Concertos com um público de milhares de pessoas ditaram êxito da Feira dos Frutos

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Fruta, artesanato, cerâmica, comes e bebes e mais de 200 expositores. Havia muito para ver na Feira dos Frutos, mas os concertos foram o principal chamariz aos 100 mil visitantes que passaram pelo certame. Tanto que até houve vendedores a afirmarem que as pessoas visitaram a Feira mais pelo cartaz musical do que pelo restante programa. Só no domingo (28 de Agosto) Ana Moura esgotou a bilheteira e, nos três dias anteriores, Pedro Abrunhosa, António Zambujo e Miguel Araújo encheram por completo o recinto do Parque D. Carlos I. Na terça e quarta-feira foi a vez dos artistas caldenses subirem ao palco.

Dez dias de feira, 12 concertos. O espectáculo que atraiu mais pessoas foi precisamente aquele que encerrava o certame, com Ana Moura a subir ao palco e a esgotar a bilheteira. Para marcar lugar nas filas da frente houve mesmo quem chegasse quatro horas antes.
A fadista referiu-se ao público caldense como “uma moldura de gente incrível, que esteve sempre muito atenta ao espectáculo, escutando em silêncio as músicas mais contidas e fazendo a festa nos temas mais alegres”, disse à Gazeta das Caldas.
“Dia de Folga”, “Desfado”, “Tens Os Olhos de Deus” e “Os Búzios” foram os temas mais aplaudidos, num concerto marcado pelo fado risonho de Ana Moura. Antes de interpretar “Fado Dançado”, a artista explicou aos espectadores que no século XIX o fado também se dançava (aos pares) e que as letras abordavam temáticas positivas. Só depois este género musical caiu na saudade e na tristeza.
Entre a multidão que assistia encontravam-se pessoas de várias gerações, um fenómeno que ilustra “como cada vez mais o fado é transversal a todas as idades”, disse Ana Moura, revelando que no final dos concertos tem muitas vezes oportunidade de falar com jovens e crianças. “Muitos deles é que trazem os pais aos espectáculos e não ao contrário. Inclusive recebo convites para visitar escolas e numa delas soube que uma turma disse ao professor que no espectáculo de final de ano queria cantar o ‘Desfado’. Ele ficou espantado”, acrescentou.
O álbum “Desfado” (2012) foi o disco mais vendido em Portugal nos últimos 10 anos e o mais recente trabalho de Ana Moura – “Moura” (2015) – já é dupla platina. “Confesso que numa altura em que se vendem poucos discos, conseguir isto é uma vitória enorme, até porque os meus álbuns têm sido arriscados e saído ‘fora da caixa’ do que normalmente se faz no fado”, comentou a fadista, que mesmo nos seus “dias de folga” não abdica de cantar nem de ouvir música.

“BOA NOITE MARINHA GRANDE”

