Manuel Lisboa esteve 38 anos na Bélgica e aterrou nas Caldas da Rainha

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Manuel Lisboa é do concelho de Pombal, mas depois de 38 anos na Bélgica escolheu a Foz do Arelho para viver e as Caldas para montar negócio

Nascido numa pequena aldeia do concelho de Pombal, aos 16 anos Manuel Lisboa foi ter com os irmãos à Bélgica para fugir à dureza da vida no campo e também à tropa, corria o ano de 1969. Começou a descascar batatas numa roulote em feiras, mas ao fim de três anos já tinha a sua própria barraquinha. O “Manel das Fritas” chegou a possuir três quiosques de batatas fritas e três restaurantes em Bruxelas. Veio para as Caldas da Rainha há 12 anos e o espírito aventureiro que mantém aos 66 anos fê-lo manter-se no ramo da restauração até hoje, com o Restaurante Lisboa XL nas Caldas, e o Manjar de Óbidos na Usseira.

Manuel Lisboa nasceu em 1953. Filho de comerciantes, cresceu atrás do balcão da taberna e mercearia dos pais, e a ajudar a família com o trabalho no campo.
Jovem aventureiro, de sangue na guelra, queria mais para a sua vida. Com dois irmãos na Bélgica, o sonho desde os 12 anos era seguir-lhes os passos. “Era o trabalho no campo, não havia água canalizada nem electricidade, pelo que queria ir à procura de uma vida melhor”, recorda.
Aos 16 anos, à vontade de ver novos mundos, juntou-se a de não ir à guerra. O regime salazarista aprovou uma lei que previa o adiamento do serviço militar a jovens que, comprovadamente, tivessem emigrado antes dos 16 anos. Era, então, preciso sair do país antes de completar os 17 anos, e foi o que fez, ainda em 1969.
Com os sapatos de um dos irmãos calçados – que de apertados lhe deixaram os pés em sangue ainda em Espanha – seguiu viagem para Bruxelas. Consigo levava também o passaporte do irmão. Só que o documento só serviria para passar as fronteiras de França e da Bélgica. Sair de Portugal com um passaporte que não era seu era demasiado arriscado, por isso foi a salto que passou a fronteira. Foi até Monfortinho, onde se encontrou com um passador que o levou de carro até ao destino.
Depois de passar a primeira fronteira o passador perdeu-se e quis voltar, mas Manuel Lisboa não o permitiu. “Disse-lhe: para trás nunca mais, sempre para a frente, e lá encontrámos o caminho”, recorda.
Em Bruxelas tinha os dois irmãos à espera. Com eles começou a trabalhar para pessoas que tinham roulottes de venda de batatas fritas em feiras. Está mesmo a ver-se qual foi o seu primeiro trabalho: descascar batatas.
“Se pensam que era fácil, enganam-se. Fazia-se tudo na rua. A batata é quase só água e, no Inverno, era como descascar cubos de gelo”, conta.
Os patrões providenciavam uma casa em Bruxelas, onde Manuel e os irmãos viviam entre feiras, mas grande parte do tempo andavam de malas às costas numa roulotte. Mesmo assim, Manuel Lisboa não se queixa desse tempo. Afinal tinha trabalho, cama, comida e roupa lavada, embora as refeições fossem muitas vezes, demasiadas vezes, “bife com batatas fritas”, exclama.
Lembra-se que o primeiro ordenado foi de 500 francos belgas por semana, o que dava cerca de 250 escudos (1,25 euros). Ficava com o que necessitava para as suas despesas, o resto mandava para os pais em Portugal, tal como era comum entre todos os emigrantes.

O SENHOR ARIS

Manuel Lisboa esteve nas feiras durante três anos. O seu espírito aventureiro não tinha regredido, pelo contrário. Dois anos após ter chegado à Bélgica cresceu-lhe a vontade de ter o seu próprio negócio e disso falou várias vezes com os irmãos. “Eles respondiam que eu era doido!”, recorda.
Mas o futuro empresário até já tinha definido o seu alvo. Numa das feiras anuais que faziam em Bruxelas, ficavam perto de uma barraquinha fixa de batatas fritas, do senhor Aris. “Um dia vai ser minha”, afirmou. Era um quiosque pequeno, mas tinha a vantagem de não ter que andar o ano inteiro a percorrer a Bélgica de um lado para o outro.
Começou a frequentar a barraquinha todos os dias quando estava em Bruxelas, ou nas folgas quando estava fora nas feiras. Um dia o senhor Aris disse-lhe que, se ele conhecesse alguém interessado, podia vender a barraquinha. “Eu disse que conhecia e que na próxima semana voltava com essa pessoa”, conta. E assim fez. Chegou junto do senhor Aris sozinho. Ele perguntou quem era, então, a tal pessoa. “Sou eu”, respondeu. No entanto, não tinha dinheiro para a comprar, uma vez que enviava o dinheiro para os pais, mas queria alugá-la. O senhor Aris acedeu, mas não sem antes fazer um teste à perícia do jovem Manuel Lisboa: saberia ele fazer um bom pacote de batatas fritas?
A verdade é que o jovem português tinha grande prática de fazer os pequenos cartuxos em cone de papel pardo, adquirida na mercearia, e até conhecia um truque para os fazer parecer mais cheios, amolgando-os com o dedo junto à base. “Fiz o pacote de batatas fritas muito melhor do que os dele. Ele achou-me engraçado, negociámos e ele alugou-me a barraca”, refere Manuel Lisboa.
Aos 19 anos o jovem saído de uma pequena aldeia de Pombal já tinha concretizado dois grandes sonhos: sair do país e ter o próprio negócio, ainda por cima a 2000 quilómetros da sua terra natal.
Mesmo assim, não foi tão fácil como parecia. É que a lei belga não permitia que menores de 21 anos tivessem o próprio negócio, a não ser que os pais os declarassem emancipados, o que se revelou um complicado processo burocrático.

