Nas Caldas há uma família que tem catorze soldados da paz

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Ernesto Soares foi o primeiro bombeiro da família e serve neste quartel há praticamente 43 anos | Isaque Vicente

Entrou para a fanfarra com dez anos e acabou por ser uma influência para familiares se juntarem aos soldados da paz. A família conta já com um total de catorze elementos de três diferentes gerações

Decorria o ano de 1970 quando Ernesto Soares se juntou à fanfarra dos Bombeiros das Caldas. Tinha apenas 10 anos. Seis anos volvidos, este caldense tornava-se no primeiro soldado da paz da família.
“Sempre quis ser bombeiro”, conta o caldense, reconhecendo ter aquele objetivo “desde pequeno”. Curioso é que, se não foi influenciado por nenhum familiar, ele próprio acabaria por se tornar uma influência para que os irmãos, o cunhado, os sobrinhos, o filho, a nora e os netos se juntassem aos bombeiros caldenses.
No total os bombeiros das Caldas já receberam 14 elementos desta família, provenientes de três diferentes gerações.
Os mais novos, os netos Rodrigo e Ricardo, têm 16 e 13 anos, respetivamente, e fazem parte da fanfarra. Tocam… clarim. Claro! O mesmo instrumento que o avô e o pai tocaram (sendo que o pai, Ruben, tocou vários outros instrumentos).
Quando entrou para a fanfarra, a primeira cerimónia de Ernesto Soares foi a homenagem à Rainha no Dia da Cidade daquele ano. “Sentia o orgulho de vestir pela primeira vez a farda e era uma novidade, mas havia o receio de me enganar”, sendo que, nesse particular, o facto de na fanfarra tocarem muitos músicos dá uma “certa segurança”.
O juramento de bandeira foi em 1977, no dia 18 de dezembro. Passaram praticamente 43 anos, fazendo dele um dos mais antigos soldados da paz ao serviço nas Caldas. “Tenho tantos anos de bombeiro como a maioria dos colegas de serviço tem de idade”, graceja. Entre estas datas houve momentos altos e outros menos bons, mas existiu sempre “uma grande camaradagem”.

Ernesto Soares foi, nos anos 70 do século passado, o primeiro bombeiro da família. Depois dele vieram os dois irmãos, um cunhado, seis sobrinhos, um filho, uma nora e dois netos

Um dos grandes momentos foi a inauguração do atual quartel, “um dia de alegria, muito marcante”. Do anterior quartel guarda ainda várias lembranças. “Tirando o telefone fixo e a televisão de caixote na sala de estar não havia mais nada, então jogávamos às cartas, era diferente”, evoca. Consequências dos tempos, manteve-se a “harmonia e a camaradagem”.
Ernesto Soares não esquece os chefes e comandantes que conheceu nestas décadas, assim como “colegas que já não se encontram entre nós” e de quem sente “muita saudade”.
Em 2002, foi promovido a chefe e em 2014 recebeu o crachá de ouro da Liga dos Bombeiros Portugueses, “a mais alta condecoração que um bombeiro voluntário pode receber! Não pode ter tido nunca um castigo relevante”, explica.
Sobre servir os bombeiros em família diz que “foi muito bom. Nós demo-nos sempre muito bem e fomos sempre muito unidos”, sublinha.
Entre os elementos da família no quartel está Ricardo, filho de José Soares, irmão do chefe Ernesto. “É um orgulho!”, exclama o tio. A irmã de Ricardo Soares também faz parte dos bombeiros, assim como o filho do outro irmão (Pedro), que se chama Tiago e os filhos de Isabel, irmã de Ernesto, que se chamam Nuno, Marta e Carla Albano e que seguiram as pisadas do pai, Vítor Albano.
Este facto de ser bombeiro, mas também ter vários familiares como soldados da paz, dá-lhe uma visão diferente desta vida, porque tanto é ele quem sai para o socorro, como é ele quem fica à espera do regresso. “O ficar é sempre mais difícil”, admite, reconhecendo que esta vida “é uma grande prisão para os familiares”.
Acredita que “o voluntariado tem tendência a acabar, até porque hoje em dia é praticamente impossível ter bombeiros voluntários que trabalhem e que possam tirar horas do trabalho”. Nesse sentido, compara a situação atual com o antigamente: “a Secla e as Faianças Subtil chegaram a ter oito e nove bombeiros que vinham todos ao mesmo tempo se fosse necessário, mas para os patrões era como se estivessem a trabalhar, vinham sem limites de tempo, hoje isso é impensável”.