Joaquim Ribeiro e o sonho de ir para a América

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Depois das duas aventuras americanas e de andar embarcado, Joaquim Ribeiro assentou no Chão da Parada

Do Chão da Parada fui para Lisboa onde viajei clandestino num vapor para a América. Trabalhei seis meses, fui preso e recambiado para Portugal. Mas quis voltar e acabei a navegar em petroleiros pelos mares do mundo inteiro. Só que cismei que a América é que era bom e ainda lá voltei para trabalhar três anos e organizar a vida aos meus filhos. Mas hoje, aos 92 anos, acho que não há melhor terra para viver do que Portugal.

Nasci em 1927 no Chão da Parada. Chamo-me Joaquim Maria Ribeiro e tenho 92 anos. Passo as manhãs e tardes no Centro de Dia do Chão da Parada, onde sou muito bem tratado. À noite durmo na casa de um dos meus três filhos porque eles não me deixam viver sozinho. As pernas já precisam da ajuda de umas muletas, mas no resto sinto-me com energia. E a minha cabeça, felizmente, está boa. Lembro-me de tudo.
Quando era pequenito fui para a escola, mas nem fiz a 1ª classe porque os meus pais precisavam de mim para guardar os bezerros aí nas fazendas e nos matos. Só aprendi o abecedário. Mas consegui aprender a ler e a escrever porque havia uns rapazes que tinham o exame da 4ª classe e eu dava-lhes 5 escudos por mês para me ensinarem.
Por volta dos meus 12 ou 13 anos deixei de guardar os bezerros e o meu pai arranjou-me uma junta de bois para andar aí a fazer fretes. Não havia camionetas e eu carregava pedras das pedreiras para as obras, levava tijolos para as Caldas, ia levar madeira e resina à estação de caminhos-de-ferro do Bouro para carregar nos comboios. E como naquele tempo também não havia tractores, era com juntas de bois que se fazia a lavoura – andei por aí a lavrar e a transportar tinas de uvas nas vindimas. Fui abegão por conta do meu pai e ainda me lembro do Carocha e do Galante, os dois bois, fortes e rijos, que me acompanharam até eu fazer 17 anos.
Nessa altura eu já tinha namorada, a Margarida, que viria a ser a mulher da minha vida e de quem ainda hoje tenho tantas saudades. Queria casar, mas precisava de uma casinha, assim pequenina, quatro paredes, duas janelas, uma porta e um telhado. Andei a carregar pedra e ainda fiz os alicerces, mas precisava de madeira e pedi ao meu pai se me dava um pinheiro para fazer as ripas e os barrotes do telhado. Ele respondeu-me que não. Recusou-se a ajudar-me. Já foi há muitos anos. Ele que descanse em paz. Mas na altura zanguei-me, fui ter com a Margarida e decidimos casar. Só que eu tinha 17 anos e ela 15. No Registo Civil queriam uma autorização dos pais e por isso amigámo-nos e fomos viver para a casa da minha sogra, que era viúva.
Para ganhar a vida agarrei na enxada e fui trabalhar à jorna para a quinta do senhor Fróis, ali entre Alfeizerão e Vale de Maceira. Ganhava 18 escudos (0,09 euros) por dia. Mesmo em 1945 era muito pouco dinheiro. Não dava para viver.

A PRIMEIRA AVENTURA NA AMÉRICA

Joaquim Ribeiro e Margarida Ribeiro nos anos 70 no Chão da Parada
Numa das visitas a casa quando estava embarcado
O tripulante Joaquim. A bordo, o português fez várias tarefas, incluindo a de cozinheiro

