“Cannes é uma cidade turística onde o festival do cinema é a grande atracção”

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Clara Fernandes

Gaeiras (Óbidos)
35 anos
Cannes, França
Caixa na empresa Mango
Percurso escolar: Escola C+S Josefa de Óbidos e Escola Secundária Raul Proença

O que mais aprecia no país onde vive?
O que mais aprecio aqui são as ajudas a nível de saúde, onde os custos são zero ou quase zero. A Segurança Social paga 60% de todas as despesas e o seguro de saúde, que eu tenho no trabalho, paga o resto, sejam consultas, hospitalizações ou medicamentos com receita médica. Isto inclui qualquer tipo de medicina certificada. Também a nível escolar os custos são pequenos, pois os livros escolares são gratuitos e no fim de Agosto recebemos uma ajuda que ronda os 300 euros por criança, sendo esta última compatível com o IRS (se o nosso IRS ultrapassar o escalão deixamos de receber esta ajuda).
O clima aqui é maravilhoso e temos sol quase todo o ano. Faz frio no Inverno, mas chove muito pouco e não neva porque estamos à beira mar.
E o que menos aprecia?
O que menos aprecio aqui são os preços elevados de rendas de casa, que aqui rondam os 1000 euros por um apartamento com dois ou três quartos. Neste momento estou numa vivenda onde pago 1300 euros/mês, acumulado com as despesas normais de uma casa de família de quatro pessoas dá um grande orçamento por mês.

De que é que tem mais saudades em Portugal?
De Portugal sinto muita falta da família e amigos com quem cresci e a quem sou muito ligada. Sinto falta das festas de rua, do ambiente nas Gaeiras onde todos se conhecem e todos são unidos. As nossas praias em Portugal são lindíssimas, mas aqui as praias também o são, com a vantagem de que faz calor de Maio a Outubro e a água é muito mais quentinha. Só falta mesmo a bolinha Berlim porque praia sem bolinha Berlim não sabe ao mesmo!
Temos aqui várias lojas de artigos portugueses, por isso em casa cozinha-se à portuguesa, mas com limitações. O peixe, por exemplo, aqui é caro e não é tão saboroso. E quando se vem de uma zona onde se tem peixe fresco quase todos os dias, torna-se difícil porque acabamos por comer muito mais carne.

A sua vida vai continuar por aí ou espera regressar?
Penso continuar por aqui porque me têm sido oferecidas oportunidades de evolução pela empresa onde trabalho, e também porque tenho duas filhas de 15 e 9 anos que, acredito, terão muito melhores saídas profissionais se os seus estudos forem feitos aqui.
“A comunidade muçulmana é boa gente com quem tenho o prazer de trabalhar no dia a dia”
O meu dia começa cedo. Saímos de casa às 7h40 da manhã, levo as filhas à escola e depois sigo para o trabalho, às vezes de carro, outras de autocarro, dependendo dos meus horários nesse dia. Um bilhete de autocarro aqui custa 1,50 euros, independentemente do trajecto e por isso muitas vezes compensa ir de autocarro.
A minha área de estudo em Portugal foram as línguas. Falo correctamente português, inglês e francês e dou uns toques noutras tantas (alemão, espanhol e italiano). Isto adicionado ao facto de que sempre trabalhei no comércio. Aliás muitos dos leitores irão reconhecer-me da loja de cortinados M. Henriques, situada em Caldas da Rainha, na praça 5 de Outubro, onde trabalhei 13 anos.
Essa experiência no comércio permitiu-me arranjar aqui emprego facilmente. Isso e o facto de que todo e qualquer português está muito bem visto em qualquer parte do mundo.
A empresa onde trabalho está em constante expansão e oferece muitas oportunidades e boas condições.
Cannes é uma cidade turística, onde o festival do cinema, no mês de Maio, é a grande atracção. O mundo inteiro reúne-se aqui para ver as novidades do cinema e as celebridades. É um grande acontecimento, que se junta ao Grande Prémio do Mónaco de Fórmula Um, realizado na mesma altura. Podem imaginar o movimento e a confusão que isto causa por aqui!
Cannes é também a cidade onde moram, ou têm casas, pessoas de muitas posses. Ferraris e Lamborghinis são carros comuns nas nossas ruas e isso torna Cannes uma cidade cara para se morar, mas mesmo assim penso que temos um dia a dia mais desafogado que em Portugal.
Infelizmente a França viveu recentemente um atentado, que foi levado muito a sério, pois tocou uma das coisas mais importantes para os franceses – a Liberdade! Neste caso particular, a liberdade de expressão porque todos nós devemos ser livres para dizer ou pensar o que quisermos e todos nós devemos ser livres para discordar dessas mesmas palavras ou pensamentos.
Aqui existe uma grande comunidade muçulmana, que se sente receosa pois os atentados são ligados à sua religião. E embora ninguém os culpe de nada – porque são boa gente com quem eu tenho o prazer de trabalhar no dia a dia – e os atentados sejam feitos por extremistas que nada têm a ver com religião, sentem medo que isto se volte contra eles ou contra todas as comunidades estrangeiras que aqui co-habitam.
Estamos todos revoltados e tristes com o que se passou no Charlie Hebdo e estes dias todos depois ainda só se fala nisso em todos os cantos.
Vamos todos esperar que isto não se repita e que num futuro ideal todas as religiões possam viver em harmonia sem guerras e principalmente sem medo.

Clara Fernandes