A CADEIA LISBOA

Estávamos em 1972 e Manuel Lisboa trabalhava por sua conta na praça Gare du Midi (uma praça na zona sul de Bruxelas dividida ao meio pela linha dos caminhos de ferro), com aquela que era uma das quatro barraquinhas de batatas fritas que ali existiam. “Mas as minhas eram as melhores!”, garante.
Era uma zona pobre de Bruxelas, onde havia uma forte comunidade portuguesa. Mas foi ali que construiu a sua vida.
“Eram horas a esquecer dentro daquela barraca”, conta. Só saía para ir à casa de banho de um café ali ao lado.
Na barraquinha já não vendia só batatas. Nos países do norte da Europa há uma forte tradição de vender fritos na rua. Às batatas juntou as carnes preparadas (hamburgueres, salsichas e outros), que todos os dias ia buscar a um matadouro. Ia de eléctrico porque não tinha carro. “Um dia fui buscar umas bolinhas de carne, trazia um saco cheio, que se rebentou. Eram bolinhas a correr pelo eléctrico fora. Apanhei aquilo tudo, cheio de vergonha, a dizer que agora tinha que pôr aquilo tudo no lixo. Mas depois lavei tudo. Era muito prejuízo e o óleo a 180 graus matava o micróbio!”, conta.
Manuel Lisboa ficou com aquela barraquinha durante 25 anos, mas entretanto expandiu o negócio. Tinha conhecido uma jovem transmontana, de nome Mia, com quem casou em 1980. A barraquinha já não era suficiente e por isso começou a pensar abrir uma casa de fritos. Concretizou-a em 1984 e chamou-lhe Friterie Aris, em homenagem ao seu mentor. “Era como se fosse um McDonalds, que não havia nessa altura, com as batatas fritas, os hamburgueres, mas também as bifanas, porque tinha muita clientela portuguesa”, refere Manuel Lisboa.
Um ano depois abriu o seu primeiro espaço Lisboa, sempre na Gare du Midi. Era um restaurante que tinha também um bar e um salão de festas, que muitas vezes recebeu convívios da comunidade portuguesa. No restaurante a ementa não eram os fritos, mas sim a gastronomia portuguesa. “A nossa cozinha é muito bem aceite em qualquer país do mundo, desde que seja bem feita”, argumenta. Além disso, naquela zona há uma grande comunidade portuguesa, o que providenciava clientes, mas também produtos e mão-de-obra.
Estes foram os três principais negócios de Manuel Lisboa em Bruxelas, mas não os únicos. Chegou a ter três barracas de batatas fritas e outros tantos restaurantes, alguns deles que comprou para vender com mais-valias. O seu percurso na Bélgica até lhe valeu uma alcunha. “Se perguntar lá por Manuel Lisboa ninguém sabe quem é, mas se perguntar por Manel das Fritas aí já me conhecem”.
Actualmente, tanto a Friterie Aris como o espaço Lisboa, foram transformados em hotéis.

