José Caetano: das Boisias até aos Estados Unidos da América

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Gazeta das Caldas - Emigrantes
José Caetano possui uma loja nas Caldas onde vende vinho e peças de cerâmica

José Caetano tem 75 anos e é das Boisias (Alvorninha). Foi embarcado, tendo tido a oportunidade de conhecer mundo através do mar. Sempre gostou de cozinhar e isso marcou-lhe o destino profissional quando em 1978 rumou para os Estados Unidos. Teve vários restaurantes, alguns deles famosos. Foi correspondente do jornal Luso-Americano, tendo entrevistado vários políticos que visitavam as comunidades lusas. Entre outras aventuras, esteve no olho do furacão Andrews e fez reportagem em directo para uma rádio caldense e para a RTP. Hoje vive nas Caldas, mas diz que a qualquer momento pode regressar aos Estados Unidos.

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Durante algum tempo, o caldense foi inspector de Segurança no Trabalho numa firma norte-americana04

Nasceu há 75 anos nas Boisias, em Alvorinha. José Caetano é o mais velho de quatro irmãos. “Nasci a 100 metros desse moinho”, contou José Caetano, explicando que aquele equipamento, construído em madeira, é único na Península Ibérica e que ainda hoje o considera como parte de si. Vá para onde for, e a vida levou José Caetano por todo o mundo, “parece que ouço as suas velas, mesmo quando estou a dormir”.
O seu pai era serrador de serra braçal nos tempos em que a madeira se cortava à mão enquanto a mãe dava uma ajuda nos trabalhos do campo. José Caetano fez os seus estudos na escola primária da Moita de Alvorninha onde completou a 4ª classe. “Não havia tempo para mais. Era preciso começar a trabalhar para ajudar os pais”, disse. Quando tinha 16 anos, o pai comprou uma propriedade e mudou-se para Tornada.
José Caetano também trabalhou como carpinteiro na empresa caldense Hortas e, só mais tarde, com 18 anos, ingressou na escola da marinha mercante em Caxias. Nos navios era empregado de mesa e ainda ajudava na cozinha, numa época em que os navios seguiam para África, carregados com tropas portuguesas. Em 1964, com 20 anos, foi trabalhar para a Soponata (Sociedade Portuguesa de Navios Tanque), tendo feito parte da tripulação de vários navios que transportavam matérias-primas para diversos países. O seu cargo era o de despenseiro, ou seja, era o responsável pelo stock de tudo o que seria usado durante a viagem desde os mantimentos, vinhos, roupas, até às louças. Esteve na Soponata até 1973, altura em que desembarcou e voltou para a sua terra natal. Nas Caldas, tomou de trespasse o café Marisol, que fica em frente à Rodoviária.
Quando deixou os navios, José Caetano já era casado. O enlace foi celebrado em 1968. A sua mulher, Maria Pereira Serafim é caldense, natural dos Mosteiros (Vidais) e acabaria por lhe dar três filhos.
Os negócios nas Caldas na área da restauração e dos bares não correram como era esperado e, por isso, José Caetano toma a decisão de partir para os EUA em 1978. Dois anos depois, mais precisamente a 16 de Agosto de 1980, juntaram-se-lhe a mulher e os três filhos.
Quando chegou à América, José Caetano foi morar para Riverside, uma pequena cidade próxima de New Jersey, juntando-se ao seu irmão Joaquim. Foi este, aliás, quem lhe mandou a carta de chamada. “Para me poder chamar, o meu irmão teve que se naturalizar como americano”, disse José Caetano.
“Quando se decide emigrar vamos sempre com aquela ideia de procurar uma melhor solução para a família”, disse.
José Caetano tinha três filhos pequenos. A filha mais velha tinha 12 anos, a do meio 11 e o filho, apenas quatro. Para alimentar a família “tive que me agarrar à construção”, disse, recordando que tinha experiência na área quando trabalhou nos Hortas, antes de ter sido embarcado. Em Riverside José Caetano trabalhou na carpintaria do seu irmão.
“Nos EUA não há horário fixo, isto é, trabalhavam-se oito, 10 até 12 horas o que for preciso fazia-se…”, contou o caldense. Num desses sábados, quando José Caetano e o irmão vinham para casa, passaram pela mercearia para ir buscar os jornais desportivos, e deu de caras com um anúncio que pedia locutores de rádio. Pouco tempo depois José Caetano fazia testes de voz e acabava selecionado para trabalhar para uma rádio em Filadélfia que pertencia a dois portugueses.
O caldense passou a ser locutor do programa Ecos de Portugal. “Depois fiquei eu com o programa com outro locutor e as pessoas gostavam de ouvir a música portuguesa e também notícias”, disse. E transmitia notícias que chegavam de Lisboa onde José Caetano tinha um correspondente, ao qual tinham que pagar. “O governo português nunca nos deu um cêntimo para manter a comunidade emigrante informada”, queixou-se.
José Caetano entrevistou várias personalidades, entre elas o então Presidente da República, Ramalho Eanes, em 1981. Também conversou três vezes com Cavaco Silva quando este foi primeiro-ministro. E perdeu a conta aos ministros e secretários de Estado com quem falou para a rádio. Noutra altura veio de propósito a Portugal para entrevistar a secretária de Estado da Emigração, Maria Manuela Aguiar.
José Caetano fazia reportagens com portugueses que se destacavam neste destino de emigração, como aconteceu com António Marques, um dos mais importantes empresários portugueses na área da construção. Era dono do Lisbon Contracters que tinha obras por várias zonas do território norte-americano. Também fez vários trabalhos com Joaquim Casimiro, da Serra do Bouro, emigrante que teve um papel de relevo na Associação Regional Caldense nos EUA. Quando vinha a Portugal também fazia reportagens para os EUA com aconteceu com a inauguração do Centro Social da Fonte Santa. A reportagem que José Caetano fez na Serra do Bouro foi publicada no jornal Luso-Americano.

