Joaquim Batista e Maria da Conceição conheceram-se no posto da polícia

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Joaquim Batista e Maria da Conceição na Festa do Emigrante em Agosto passado na Expoeste. O casal reparte a sua vida entre Portugal e França.

Isto de emigrar nem sempre corre bem à primeira. Que o diga Joaquim Sousa Batista que fugiu de um bacalhoeiro na Terra Nova para ficar no Canadá, mas foi apanhado e recambiado para Portugal. Estava escrito que a sua vida iria ser em França onde, num belo dia, estava numa gendarmerie para tratar de papelada e se ofereceu como tradutor para ajudar uma jovem da A-da-Gorda que tinha chegado a Paris havia pouco tempo.

Joaquim Sousa Batista nasceu em 1942 em Salir de Matos e fez a escolaridade obrigatória – a 4ª classe – na escola primária local, de onde saiu para ajudar os pais na agricultura. Nos anos 50, o interior do concelho das Caldas era de grande pobreza, mas a família de Joaquim não era das piores – o pai até tinha conseguido comprar um tractor e o jovem andava com ele nos trabalhos do campo.
Mas aos 20 anos Joaquim Batista decide ir para a pesca do bacalhau. O objectivo era “safar-se à tropa” porque a guerra colonial tinha começado no ano anterior. Segundo as leis daquela altura, quem andasse embarcado sete anos, ficava sem a obrigação de cumprir o serviço militar.
Joaquim achou que sete anos a andar aos tombos nos mares gelados do Atlântico Norte era muito tempo, e um ano e meio depois aproveitou para se escapar quando o bacalhoeiro Estêvão Gomes, no qual estava engajado, atracou em São João da Terra Nova, no Canadá.
Foi detido quando tentava apanhar um avião para Montreal e devolvido ao navio. A partir daí foi considerado desertor: ao bacalhoeiro e ao serviço militar português.
Quando regressou a Portugal, mal atracou em Vila Nova de Gaia, a polícia foi buscá-lo. “Fui directamente para a prisão e puseram-me a descascar batatas. Estive lá dois dias, fui interrogado e mandaram-me para o barco”, contou à Gazeta das Caldas.
A última viagem no Estêvão Gomes seria do Porto para Lisboa, onde foi novamente preso à chegada e levado a tribunal. Apanhou 30 dias de pena suspensa e foi recambiado para a tropa. Assentou praça em Leiria, fez a especialidade de cabo em Tomar e foi novamente posto dentro de um navio, desta vez o paquete Santa Maria, que o levaria para a Guiné.
Por esta altura estamos em 1964 e a guerra naquela então “província ultramarina” (na expressão do regime) tinha alastrado. Mas Joaquim Batista nunca andou aos tiros. “Um homem alguma vez há-de calhar ter sorte. Era cabo quarteleiro, responsável pela arrecadação das armas e nunca andei no mato em operações”.
No mês de férias a que teve direito não aproveitou para vir à Metrópole (Portugal). Tinha tirado a carta de condução de pesados e ficou a conduzir um camião por conta da Câmara Municipal de Bissau.
A tropa não correu mal. Até comprou uma Kodak (máquina fotográfica) e fazia fotografias aos camaradas militares e aos indígenas, que vendia para arredondar o que recebia do pré.
Finda a tropa voltou para o mar, mas desta vez para mais perto da costa, nos arrastões. Fartou-se e veio para as Caldas. Foi motorista na firma Crespos, transportando madeira de eucalipto em camiões, andou depois a fazer transportes de cerveja da Vialonga (Vila Franca de Xira) para as Caldas, mas aos 28 anos quis ir mais longe e resolveu dar o salto para França.
“Ir a salto” significava ir clandestino para o estrangeiro, uma vez que o regime de Salazar não autorizava a emigração nem dava passaporte a todos os cidadãos. Joaquim Sousa fez o mesmo que muitos portugueses fizeram naquele tempo para “saltar” a fronteira – pagou a um passador. Este meteu-o, com um grupo de homens, num táxi que o levou das Caldas até aos arredores de Vilar Formoso. Atravessaram a fronteira a pé, pelas azinhagas de granito e fugindo ao controlo da Guarda Fiscal e da Guardia Civil até que apanharam um comboio já do lado de Espanha e viajaram até França. Não teve problemas na fronteira de Hendaya e no dia seguinte estava em Paris onde foi acolhido em casa de uns amigos do Imaginário.
Em 1970 Joaquim começa a trabalhar numa firma de montagem de escolas pré-fabricados, depois passa para uma fábrica de componentes para automóveis e mais tarde para uma empresa de obras públicas em Villeneuve-le-Roi, perto de Orly. Trabalha durante 44 anos neste sector e reforma-se aos 65 em 2007.