Pedro Abrunhosa não entrou com o pé direito no seu concerto sábado à noite no Parque, pois cumprimentou várias vezes o público caldense como sendo da Marinha Grande. Só quando um elemento da sua equipa entrou no palco com um papel é que este se apercebeu do erro, corrigindo-o de imediato, mas sem acrescentar um pedido de desculpas sobre o seu deslize. No final do concerto foram vários os comentários nas redes sociais sobre a falha do cantor, mas também foi certo que a maioria das pessoas presentes no concerto “desculpou” Pedro Abrunhosa pela qualidade do espectáculo que este apresentou.
A multidão juntou-se aos músicos e fez-se ouvir nos temas “Não Desistas de Mim”, “Momento”, “Para Os Braços Da Minha Mãe”, “Se Eu Fosse Um Dia O Teu Olhar”, “Socorro” e “Tudo O Que Eu Te Dou”.
O momento mais emocionante da noite foi mesmo quando Pedro Abrunhosa interpretou “Aleluia”, afirmando que esta palavra significa “paz” em todas as religiões. Seguiu-se imediatamente a música “A.M.O.R” e o som baixou de volume: ouviu-se o público a acompanhar o cantor que nesta letra afirma “Porque só há um Deus no nosso céu, chama-se A.M.O.R”.
Já depois de receber os fãs e dar uns quantos autógrafos, Pedro Abrunhosa fez um balanço do espectáculo nas Caldas da Rainha, afirmando que “os concertos são sempre tão bons quanto o público e hoje viu-se uma interação muito grande. Sem dúvida que foi especial e excedemos os nossos próprios limites”. E acrescentou que se criou um “abraço invisível” entre os espectadores: “há muita gente que tem problemas graves e que esta noite foi feliz graças ao poder da música”.
Sobre o relançamento da Feira dos Frutos com um cartaz cem por cento nacional, o cantor realçou que “se a fruta é nacional, os músicos também o devem ser”, revelando que é um defensor dos produtos nacionais e um cliente assumido da pêra rocha.
Noutra comparação entre o sector agrícola e a música, Pedro Abrunhosa disse que “tal como o agricultor mal acaba uma colheita já está a pensar na poda”, também ele assim que lança um disco começa a trabalhar no próximo, adiantando que dentro de alguns meses será lançado um novo álbum da sua autoria.
O último disco de Abrunhosa – “Contramão” (2013) – fala das várias crises que o país e o mundo têm atravessado, mas deixa ao mesmo tempo uma mensagem de resistência e esperança. Aliás, o cantor começou o seu concerto com a frase “a tempestade há-de passar”.

O FADO DAS CALDAS

No dia em que as Caldas festejou 89 anos de elevação a cidade (26 de Agosto), houve dois cantores a subir ao palco da Frutos. A caldense Fernanda Paulo foi a primeira, entoando músicas do álbum que virá apresentar no grande auditório do CCC, a 19 de Novembro.
Em palco, a jovem cantora partilhou o seu gosto pela poesia portuguesa, cantando temas como “A sombra”, um poema da autoria de David Mourão-Ferreira. Como esta foi a primeira vez que cantou na sua cidade, em idade adulta, quis oferecer ao seu público o Fado das Caldas, que interpretou pedindo a ajuda de todos. A resposta foi pronta: uma multidão acompanhava com palmas e entoava algumas estrofes da canção escrita por Arnaldo Forte e celebrizada por Vicente da Câmara.
Na primeira fila a cantora viu logo amigos, família, a professora da escola primária. “Foi óptimo ver aquelas pessoas tão importantes a olharem para mim com aquela emoção”, disse.
Uma semana depois de ter estado em Alcobaça, António Zambujo voltou ao Oeste para um espectáculo que levou milhares de pessoas ao Parque. Êxitos como “A casa fechada”, “Zorro”, “Algo Estranho Acontece”, “Readers Digest” e “Barata Tonta” foram acompanhados pelo público, que foi ao rubro quando o cantor entoou “Flagrante” ou, já no encore, “Lambreta”.
Outro dos grandes êxitos de Zambujo – “O Pica do 7” – foi acompanhado em palco por dois jovens bailarinos clássicos. O cantor soube recentemente que o duo arrecadou para Portugal o terceiro lugar num concurso em Jersey (com esta música) e convidou-os para actuar nas Caldas.
“É tão bonito quando o pessoal canta todo junto. Obrigado, são muito queridos”, remataria o cantor, que actuou pela primeira vez nesta cidade e se mostrou encantado pelo facto do concerto ter por cenário o Parque D. Carlos I. Mais tarde, António Zambujo disse aos jornalistas que o público caldense foi “maravilhoso” e mostrou-se “muito entusiasmado”, rematando que este espectáculo não se fica nada atrás dos dos coliseus.