A AVENTURA DA RESTAURAÇÃO

Mantendo sempre a ligação à rádio, José Caetano abraça, em 1981, outro projecto profissional. Depois de ter trabalhado na construção civil decidiu voltar a dedicar-se a outra área que bem dominava: a restauração. Vive em Filadélfia e “depois de ter ganho traquejo sobre como viver nos EUA, tomei de trespasse o café snack-bar Abril em Portugal”, disse o caldense que, após algum tempo “a trabalhar no duro”, logo arranjou uma clientela “fantástica”. Mesmo não tendo licença para vender álcool, José Caetano, por baixo da mesa, e a acompanhar os petiscos portugueses, lá vendia um jarrinho de vinho (da cor do barro para não se ver a cor da bebida alcoólica), cerveja e ainda bagaço usado para dar um cheirinho ao café, para rematar a refeição.
O Abril em Portugal ficava a norte da Rua 5 e na mesma artéria tinha aberto o restaurante A Cubata, cujos proprietários eram de Angola. “Só que eu não caí bem a uns quantos portugueses e a inveja fez com que eu fosse preso por não ter licença de venda de bebidas alcoólicas”, disse José Caetano. Corria o ano de 1982 e José Caetano foi preso. Só que alguns meses antes, o caldense tinha feito uma refeição especial com amigos, incluindo alguns polícias. Um deles foi buscá-lo à cadeia, poucas horas depois da detenção, pelo que José Caetano acabou por só ficar detido umas horas. Mas foram as suficientes para ter razões de queixa: “fui tratado como um assassino de primeira e até me tiraram fotografias de frente e de lado e as impressões digitais aos pés e às mãos”. Mas graças à ajuda do seu amigo polícia, “não fiquei com o registo criminal sujo”.
José Caetano soube mais tarde que quem fez queixa dele foi alguém ligado ao restaurante concorrente, A Cubata.
Mas a vingança serve-se fria e passado pouco tempo, o caldense acabou por adquirir o restaurante de comida angolana, tendo mudado o seu conceito para comida tradicional portuguesa. Alterou não só a ementa como também o próprio nome. O restaurante passou a chamar-se Berlenga Island Restaurant.
Depois de alguns anos naquele espaço, um dia entrou-lhe pela porta uma equipa de um programa de televisão da CBS que se dedicava a fazer crítica gastronómica. A equipa deslocava-se então aos restaurantes norte-americanos para dar a conhecer o que serviam. José Caetano ainda hoje se lembra que lhes serviu uma carne de porco à alentejana e umas amêijoas à Bulhão Pato, pratos acompanhados por vinho verde Alvarinho que deliciou os profissionais da CBS. Por causa disso conta que a refeição tipicamente portuguesa lhe valeu um contrato de publicidade gratuito que durou um ano. “E as pessoas reconheciam-me na rua!”, contou o caldense, que passou a dedicar-se profissionalmente à cozinha, sem contudo deixar de colaborar com a rádio.

