Gaeiras, uma terra que nasceu em torno de águas e casas senhoriais

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As ruínas de Eburobitrium, descobertas em 1994, fazem crer que durante a ocupação Romana aquele território já desempenhava um importante papel local

A Freguesia das Gaeiras tem uma área de 10,2 quilómetros quadrados e uma população de 2331 habitantes (Censos 2011), o que faz desta a mais povoada do concelho de Óbidos, e também a que mais tem aumentado em população nos anos recentes.
Não existe informação histórica precisa sobre a fundação das Gaeiras, nem sobre o nome, que pode derivar da abundância de gaios (a ave), das “caeiras”, ou caiadeiras, que moravam no topo de uma colina e cujo trabalho a Rainha D. Leonor terá admirado. Ambas as hipóteses estão, de resto, marcadas no brasão da freguesia.
A descoberta, em 1994, da cidade romana de Eburobittrium, junto à Quinta das Janelas, indica, porém, que este território já desempenhava um papel importante na região por essa altura.
O primeiro registo histórico ligado às Gaeiras surge já no início do século XVII, por ocasião da refundação, em 1602, do Convento de São Miguel, originalmente erigido em 1569 pelo Cardeal D. Henrique em Trás do Outeiro. D. Dinis de Lencastre e sua mulher D. Isabel Henriques, adquiriram o terreno à Quinta de Vale de Flores, hoje a Quinta das Janelas, para que a construção se pudesse iniciar. A obra só foi concluída em pleno século XVIII, depois do Rei D. João V ter oferecido 800 mil réis para que se acabasse a obra da igreja.
As duas referências históricas apontam o relevo que terá representado para a ocupação do território a fonte de águas termais que brota nessa mesma quinta, onde consta que ficava a Rainha D. Leonor quando se deslocava às Caldas da Rainha.
Além da Quinta das Janelas, hoje propriedade da Associação Nacional de Farmácias, outra quinta se apresenta com relevo histórico para a localidade, a Casa das Gaeiras.
No início do século XVIII, o inglês Henry Thompson instalou, na Quinta de Nossa Senhora da Ajuda, uma fábrica de curtumes, aproveitando as boas condições naturais da região, dadas pela abundância de cursos de água e de carvalhos. Ainda nesse século, Beneficiado António da Silva e Faria regressou à quinta após servir D. João V e ali fundou uma Casa-Pia, onde acolhia e dava instrução a crianças desfavorecidas. Mais tarde a instituição serviu de hospital nas Guerras Peninsulares. Em 1780, António Pinheiro, médico de D. João V e administrador do Hospital Termal, adquiriu o espaço e tornou-o na Quinta das Gaeiras, ampliando o negócio dos curtumes.

A mais jovem freguesia do concelho de Óbidos é também a que mais tem crescido em população residente

A Quinta passou em sucessão até Frederico Pinto Bastos – a quem se atribui a introdução das regras do futebol em Portugal -, que casou com uma bisneta de António Pinheiro.
Frederico tornou-se um estudioso das Guerras Peninsulares e constituiu um museu particular visitável, cujo espólio pertence atualmente à Câmara de Óbidos.
Na Casa das Gaeiras desenvolveu-se a vitivinicultura, atualmente a cargo do Grupo Parras, que produz os vinhos com aquela marca.
Foi já em 1985, a 4 de outubro, que Gaeiras se tornou freguesia, a mais jovem do concelho de Óbidos, e no dealbar do século XXI, a 19 de abril de 2001, a localidade foi elevada a vila.


A Fonte dos Corações

Segredos escondidos

A vila das Gaeiras tem no seu diverso fontanário uma das riquezas do seu património e história. Sendo a água um bem precioso e um recurso indispensável às populações, foi à volta destas fontes de água potável que se foi aglomerando casario e construindo algumas das zonas habitacionais com mais tradição na vila, como são exemplo as fontes do Gato, de São Marcos, ou de Santo António.
Uma das mais antigas será a Fonte dos Corações, que também dá o nome a uma das urbanizações que compõem a vila das Gaeiras. Pensa-se que a sua origem possa remontar ao tempo dos Frades Franciscanos Arrábidos do Convento de S. Miguel. Fica localizada no percurso do chamado Carreiro dos Frades, que ligava o convento das Gaeiras até ao Mosteiro de Alcobaça. A mina de água destinava-se a abastecer de água os religiosos nas suas caminhadas.
Apesar de se ter construído ali uma zona habitacional, a fonte em si permanece um local onde a natureza domina. É um local recatado, ideal para um bom passeio em família para desfrutar do que a natureza oferece.

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