João Antunes, o engenheiro civil que foi diretor do Turismo de Macau

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João Antunes continua a visitar as Caldas, onde mantém casa e para onde conta regressar dentro de quatro anos

O trabalho desenvolvido no GAT das Caldas da Rainha levou ao convite para ir para Macau. Como diretor do Turismo esteve à frente de grandes eventos, como Grande Prémio e a cerimónia de transferência de poder para a China

João Manuel Costa Antunes foi diretor do Turismo de Macau durante 24 anos, entre 1988 e 2012 e, no cargo, dirigiu alguns dos maiores eventos do território, inclusivamente a cerimónia de transição de poder para a China. Mas o que tem de mais especial esta história é que esta carreira surgiu de forma inesperada, sobretudo porque a sua formação e atividade até então foi como… engenheiro civil.
Natural de Lisboa, João Antunes formou-se no Instituto Superior Técnico e cedo começou a trabalhar na sua área em algumas das maiores empresas do país.
A revolução de 25 de Abril de 1974 aconteceu cinco dias após se ter formado, mas a experiência que já tinha abriu-lhe algumas portas. Em 1975, o Ministério da Administração Interna criou os gabinetes de apoio técnico (GAT). Na altura, João Antunes tinha casa em São Martinho do Porto e foi convidado para ser o primeiro diretor do GAT das Caldas a Rainha, cargo que desempenhou de 1975 a 1983.
“Foi uma experiência pessoal e profissional extremamente interessante”, afirma. No GAT, desenvolveu projetos com os concelhos das Caldas da Rainha, Alcobaça, Nazaré, Óbidos, Bombarral e Peniche, numa altura em que o país estava ainda muito atrasado ao nível das infraestruturas.

O antigo diretor do Turismo na entrega de prémios do Festival de Fogo de Artifício

“Contratámos engenheiros de várias especialidades, de estruturas, urbanismo, hidráulicos, e trabalhávamos em regime de coordenação com as câmaras no desenvolvimento de infraestruturas, de acordo com o que era solicitado pelos municípios”, recorda.
Num Portugal subdesenvolvido, o gabinete projetou infraestruturas básicas, como arruamentos, fornecimento de água, esgotos. “Participámos na eletrificação de povoações, o que era algo que sensibilizava muito, porque era algo que causava um grande impacto na população”, recorda João Antunes.
Entre as obras realizadas na altura nas Caldas da Rainha, João Antunes destaca o Pavilhão da Mata, “que ainda agora pude rever e que se encontra muito bem estimado”, e também o próprio edifício do GAT, o último em que participou enquanto diretor daquela entidade.
O trabalho ali desenvolvido trouxe um convite inesperado, o primeiro. “Fui convidado para ir para Macau, até hoje não sei por indicação de quem”, diz.
Em Macau, começou por ser assessor do secretário adjunto do Governo para as obras públicas, cargo que desempenhou durante um ano e que levou ao convite para ser vice-presidente do Leal Senado – equivalente às câmaras municipais – com o pelouro das áreas técnicas. “Foi mais uma experiência apaixonante, vinha de trabalhar em Portugal com autarquias e sentia que era onde poderia render mais”, conta. Ali ficou por dois anos, entre 1984 e 1986.
“Passámos de 10 funcionários para 1500, quando cheguei o Leal Senado tinha dois engenheiros técnicos”, recorda.
Uma mudança de Governo em Portugal ditou mudanças no Leal Senado, e trouxe uma nova experiência para João Antunes, agora no Serviço da Marinha. Até que, em 1988, o mais inusitado dos convites surgiu, para integrar o Turismo de Macau, como subdiretor. “Comecei por recusar, mas depois explicaram-me que queriam que ajudasse a desenvolver o edifício do World Trade Centre de Macau, o que já era a minha área e aceitei”, conta.
No entanto, o novo diretor do Turismo ficou pouco tempo. “Não se adaptou e saiu. Eu era subdiretor, passei a diretor interino. Não percebia nada de turismo, mas tive que me aguentar”, afirma. Mas o trabalho correu tão bem que passou a titular e ficou para uma carreira de 24 anos no cargo de diretor.

João Antunes na apresentação do serviço de audio guia em Macau, em 2012

“Como não tinha experiência, baseei-me muito no apoio da indústria hoteleira e das viagens, aproveitando o circuito de Macau e Hong Kong. Tentámos perceber o que fazia falta em Macau, para além do jogo, que era a principal atração”, realça.
O foco foi começar a desenvolver grandes eventos que atraíssem outro público. Eventos com o Festival Internacional de Fogo de Artifício, “que tinha uma leitura fácil, porque não exige conhecimento de língua, e assumimos alguns projetos como o Festival Internacional de Música, o Grande Prémio de Macau, a Miss Macau, ou as corridas de barcos Dragão. Havia sempre eventos ao longo do ano e deu resultado, preenchendo períodos em que a ocupação hoteleira era mais baixa”, sustenta.
O plano teve resultados muito positivos. “Quando deixei o cargo, em 2012, tínhamos passado de 4 milhões de visitantes para 35 milhões por ano. E os visitantes da China passaram de 250 mil para 25 milhões”, aponta, acrescentando que o número aumentou de forma exponencial graças “à colaboração do Governo chinês”.
Um dos projetos que mais se orgulha de ter desenvolvido foi a cerimónia de transmissão da administração de Macau de Portugal para a China, em 1998, à qual assistiram ao vivo cerca de 2500 altas figuras de Estado.
Mesmo depois da passagem do território para administração chinesa, João Antunes continuou diretor do Turismo por mais 13 anos e foi o último nascido em Portugal a ocupar cargos públicos em Macau.
Vários dos eventos saíram da esfera do Turismo, mas o Grande Prémio de Macau continuou a estar sob a direção de João Antunes – até 2015 –, que se orgulha de ter visto correr campeões do mundo de Fórmula 1 como Ayrton Senna, Michael Schumacher, Nico Rosberg, ou Lewis Hamilton. Pelas suas mãos passaram, ainda, processos como a elevação do Centro Histórico de Macau a Património Mundial.
Aos 73 anos, João Antunes está já reformado, mas continua ativo na consultoria de projetos em Macau, de onde só pensa regressar dentro de quatro anos, para as Caldas da Rainha, onde mantém casa.
“Tenho acompanhado a cidade pela Gazeta e continuo a vir cá pontualmente. É uma cidade que tem atividade cultural, associativa e económica fora do normal para Portugal, e sinto que oferece qualidade de vida”, acredita, embora aponte a necessidade de “reforçar os transportes ferroviários”. ■