NEM A CHUVA PAROU MIGUEL ARAÚJO

O tempo não esteve de mão dada com Miguel Araújo na quinta-feira à noite (25 de Agosto), mas a verdade é que nem a chuva miudinha fez os caldenses arrecadarem pé do Parque e o recinto esteve novamente cheio. A perseverança do público mereceu elogios por parte de Miguel Araújo, que apresentou um espectáculo que fez aquecer os espectadores.
“Dona Laura”, “Os Maridos das Outras”, “Fizz Limão” e “Balada Astral” fizeram parte do repertório do cantor nortenho, que também interpretou “Rancho Fundo” e “Pica do 7”. Este último tema foi escrito por Miguel Araújo a pedido de uma jovem fadista – que o vocalista não identificou – mas nunca chegou a ser cantado pela própria. “Foi depois o António Zambujo quem o rebuscou do meu caixote do lixo e quis cantá-lo. Ironia do destino a canção ganhou o globo de ouro para melhor música do ano em 2015”.
Miguel Araújo surpreendeu ainda o público quando chamou por cada uma das freguesias do concelho: as 12, uma por uma. Outra grande surpresa foi o cantor ter chamado ao palco os jovens caldenses Margarida Rodrigues e Henrique Carreira para com ele cantarem “Será Amor”. Em todos os concertos Miguel Araújo chama alguém ao palco (que previamente participa num concurso lançado no seu Facebook) para interpretar este tema que faz parte do filme Canção de Lisboa.
O artista já havia estado o ano passado nas Caldas com os Azeitonas nas comemorações do Dia da Cidade, mas confessou que gostou mais do cenário envolvente do Parque.
Miguel Araújo disse também sque prefere escrever as músicas a cantá-las, mas que não é daqueles autores que escreve num espaço tranquilo e isolado. “Preciso de alguma distracção para me concentrar. Por isso gosto de escrever em andamento, seja a andar, a correr, no carro ou no autocarro. Muitas vezes gravo as frases para o meu telemóvel”, revelou.
Durante a tarde Miguel Araújo fez de mediador numa “batalha de fruta” entre os chefes André Magalhães e Miguel Laffan. O artista contou que gosta de cozinhar, especialmente caril, e fez uma comparação entre a cozinha e a música: tanto numa profissão como noutra encontram-se muitos autodidactas. Aliás, ele próprio não teve nenhuma formação musical académica, estudando e aprendendo sozinho e com a ajuda de outros músicos.

Artistas caldenses também brilharam em palco

Salmoura e Nelson Rodrigues no dia 23, Cave Story e Declínios na noite de 24 de Agosto. Estes foram os caldenses (juntamente com Fernanda Paulo) que subiram ao palco da Feira dos Frutos.
Embora não tenham atraído tantas pessoas como os restantes artistas do cartaz, todos se mostraram muito satisfeitos com as suas actuações e agradeceram o convite, elogiando a Câmara das Caldas pela iniciativa de convidar músicos locais.
Rita Couto, vocalista dos Salmoura, disse que “faz todo o sentido que se articulem bandas locais com um cartaz de peso, neste tipo de evento, pois são demonstrativas da qualidade artística que existe, são um reflexo da própria vida cultural da cidade”. Já Nelson Rodrigues (que também é guitarrista dos Declínios) pronunciou-se afirmando que “temos muitos músicos nas Caldas, muita criatividade e bandas a surgir, algumas já com bastante sucesso fora das fronteiras da cidade e, por isso, é bom que haja reconhecimento desse trabalho”.
No caso dos Declínios e Cave Story, ambas as bandas revelaram que actuam poucas vezes nas Caldas, pelo que é muito motivador tocar na cidade e rever caras amigas.
Da salga em português dos Salmoura, aos blues, folk e rock clássico de Nelson Rodrigues, ao pós-punk e rock alternativo dos Cave Story e ao rock mais agressivo dos Declínios, os caldenses com o nome no cartaz da Frutos mostraram que as Caldas é um poço de diversidade musical. Alguns mais recentes, outros mais antigos (os Declínios já somam 24 anos de estrada), uns com mais visibilidade e andamento que outros (os Cave Story preparam-se para lançar um álbum e têm estado em festivais por todo o país), a verdade é que todos foram bem recebidos pelo público.