Do fast food para Old Lisbon

José Caetano abriu outros restaurantes como o Portugal America na China Town de Filadélfia, este último dedicado ao fast food. O caldense vendia todo o tipo de sandwichs frias. Dispunha de sopa e cheesecakes. Por causa da zona que escolheu para abrir, teve alguns problemas. “Quase todas as semanas partiam-nos os vidros das montras”, disse o emigrante, que também teve alguns problemas com um sócio que ditaram a sua saída. Resolveu voltar a Riverside, a cidade onde tinha começado a trabalhar quando chegou aos EUA. Viviam-se os últimos anos da década de 80 e José Caetano abre naquela cidade o Pavillion Restaurant, também dedicado à comida portuguesa.
Em 1990 nova reviravolta e o emigrante decide mudar-se para a Florida e deixa de ter negócios em nome próprio. Passa então a trabalhar como chefe de cozinha no Old Lisbon, um restaurante que pertencia a outros sócios (um lisboeta, um madeirense e um angolano) e ficava em West Palm Beach. E rapidamente, graças aos pratos de cozinha tradicional portuguesa, o espaço alcança o êxito. José Caetano trabalhava à vista, com a cozinha aberta, usando produtos regionais, “sempre frescos e de qualidade”, lembrou. Nunca cedeu nesta área e acabava sempre por ser reconhecido. Recebeu até um casal de críticos que após terem provado vários pratos, ainda quis comer uma Massada de Marisco que o chefe caldense tinha confeccionado para os funcionários. O casal adorou o prato e na semana seguinte saíram duas páginas sobre o Old Lisbon no New Miami Herald, o principal jornal do Sul da Florida. No texto surgiram rasgados elogios ao restaurante e, sobretudo, à saborosa comida portuguesa.
O crítico gastronómico chegou inclusivamente a comentar com José Caetano que este estava de parabéns pois ao longo da sua carreira nunca tinha dado cinco estrelas a ninguém. “E então aí caiu-me lá o Carmo e a Trindade!”, disse o chefe, que passou a não ter mãos a medir, de manhã à noite. “Era uma loucura de trabalho!”, disse José Caetano explicando que não era raro encontrar filas de gente, aguardando vez para comer no Old Lisbon.

Mil e uma maneiras de confeccionar

“Fui chefe número um a trabalhar com a cozinha tradicional portuguesa nos EUA”, disse o caldense, que guarda mil histórias interessantes de clientes e de reacções à comida lusa. Tinha, por exemplo, um casal que ia jantar todas as quartas-feiras e pediam por norma Bacalhau com Todos. Ao fim de algum tempo, o chefe caldense resolveu dirigir-se à mesa dos norte-americanos para lhes explicar que há mil e uma maneiras de comer bacalhau desde a salada daquele peixe cru até aos pratos de forno. Acederam então à sugestão do chefe de provar outras formas de comer bacalhau, tendo começado logo a pedir um prato diferenciado naquele serão. Entre os favoritos do casal apreciador, estava a Bacalhau Espiritual.
O restaurante Old Lisbon tinha uma clientela muito variada, desde o pessoal dos navios que atracavam em Miami até muitos cubanos, hispanos e americanos que passaram a ser grandes apreciadores dos pratos da comida portuguesa. Frequentavam o restaurante equipas da televisão Univision, um canal que transmite em espanhol para todos os EUA.
Entre os vários clientes cubanos, contava-se um actor – que fez parte do elenco do filme Padrinho 2 – e que vinha todas as quartas feiras ao Old Lisbon por causa das sardinhas assadas com pimentos e batatas cozidas.
“Recebíamos muito bom peixe das águas do Chile”, disse José Caetano que tinha entre os apreciadores de peixe e marisco o então presidente do Terra Bank. Um dia, este cliente perguntou-lhe se lhe cozinhava mexilhões vindos do Chile, que fossem frescos. “Aqui não vendo nada que não seja fresco”, esclareceu o chefe que ainda o questionou se os queria confeccionados à portuguesa ou à espanhola. Respondeu-lhe que os fizesse primeiro à portuguesa e, a seguir, pediu-lhe outra dose, confeccionada à moda do país vizinho. E o chefe assim fez e era com boa disposição e produtos de qualidade que conquistava clientes que se tornavam fieis àquele restaurante.

