O desporto adaptado está longe de chegar a todos

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A oferta existe, apesar de escassa, mas a procura também fica muito abaixo da expetativa. O desporto adaptado tem benefícios para as pessoas com necessidades especiais, mas há poucas opções.

O desporto adaptado desempenha um papel importante para o desenvolvimento físico, mas também para a saúde mental e a confiança das pessoas com deficiência, mas ainda há trabalho a fazer, tanto na oferta de desporto adaptado, como na forma de o fazer chegar a quem precisa.
A Federação Portuguesa de Lohan Tao Kempo (FPLTK), que tem sede nas Caldas da Rainha, é uma das (poucas) entidades que tem oferta permanente de prática de desporto adaptado na região, em articulação com o Comité Paralímpico de Portugal. A Federação leva às escolas dos concelhos das Caldas da Rainha e Óbidos aulas gratuitas de kempo adaptado para os alunos com necessidades especiais, mas, nos dois concelhos, essa oferta só está a chegar a cerca de 20 alunos, de acordo com a própria instituição.
Este é um número reduzido, tendo em conta que “em Portugal existem cerca de 1 milhão de pessoas com algum tipo de patologia, quase 10% da população”, alerta Bruno Rebelo, diretor técnico da Federação, para quem os municípios têm que tomar as rédeas à questão, como fez Vila Franca de Xira. “Criou um circuito para o desporto adaptado, nomeadamente a natação, canoagem, andebol, kempo… é verdade que é lá que reside a Secretária de Estado da Inclusão, mas a Câmara criou as condições”, sublinha.
A FPLTK tem três técnicos habilitados para trabalhar o kempo adaptado. Leonardo Ribeiro, Filipe Noronha e Afonso Santos encontram vantagens claras na prática de desporto adaptado. “Vamos acompanhando esses jovens e vemos evolução, que queremos acreditar que parte é pelo que têm feito aqui. E quando estão algum tempo sem treinar, sentimos logo um retrocesso que é difícil de recuperar. Tem que haver uma rotina”, afirmam.
Os técnicos realçam que o trabalho que fazem é compensador, até mais para si próprios que para os alunos. “O que para nós são coisas naturais, para eles é preciso ir a um detalhe técnico muito grande, como dar um soco”. “Eles estão em autossuperação constante. A simples passagem de uma barreira é tudo, e a recompensa é muito grande para eles, mas também para nós”, garantem.
A Federação trabalha o kempo adaptado de forma inclusiva, tanto na escola, como nos eventos que organiza. Todas as competições têm a vertente adaptada. A federação também já organizou um primeiro campeonato do mundo, “e só de saberem que iam, a postura dos alunos, mudou logo”. “Receberam o kimono e o equipamento, o sorriso na cara deles compensa todos os momentos difíceis”, afirmam os técnicos, que convidam todas as pessoas com necessidades especiais a experimentar. Basta dirigirem-se ao clube.
No concelho de Óbidos, a Associação de Stand Up Paddleboarding de Portugal (ASUPP) também tem um projeto na área do desporto adaptado. Mas Jorge Branco, presidente da associação afirma sem hesitações que há muito por fazer nesta área.
“Todos falamos na inclusão, há muito boa vontade de criar a inclusão, mas na hora da verdade, em que é preciso encontrar soluções para atacar o assunto, vemos que não estamos ainda tão bem preparados, sobretudo quando se sai da esfera tradicional, que é a instituição”, refere.
Foi neste segundo mandato à frente da associação que Jorge Branco assumiu o SUP adaptado como um objetivo claro. “Fomos pioneiros deste desporto em Portugal, associamos instrutores, atletas e toda a gente que está ligada a este desporto. Agora era tempo de pôr este desporto ao alcance de todos”, diz.
Na associação foi criado um departamento, “chefiado por uma pessoa da área da reabilitação”, conta o dirigente, para desenvolver o projeto que já dá frutos.
“Em todos os nossos eventos envolvemos sempre a componente adaptada”, adianta Jorge Branco. Para tal, foram firmados protocolos com instituições “e trimestralmente fazemos uma clínica na Lagoa de Óbidos para os seus utentes”, refere.
O projeto passa, agora, por formar técnicos de reabilitação para formadores em SUP adaptado e criar condições nas escolas aderentes, em parceria com as autarquias locais, para que possam ter acessibilidades e meios. “Já escolhemos um equipamento que seja o mais universal possível para determinadas patologias”, adianta Jorge Branco, que quer agora, em parceria com o IPDJ e o Turismo de Portugal, certificar as escolas nesta vertente do desporto adaptado “e que seja criado roteiro nacional e internacional com os locais onde se pode praticar”, acrescenta.

ASUPP formou instrutor surdo
Fernando Padeiro, de Cascais, tornou-se o primeiro surdo a frequentar, e concluir com êxito, o curso de instrutor de SUP, da ASUPP, uma experiência enriquecedora para o formando e para a associação.
Fernando Padeiro tomou contacto com o SUP através de um amigo, há cerca de 4 anos. “Ele tinha experiência no surf e no paddle e convidou-me para experimentar”, contou Fernando Padeiro, que até ali só tinha praticado futebol.
“Experimentei e é uma coisa completamente diferente. Estamos na água, perto da natureza, e parece que as coisas que nos deixam nervosos acabam, não pensamos mais nelas”, classifica.
A partir dessa altura, não mais largou o SUP e decidiu, então, que queria também levar outras pessoas a descobrir a modalidade, pelo que foi tirar o curso de instrutor.
Jorge Branco, presidente da ASUPP, ficou surpreendido com a inscrição de Fernando Padeiro no curso de instrutores de SUP, mas rapidamente tratou que fossem criadas todas as condições para tornar o pedido possível.
“O objetivo da associação é a inclusão, o desporto para todos. Ficámos surpreendidos de ver uma pessoa dentro desse padrão que quisesse fazer esse curso, mas criámos todas as condições”, conta.
Através da Escola Superior de Educação de Coimbra, duas interpretes de língua gestual fizeram a interpretação de todo o curso.
Fernando Padeiro adorou o curso. “Não houve nenhum erro grave, criaram-se pontes de interpretação. O presidente é sensível a esta questão é foi inexcedível. Se não tivesse as interpretes era impossível, era como se o mundo estivesse todo a preto”, sublinha o eletricista de profissão, que, agora, tem como objetivo “ensinar pessoas, ajudá-las a praticar este desporto, sejam surdas ou não”, conclui o instrutor.