Foi então que um rapaz ali de Salir do Porto me arranjou maneira de ir para a América. Foi por volta de 1948. Apanhei aqui no Bouro o comboio para Lisboa, onde me meteram clandestinamente num navio. O barco levava cortiça no porão e fizeram de maneira a que ficasse um buraco onde viajámos cinco rapazes. Foi ali que passei 18 dias até chegar à América. Havia um marinheiro e um cozinheiro que nos levavam água e comida de vez em quando, quando o tempo o permitia porque era preciso atravessar o convés e descer ao porão. E para fazer as necessidades havia um balde de lata. Nalgumas noites, quando tudo estava calmo, vinham ter connosco e levavam-nos ao convés para apanharmos um bocado de ar fresco.
Desembarcamos em Filadélfia e fui para Nova Iorque onde arranjei trabalho a carregar cimento em Long Island para a empresa de um português – a Moraes Construction, Co.. A América naquele tempo ainda não tinha muitas máquinas e éramos filas de homens com carros de mão a transportar cimento para as obras dos arranha-céus.
O melhor daquilo é que eu ganhava 2,50 dólares à hora, que dava para aí 25 escudos (0,12 euros). Numa hora! Em Portugal eu ganhava 18 escudos por um dia de trabalho. Era um sonho.
Por isso, eu nem queria acreditar quando um dia veio a polícia para me prender porque eu estava ilegal. Havia outros sem documentos, mas foi a mim que levaram porque havia um rapaz do Norte, um português, que me denunciou. Ainda hoje estou para saber porquê. Eu que até pensava que éramos amigos.
Eu não queria sair dali. Ainda ofereci 500 dólares ao polícia para me deixar ficar, mas ele não aceitou. Era tudo o que tinha, mas já tinha mandado 50 contos (250 euros) para a minha mulher em Portugal. Em seis meses eu tinha trabalhado e poupado muito.
Fui preso em Ellis Island, a ilha onde está a estátua da liberdade. Só me trataram bem. Roupa lavada, comida boa, tudo limpinho, nunca ninguém me castigou. Estive lá dois meses e depois embarcaram-me num cargueiro, o Cabo Verde, para Lisboa. Mais 18 dias de mar até chegar a Lisboa, mas desta vez comia à mesa e dormia num beliche. Trataram-me bem. Não sei quem é que pagou a viagem. Eu é que não fui.
Quando cheguei a Lisboa a polícia foi buscar-me a bordo. Eu tinha sido chamado para a tropa um ano antes, mas como não me apresentei, fui considerado refractário. Meteram-me no Aljube. Depois mandaram-me para o Limoeiro. Quinze dias depois fui a tribunal responder e mandaram-me embora. Meti-me num comboio no Rossio e vim até ao Bouro. A minha primeira aventura da América terminou ali.
Fui então para a tropa, mas consegui pagar para sair mais cedo e só lá fiquei quatro meses, aqui no RI5 das Caldas da Rainha. Depois fui trabalhar para o senhor Ventura, um patrão da Serra do Bouro que me pagava 20 escudos por dia. Entretanto eu estava com 19 anos e em idade de casar sem ter de pedir autorização a ninguém. Eu e a Margarida demos o nó na igreja da Tornada. O padre cobrou-me 360 escudos pelo casamento. Ainda lhe disse se me fazia à borla porque eu era pobre, mas ele não foi na conversa.
Passaram-se 14 anos. Eu era novo e cheio de força e trabalhava à jorna. Mas também tínhamos fazendas e algum gado. Nasceram os meus três filhos: a Margarida em 1949, o José Alberto em 1952 e o Américo em 1955.

MARINHEIRO DOS SETE MARES

Mas eu andava sempre a cismar com a América. Por isso, em 1962, tirei o passaporte em Leiria e fui de comboio até à Holanda para ver se conseguia ir para a América. Aos 35 anos um homem ainda se sente novo para tentar a sorte outra vez no outro lado do Atlântico.
Em Roterdão juntei-me com um grupo de portugueses e vivíamos numa casa de bordo (pensão). Andávamos todos à procura de uma companhia para embarcar. Um dia vi um escritório com a bandeira da América e fui lá. Eu falava um bocadinho de inglês e isso fez a diferença.

  • O que é que queres?
  • Quero trabalho.
  • A fazer o quê?
  • Qualquer coisa
  • Vais para o Golfo Pérsico buscar petróleo. Trabalhas um ano e depois pagamos-te a viagem a casa.
    E foi assim que entrei na National Bulk Carriers Inc. Andei embarcado 12 meses, vim de férias a Portugal e voltei para a Holanda para embarcar. Nalgumas viagens o navio foi à América. Só que então eu já não queria lá ficar. Podia ter saído em Filadélfia ou Nova Iorque, mas não quis. Gostava daquela vida e ganhava bem. Andámos por França, Inglaterra, Itália, Noruega, América, Canadá. Fui à Rússia e ao Japão. Atravessei o canal do Panamá… Aquilo era tão lindo… o Suez, o mar Vermelho. Eu gostava de ver e ainda ganhava dinheiro.
    Quando eu vinha de férias ao Chão da Parada a minha Margarida tinha tudo em ordem, os filhos criados, e eu partia sempre descansado. A minha filha mais nova queria seguir os estudos, mas eu não deixei porque queria que ela fizesse companhia à mãe. E os meu rapazes, que eu até gostava que eles fossem estudar, não queriam.
    Andei embarcado entre 1962 e 1967 e depois regressei. Comecei a pensar no futuro dos meus filhos. Havia a guerra em Angola e eu pensei ‘eles ainda vão lá parar…’. E pensei outra vez na América! Custou-me 60 notas de conto cada um, mas mandei-os para a América. Foram para Nova Iorque.