BENFICA DE BRUXELAS

Na Bélgica, Manuel Lisboa não se limitou a trabalhar. Já bem estabelecido no país, foi também um homem do associativismo. Jogou futebol e fez parte de várias associações. Em 1984 um grupo de portugueses radicados em Bruxelas decidiu que era altura de ali fundar uma Casa do Benfica, à qual Manuel Lisboa presidiu durante 15 anos.
“Dava muito tempo àquilo. Era ver os jogos, os almoços de convívio que organizávamos e que reuniam muita gente”, recorda. Além do dia-a-dia da colectividade, havia os desportos federados, como o futebol, o atletismo e o futebol de salão para cuidar.
E depois organizavam-se excursões para ver os jogos de futebol das equipas portuguesas nas competições europeias, na Bélgica e nos países próximos. “Não era só os jogos do Benfica, íamos ver os jogos de que equipa fosse, com o mesmo entusiasmo, o que é algo diferente de quando estamos em Portugal”, afirma.
Mas é dos jogos do Benfica na Bélgica que guarda as melhores recordações. Dois deles foram com o Anderlecht, o primeiro em 1988 no caminho para a final da Taça dos Campeões Europeus que os encarnados perderam com o PSV nos penáltis, e a segunda em 1994, na fase de grupos da Liga dos Campeões. O outro foi com o Liegeois, também em 1988, mas para a antiga Taça UEFA.
Mas é do primeiro confronto que guarda as melhores histórias. Para o jogo da primeira mão, no Estádio da Luz, Manuel Lisboa foi a uma agência para alugar um avião, algo que deixou os funcionários da agência desconfiados. “Perguntaram-me se eu sabia que só podia vender bilhetes aos sócios da colectividade e que tinha que pagar com 30 dias de antecedência, eu disse que sim e eles, meio a olhar de lado, lá me atenderam”, conta. O negócio até acabou por se concretizar com apoio de uma agência de viagens de um amigo de Manuel Lisboa e lá foi um avião cheio de adeptos até Lisboa.
O resultado foi favorável (2-0) e criou entusiasmo para a segunda mão em Bruxelas. A procura era enorme, mas o clube belga destinou um número reduzido de bilhetes para o Benfica que tinham que ser adquiridos em Lisboa. Mas na Bélgica também havia um Lisboa que tratou do assunto. “Recebíamos pedidos de bilhetes da Alemanha, da França, da Suíça, foram 15 dias em que não fiz mais nada”, recorda. Se os portugueses não podiam comprar bilhetes ao Anderlecht, foi preciso arranjar uma artimanha. “Arranjei belgas para comprar os bilhetes e conseguimos pôr mais benfiquistas do que belgas no estádio – foi uma coisa estrondosa!”, exclama.
As visitas do Benfica incluíam uma recepção à comitiva do clube na véspera dos jogos. “Era uma semana em que tínhamos que meter férias pois organizávamos uma festa de arromba”.
Havia ainda uma festa na qual estavam sempre velhas glórias do Benfica. Eusébio foi lá recebido por três vezes. “Na primeira ninguém acreditava que era ele”, exclama. E numa das ocasiões, juntou mesmo Eusébio e Amália Rodrigues, aquelas que eram as grandes referências do país no estrangeiro.

O REGRESSO PARA TRABALHAR

Depois de mais de 10 anos na barraquinha, a Friterie Aris foi o seu primeiro restaurante. Ao lado de Manuel Lisboa está a esposa, Mia.

Do casamento de Manuel e Mia Lisboa nasceram dois filhos, Luís e Ana. Foi por influência destes que a família Lisboa regressou a Portugal, quando os filhos terminaram a sua formação académica. “Todo o emigrante português, ou pelo menos a maioria, pretende voltar a Portugal. No meu caso a decisão tornou-se mais fácil porque os meus filhos também quiseram voltar”, conta Manuel Lisboa. O destino escolhido foi as Caldas da Rainha.
“Quando casámos, como bons emigrantes, a primeira coisa que fizemos foi pensar comprar uma casinha em Portugal”, recorda. Ele pombalense, ela transmontana, compraram casa… na Foz do Arelho. Fizeram-no em 1985, aconselhados por um amigo caldense. Desde então, todos os anos as férias de Verão eram ali passadas. Por isso, na hora de regressar, essa foi a escolha, até porque o objectivo era gozar a reforma.
Reforma? Não. O espírito aventureiro de Manuel Lisboa continuava a fervilhar e surgiu a oportunidade de criar um negócio. Nessa altura o Caldas Internacional Hotel pertencia a um empresário de Pombal, que Manuel Lisboa conhecia também da Bélgica, e este propôs-lhe a gestão do Salão Milénio. “Gostei muito do espaço”, lembra Manuel Lisboa. Das vindas de férias à região, frequentava o Aviário, que entretanto tinha fechado “mas não por falta de clientes”, observa. E criou um espaço idêntico. Inicialmente abria ao domingo, só com grupos e excursões.
O casal tinha vindo em 2007, os filhos quiseram regressar de seguida. Essa decisão não deixou Manuel Lisboa muito satisfeito porque sabia das dificuldades do mercado de trabalho em Portugal.
A solução foi desenvolver o negócio do Salão Milénio, que começou a abrir todos os dias com serviço de buffet. “Era preciso fazer uma coisa diferente, porque restaurantes já havia muitos, e tinha que trabalhar para ter muita clientela”, conta. O objectivo foi, então, aproveitar os fluxos turísticos da região. “O que fazemos é ir à procura dessas pessoas, o sucesso não acontece por acaso”, acrescenta.
Do Salão Milénio a família passou para o Restaurante Lisboa, na Zona Industrial, e mais recentemente para o Restaurante Lisboa XL. Trabalhar em família nem sempre é fácil, mas o empresário realça que o clã Lisboa se tornou muito coeso. “Os meus filhos aprenderam muito bem e agora são praticamente eles que gerem o negócio”. A família detém ainda o Manjar de Óbidos, na Usseira.
Depois de ter estado quase 40 anos emigrado, hoje Manuel Lisboa vê-se no papel inverso e tem, nos seus estabelecimentos, vários imigrantes como colaboradores. “Quando somos emigrantes vamos para outro país e não temos nada, vamos para trabalhar. Para ter sucesso é preciso ter alguém que nos dê a mão. Eu tive o senhor Aris, a quem vou ser grato o resto da minha vida, mas agora estou eu nesse papel e tenho feito a minha parte – já ajudei bastantes pessoas”, afirma.