A HISTÓRIA DE MARIA

Mas recuemos ao início dos anos 70, pouco tempo depois de Joaquim ter chegado a França. Estava um dia no posto da polícia a tratar de uns papéis quando um “gendarme” pergunta se alguém pode ajudar a traduzir a conversa com uma jovem portuguesa que queria legalizar-se. Maria da Conceição vinha da A-da-Gorda (Óbidos) e era um ano mais nova que Joaquim. Este já dominava o francês e ofereceu-se para ajudar.
Foi assim que conheceu a sua futura mulher. Joaquim tinha tido um primeiro casamento em 1964 que não correra bem e estava divorciado. Maria da Conceição… enfim, a história de Maria era mais complicada.
Nascera em 1943 e crescera junto aos rebanhos de cabras que o pai pastoreava. Fez a 3ª classe na escola da A-da-Gorda e ajudava em casa a fazer queijinhos que vendia no mercado do Bombarral e de porta em porta em Óbidos, num tempo em que a vila ainda tinha residentes. Engravidou e casou nova, mas as coisas não correram bem. Naquele tempo não se usava a expressão “violência doméstica” nem existiam gabinetes de apoio à vítima. Pelo contrário dizia-se “entre homem e mulher não metas a colher”.
Mas Maria teve um pai compreensivo que não a abandonou e lhe pagou ele próprio um bilhete de comboio para Paris. Em 1970 Maria da Conceição Azevedo Vieira Batista chega à gare de Austerlitz e fica deslumbrada com a grande cidade. Tem uns primos que a esperam na estação e no dia seguinte já estava a trabalhar. Numa fábrica de roupa a cozer bainhas de calças. Depois passa para uma fábrica de móveis e a seguir entra nas limpezas. Todos estes métiers tinham uma coisa em comum – eram sem papéis e Maria desesperava para deixar de trabalhar ao negro e legalizar a sua situação.
Foi numa destas demandas que conhece Joaquim, o rapaz de Salir de Matos que se oferecera para a ajudar na conversa com a polícia e nos trâmites burocráticos da legalização. Apaixonam-se, mas só em 1974, depois do 25 de Abril, ambos conseguem divorciar-se em Portugal e legalizar a sua relação em Paris.
Com 28 anos, a jovem da A-da-Gorda trabalha 14 horas por dia. Como muitas outras portuguesas entra às cinco da manhã em edifícios de escritórios para fazer limpezas e depois cumpre ainda um turno de oito horas nas limpezas de um hotel. Até que um dia a sorte muda para melhor – subitamente Maria é convidada para trabalhar na cantina do famoso jornal Le Monde. Durante dez anos tem emprego fixo e assegurado a servir o almoço aos jornalistas, gráficos, redactores, estafetas, que por ali pululavam. “Era tudo gente muito simpática”, conta.
Em 1985 o casal, já entrados nos 40 anos, resolve regressar a Portugal e instala-se nas Caldas. Abrem um mini-mercado, pomposamente baptizado de A Parisiense, “mas a minha mulher chorava todos os dias com saudades da França e acabamos por voltar para Paris”, conta Joaquim Batista.
Maria, que tinha pedido uma licença sem vencimento, regressa ao Le Monde. Até que o jornal muda de instalações e a portuguesa prefere receber uma indemnização – que serviria para ajudar a comprar o apartamento do casal – em vez de acompanhar a mudança.

SAUDADES DE CÁ E DE LÁ

Ambos reformados, o casal tem um apartamento em Charenton-le-Pont (Paris) e outro nas Caldas da Rainha. Tal como muitos portugueses emigrados, vive três meses lá, três meses cá. Maria tem uma filha e uma neta a que Joaquim também chama suas e o apelo da família em França é muito grande. Agora o casal viaja frequentemente de avião nas suas idas e vindas, mas recordam os tempos em que o transporte aéreo era um luxo e o habitual eram as longas viagens de comboios entre Paris e Santa Apolónia. Durante anos, também viajaram de autocarro e, claro, também de automóvel, aquelas viagens que atravessavam França e Espanha, a cassette com a Linda de Suza a cantar La Valise en Carton no carro, as saudades da terra, o coração apertado e a pressa de chegar.
Nos terrenos que foram do sogro, na A-da-Gorda, Joaquim entretém-se a enxertar árvores, semear batatas, tratar das hortas. E quando está em Portugal já sente uma pontinha de saudade da França. E quanto está em França já sente uma pontinha de saudade de Portugal.
Sobre as polémicas em torno dos refugiados e dos pedidos de asilo que tanto dividem agora os europeus, Joaquim também reconhece a dificuldade em acomodar tantos estrangeiros e arranjar-lhes emprego. “Mas quando me lembro que em França me acolheram tão bem, penso que todos têm direito à vida, eles vêm lá do Mediterrâneo, em barco, sofrem tanto… Temos de ser humanos…”