Em directo para a RCC e RTP

Em Agosto de 1992 está José Caetano a trabalhar no Old Lisbon quando se ouviu a notícia que se aproximava o ciclone tropical Andrews. A população, assustada, começou por se abastecer comprando mantimentos a mais para os dias em não fosse possível sair de casa.
O caldense vivia então com a mulher e o filho mais novo num prédio de Miami, cuja maioria da população resolve sair da cidade, entupindo e congestionando todos os acessos.
“Eu estava sempre de ouvidos nas notícias e estas não eram animadoras. O ciclone era de categoria cinco e os ventos eram na ordem dos 200 Km/hora”, contou o emigrante, recordando aqueles dias em que as ruas de Miami ficaram totalmente cheias de carros, sem semáforos a funcionar num caos causado pelo receio colectivo da intempérie. “O vento era de tal ordem que vincava as portas de ferro”, recordou José Caetano, que acompanhado pelo filho, com então 17 anos, se lembra que cá fora os pingos da chuva eram de tal maneira fortes que até magoavam os transeuntes. A viver esta intempérie, de ventos ciclónicos, o caldense lembrou-se de ligar para a Rádio Clube das Caldas, tendo feito directos do que se estava a viver em Miami para a sua terra natal. E quando a RTP soube que a rádio caldense tinha um correspondente em directo a viver as consequências do Andrews, rapidamente entrou em contacto com o caldense e foi assim que do olho do furacão José Caetano deu a conhecer em primeira mão como se enfrentou um dos ciclones tropicais mais devastadores que passaram pelos EUA. O ciclone iniciou a 16 de Agosto e só se dissipou a 28 do mesmo mês. Ao todo, morreram 65 pessoas.
Após vários anos ligados à restauração, José Caetano resolveu mais uma vez mudar o rumo profissional. Em 2009 tornou-se inspector de Segurança no Trabalho da empresa norte-americana Elite Contractors, ligada ao sector da construção.

Em férias na sua terra natal

“Eu não regressei a Portugal, eu estou de férias”, disse José Caetano que é cidadão português e também americano. Conta que chegou a 12 de Agosto de 2015 e ainda tem o bilhete de regresso à América em aberto na TAP.
Nas Caldas manteve-se ligado a projectos de rádio e na sua loja – situada no centro comercial das Cinco Bicas – onde actualmente vende peças de cerâmica e vinho, teve um posto da Rádio Litoral Oeste que ali funcionou de segunda à sexta-feira.
Depois a rádio foi vendida em 2017 e agora dedica-se à cerâmica de autor e vende obras de Jorge Lindinho, Carlos Oliveira e do atelier Linhas da Terra. Comercializa também algumas obras tradicionais como peças de verguinha das Caldas. O bichinho da rádio mantém-se dado que José Caetano mantém o programa À Conversa, às quintas-feiras na Rádio Mais Oeste.
Actualmente vive nas Caldas com a sua mulher enquanto que os três filhos, quatro netos e dois bisnetos vivem do outro lado do Atlântico. Além da loja e da rádio, José Caetano diz que o que agora mais lhe importa é “viver bons momentos”. O emigrante caldense ainda mantém a sua casa em terras norte-americanas.