoardas, descrevem com dignificante isenção o que viram nas suas viagens ao nosso País. E elogiam-nos pelo que temos já realizado e estamos realizando. Isso, todavia, parece ser letra morta para os que continuam a atacar-nos. No entanto, para nossa honra, cá vamos vivendo, empregues devotadamente à concretização duma onda de progresso e de tranquilidade que constitui exemplo, que só nos honra, dentro dos condicionalismos desta difícil época, no desvairado Mundo em que nos movemos. Isso embora gostássemos que os tenazes inimigos, num assomo de sinceridade, melhor nos apreciassem e aceitassem a colaboração leal que sempre oferecemos a toda e qualquer nação”, prossegue.
É, pois, um excelente exemplo da importância de uma imprensa livre dos poderes que não existia na ditadura. A falta de informação rigorosa, transparente e isenta permitia ao Estado controlar a população. E, um pouco por todo o mundo, tem sido vista na prática a importância da informação na evolução e conquista de direitos.

Terminamos com uma nota mais leve e humorística: “De «Linpezas» a «Alugão-se»!!!”, é o título de um curioso artigo. “Talvez que V. Ex.a não se importe de chamar a atenção, no seu jornal para os vandalismos que se fazem à gramática portuguesa em alguns letreiros que se veem nas montras. Se essas pessoas não sabem escrever seria melhor que pedissem a quem sabe. Muita gente eu ontem vi rir ao lerem num café: Encerrado para Linpezas!.. e na rua de Camões, (imaginem na rua de Camões): Alugão-se fatos para o Carnaval!… Envergonhei-me de ver turistas e forasteiros a troçar de nós”, conta a Gazeta.

Para a semana trazemos mais artigos escritos a chumbo, quando nos aproximamos do 16 de março de 1974… Até lá.