Falta de médicos prejudica utentes das freguesias rurais das Caldas da Rainha

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Preocupados com a falta de médicos para atender cerca de 6800 utentes, os presidentes de Junta de Freguesia do Landal, Alvorninha, Santa Catarina e Carvalhal Benfeito, e o presidente da Câmara das Caldas, denunciaram publicamente a situação, no passado dia 7 de Junho, na esperança de uma resposta por parte do governo.
Prometeram ainda levar o assunto à Assembleia Municipal e voltar a reunir com a direcção do Agrupamento dos Centros de Saúde do Oeste Norte (ACES Oeste Norte) e com a Administração Regional de Saúde.

“Hoje [segunda-feira] às 9h00 da manhã estavam 15 pessoas à espera, à porta da extensão de saúde, às 14h00 estavam já 40 e mais uma vez o médico faltou e não avisaram”. O relato é feito por Maria João Querido, presidente da Junta de Carvalhal Benfeito, mas é comum aos outros autarcas das freguesias rurais que, desde a criação das Unidades de Saúde Familiar (USF) nas zonas urbanas, têm visto os seus utentes ficar sem uma resposta eficaz ao nível da prestação dos cuidados médicos.
Carvalhal Benfeito tinha no final do ano 1500 utentes inscritos na extensão de saúde e agora conta apenas 900 pois muitos seguiram a médica para a USF que integrou na cidade. Os outros deixaram de ter médico de família na terra cinco manhãs por semana para ter dois períodos da tarde, que resultam em quatro horas semanais.
“A maior parte do tempo são apenas duas horas semanais porque o outro médico tem estado doente”, explicou a autarca, adiantando que deslocarem-se ao centro de saúde caldense não é solução pois o seu serviço de atendimento funciona entre as 18h00 e as 20h00 apenas com oito consultas. “Em desespero de causa as pessoas têm ido ao hospital”, conta, acrescentando que o Carvalhal Benfeito dista 13 quilómetros da cidade e há pessoas que moram a quatro quilómetros de uma paragem de autocarro que os possa transportar à cidade.

DUAS SEMANAS SEM MÉDICO

Em Santa Catarina a situação não é melhor. Esta semana não tiveram médico nenhum, situação que se mantém até 18 de Junho e, a partir dessa data, também não têm qualquer garantia de que os quatro que ali trabalhavam regressem, uma vez que apenas um é ali efectivo.
Esta freguesia tinha há um mês e meio cerca de 3100 utentes e actualmente possui 2900, revela o seu presidente de Junta, Rui Rocha, adiantando que há seis meses que andam em reuniões com a directora do ACES Oeste Norte,  mas que estas “têm-se tornado infrutíferas porque não temos respostas para dar aos utentes”.
Em Alvorninha, de dois médicos para 3900 utentes passaram a ter um médico para 1900 utentes, ainda por cima, apenas dois dias e meio por semana, quando antes o antendimento era diário.
Virgílio Leal considera que esta situação está a “transtornar” as pessoas, sobretudo os idosos, que têm dificuldade de mobilidade. O presidente da Junta é crítico relativamente ao funcionamento das USF, destacando que os utentes que não aderiram a este sistema de saúde não possuem uma alternativa, convertendo-os em “doentes de segunda”.
Os autarcas dizem não ter sido ouvidos aquando da criação das USF, que permitiram aos “médicos abandonar as extensões de saúde onde estavam sem que fossem salvaguardados esses postos”.
“USF RURAL” PODERÁ SER SOLUÇÃO

A solução de futuro poderá passar pela criação de uma USF que englobe os utentes das freguesias de Carvalhal Benfeito, Santa Catarina, Alvorninha e também Salir de Matos.
Também a freguesia do Landal perdeu recentemente uma extensão de saúde, ficando agora apenas uma a funcionar para os mais de 1100 utentes que ali existem. O autarca, António José Almeida, diz que chegaram a ficar sem médico e administrativo durante alguns dias e que face a esta situação promoveram um abaixo-assinado com mais de mil assinaturas, que entregaram no ACES Oeste Norte.
“Temos tentado conseguir ter lá o médico quatro dias por semana, mas o que é certo é que ainda a semana passada esteve lá apenas dois meios dias”, diz o autarca.
António Almeida diz que o responsável pelo posto de farmácia local estava interessado em ali construir uma verdadeira farmácia, mas que já questionou a Junta sobre a continuidade da extensão de saúde, pois caso esta encerre o projecto deixa de ter viabilidade.
“Temos pessoas que vão cerca de dois quilómetros a pé para ir para a extensão de saúde, mas para outro local necessitam de transporte”, concluiu António José Almeida.
Também a freguesia de Salir do Porto se debate com problemas nesta área, mas de falta de transportes públicos que garantam o acesso dos utentes à USF de Tornada.
Na opinião do presidente da Câmara das Caldas, esta situação “não se passa em mais nenhum concelho da região”, denunciando que o concelho já antes tinha sido prejudicado com o fecho dos postos médicos em Salir do Porto, S. Gregório, Carreiros e Landal.
E nas extensões que continuam a funcionar os “médicos não aparecem – adoecem mais que os doentes, é uma coisa inexplicável”, conclui o autarca caldense, que também apresentou o problema à ministra Ana Jorge, na reunião de tiveram em Lisboa e obteve como resposta que “há falta de médicos”.