A SEGUNDA VEZ NA AMÉRICA

O casal em 2003 em S. Martinho do Porto. Margarida faleceu em 2013.

assado uns tempos recebo uma carta do meu mais novo a dizer que não estava a gostar, que queria voltar para Portugal. Ele, coitado, só tinha 16 anos. Eu então mandei dizer-lhe ‘ó filho aguenta aí que eu vou aí ter’.
Mas a embaixada americana não me deu o visto. Só se eu tivesse lá alguém que me chamasse. Tinha os meus filhos, claro. Mas estavam ilegais. Então fui de avião para o Canadá onde tinha um casal amigo em Montreal. Ali não precisava de visto, mas estava mesmo ao lado da América e atravessei a fronteira a salto. Eu tinha combinado tudo com um rapaz português que era taxista e me levou até à beira de um rio. Eu molhei os pés e passei para o outro lado. E ele, como estava legal, foi com o carro pela ponte, atravessou a fronteira e depois apanhou-me na outra margem. Eram para aí umas 2h00 da manhã. Na manhã seguinte eu estava com os meus rapazes em Nova Iorque!
Um deles trabalhava numa fábrica no Bronx e o outro era guarda nocturno no North Hills Country Club e eu arranjei emprego num restaurante a ganhar 300 dólares por semana. Três anos depois, quando de lá saí, já ganhava 500 dólares por semana.
Estivemos sempre ilegais, eu e os meus filhos. Éramos os três fugidos. Eu só lhes dizia para terem cuidado e não se deixarem apanhar. “Arranjem dinheiro para comprar uma casinha em Portugal que não há país como o nosso!”.
Ao fim de três anos, em 1975, vi que eles estavam encaminhados e abalei para Portugal para vir ter com a minha rica mulher. Eu tinha 48 anos e não voltei a emigrar.
Vivíamos bem. Eu amanhava e tínhamos vinho, batatas, milho e criávamos vacas leiteiras. E eu sempre tive jeito para o negócio e comprava e vendia burros e porcos. Uma vez comprei uma burra no Valado dos Frades por 300 escudos (1,50 euros) e vendi-a por 1500 escudos (7,40 euros) na feira das Caldas. E na Serra do Bouro comprei uma burra que estava prenhe por 3 contos (15 euros) e depois vendi a cria por cinco contos (25 euros) e a mãe por sete (35 euros).
Hoje não tenho reforma porque quando eu andava embarcado nunca descontei. Queria ficar com o dinheiro todo. Agora estou no Centro de Dia da Associação Social e Cultural Paradense. É tudo muito limpo e tratam-me muito bem. E à noite um dos meus filhos vai buscar-me. Tenho ainda oito netos e nove bisnetos.

Tenho uma cabeça cheia de memórias

E tenho uma cabeça cheia de memórias e de histórias. Tenho saudades da vindima e do lagar. E de quando era novo. Quando andei embarcado vi muito mundo. Mas também apanhei alguns sustos. Uma vez, tínhamos zarpado do Canadá, apanhámos um temporal tão grande que as ondas varreram as baleeiras todas. A máquina parou e quando isso acontece o navio parece uma casca de noz à deriva, para cima e para baixo, com as ondas por todo o lado. Éramos 17 tripulantes e estávamos todos malucos. Até o capitão. Pensei que nunca mais ia ver a minha mulher e os meus filhos. Então, como ninguém fazia nada, eu ajoelhei-me e rezei à Nossa Senhora de Fátima – as vagas acalmaram, o tempo melhorou, arranjámos o navio e não tivemos mais problemas.
E pronto. Afinal só vivi seis meses na América na primeira vez e três anos na segunda. E sempre ilegal. Mas andei embarcado numa companhia americana. Aquilo é um grande país, mas eu sempre disse aos meus filhos: ´não façam conta com a América. Façam conta é com as dólares, que as dólares é que são muito boas!”.