Jacques Delors (1925-2023)

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Jacques Delors teve um papel importante na adesão de Portugal à então CEE (Parlamento Europeu)

Foi um dos principais obreiros da Europa que temos hoje, como espaço político, económico, cultural e social

Deixou-nos na passada semana Jacques Delors, com 98 anos de idade, um cidadão francês e europeu, que foi um dos principais obreiros da Europa que nós temos hoje, como espaço político, económico, cultural e social, que nos enobrece e que muitos invejam no mundo, apesar de todas as contradições existentes. Mesmo aqueles que maldiziam e que saíram deste espaço, no caso os ingleses, pois os escoceses, galeses e irlandeses do norte, não o queriam, já hoje parece estarem arrependidos pelos consequências que tiveram.
Apesar de todas as incertezas e contrariedades, verificamos a justeza das posições e a visão clara que Delors teve e que deu um significado ao projeto inicial da CEE.
Mas poucos conhecem que Jacques Delors, com origens humildes e que teve uma carreira sustentada e persistente na vida social e política francesa, ajudou a conhecer melhor o Portugal do início dos anos 70. Ainda com o governo marcelista, Delors, que era na altura conselheiro do primeiro ministro francês Chalban-Delmas, foi convidado, através do Instituto dos Altos Estudos de Defesa Nacional, para colaborar num estudo prospetivo sobre as questões de futuro para Portugal, incluindo a questão da guerra colonial e em que ele falou sobre “Prospetiva e Estratégia de Desenvolvimento”. Pouco se sabe do que disse e dos resultados que serviram para o país de então.
Esta reunião decorreu quase de forma secreta, tendo na altura apenas sido conhecida publicamente a intervenção oficiosa do então secretário de Estado do Tesouro João Costa André, que foi publicada na revista daquela instituição militar. Mesmo as intervenções de alguns portugueses que tiveram papeis importantes depois do 25 de Abril, como João Salgueiro, Fraústo da Silva e o Brigadeiro Silva Banazol, não tiveram nenhum eco no país.
Delors teve um papel importante na adesão de Portugal (e Espanha) à então CEE, em 1986, aquando era Presidente da Comissão Europeia, bem como foi sempre um dos políticos europeus que teve maior consideração e carinho pelo nosso país e pelos países menos capacitados para enfrentar a concorrência dos mais desenvolvidos. A ele se deve muito do papel que veio a assumir um dos programas de maior êxito para a verdadeira “integração europeia” que foi o Erasmus, como o Leonardo da Vinci e outros.
Não sendo uma personalidade portuguesa, mas reconhecemos que foi um verdadeiro CIDADÃO EUROPEU, que soube dar consistência e futuro ao projeto europeu que abraçámos há quase quatro décadas e que nos tem moldado, mesmo com todas as dificuldades, neste período. ■