“O Oeste pode tornar-se num destino nacional muito relevante, com uma oferta variada e atractiva” defende o caldense Sancho Silva

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Gazeta das Caldas
O caldense é vice-presidente da Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril

José Sancho Silva é vice-presidente da Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril desde 2015. Entre 2010 e aquele ano, o caldense, de 67 anos, acumulou funções de docente, assessor da presidência e membro da direcção do Centro de Estudos de Turismo do Estoril (ESHTE). É também coordenador da Comissão Executiva da Rede de Politécnicos com cursos de Turismo e foi Director Geral do Turismo entre 1998 e 2002.
No início dos anos 70 José Sancho Silva foi um dos responsáveis pelo suplemento cultural “Análise” da Gazeta das Caldas.
Numa entrevista por escrito a este semanário, diz que o relançamento do termalismo nas Caldas passa pela existência de um modelo eficaz de exploração do complexo termal, passando a atractividade turística também pelo seu património cultural, arquitectónico e artístico. José Sancho Silva defende também a criação de um documento estratégico para o turismo caldense.

GAZETA CALDAS: Considera que o boom turístico português é volátil ou está consolidado?
JOSÉ SANCHO SILVA: Considero que o boom turístico português resultou de um bom aproveitamento da conjuntura internacional, particularmente no que respeita a situações internas complicadas em alguns destinos turísticos com os quais o nosso país compete e que, como tal, não deixou de ter o seu mérito.
Em turismo não é aconselhável fazer depender o seu dinamismo apenas dos estímulos da procura, como, por vezes, se quer fazer crer. Pelo contrário, é na organização correcta da oferta turística que se podem lançar as bases mais seguras para a estabilidade de um destino turístico.
O planeamento integrado deve assumir-se como o instrumento fulcral para viabilizar o desenvolvimento sustentável do turismo, necessitando, no caso de um país, de possuir uma estrutura eficaz de tomada de decisões, que assegure a correcta integração do turismo no planeamento geral e que coordene as estratégias sectoriais harmonizadas desde o plano nacional até ao plano local. Apesar de algumas iniciativas interessantes previstas na Estratégia Turismo 2027 produzida pelo actual Governo, penso que a habitual tendência dos portugueses para serem avessos ao planeamento, irá conduzir a situações que, caso se verifiquem alterações na envolvente externa, podem ser problemáticas no futuro, sobretudo naquelas regiões onde se assiste a um crescimento desmesurado e incontrolado da oferta turística.

GC: Vamos continuar a assistir à saída de alunos das escolas de turismo (profissionais e superiores) para o estrangeiro, onde os salários são muito superiores ao que se paga em Portugal?
JSS: Não é uma situação tão generalizada como parece. No turismo vivem-se também os efeitos da globalização, com as grandes cadeias hoteleiras a estarem representadas em vários países. Neste sentido, é absolutamente normal que alunos provenientes do ensino profissional e superior do turismo em Portugal, ao tornarem-se colaboradores dessas empresas multinacionais, prossigam uma carreira internacional.
Além destas situações, muito comuns em relação a antigos alunos da minha escola (Estoril), importa também reconhecer que, em Portugal, os diagnósticos existentes sobre os recursos humanos no sector evidenciam algumas deficiências estruturais, visíveis no forte recurso a mão-de-obra pouco qualificada e envelhecida, com baixos níveis de escolaridade e com elevada rotatividade. Há que admitir que alguns subsectores do turismo caracterizam-se por condições de trabalho muito desfavoráveis (horários de trabalho longos e irregulares, uma elevada percentagem de contratos de trabalho a termo fixo, em regime sazonal, e níveis salariais abaixo da média), além da falta de oportunidades de carreira.

GC: A aposta na qualificação dos profissionais deverá manter-se?
JSS: Com efeito, um dos vectores de desenvolvimento para a própria sustentabilidade económica do sector do Turismo assenta precisamente na qualificação e formação dos seus profissionais, e consequentemente, no reforço da qualidade do serviço que pode constituir um factor diferenciador.
Há que concentrar esforços na melhoria das qualificações e da qualidade de emprego dos trabalhadores, na modernização da organização do trabalho e no reforço da competitividade das empresas.
Sem minimizar o papel relevante do ensino profissional no turismo, esta componente não pode ser a única a justificar um tratamento privilegiado nas estratégias públicas.
A necessidade de profissionais competentes nas funções tradicionais é hoje complementada com o imperativo de existirem gestores e quadros técnicos com a visão estratégica e os conhecimentos susceptíveis de promoverem as acções tendentes a assegurar os objectivos de diversificação e de especialização da oferta.

GC: Como avalia o potencial das Caldas como destino turístico?
JSS: O concelho das Caldas possui recursos turísticos que devem ser valorizados e objecto de uma integração consistente numa estratégia global de desenvolvimento turístico. A experiência tem demonstrado que a competitividade de um destino é construída a partir da conjugação de uma desejável variedade de recursos e produtos turísticos com uma gestão eficiente dos mesmos, a par com uma promoção adequada na perspectiva de acesso e de atracção dos mercados. Com o devido respeito, penso que nunca existiu nas Caldas um plano estratégico para o turismo que abarcasse estas realidades.
As bases do desenvolvimento do turismo devem decorrer de uma estratégia global de todo o concelho, de molde a garantirem-se as necessárias interacções e complementaridades. Desta forma, será viável potenciar os efeitos benéficos que o turismo poderá conceder à prossecução das grandes linhas estratégicas de desenvolvimento das Caldas, sempre numa perspectiva de “contributo” e não de “motor” central da evolução.
Não tenho dúvidas que o turismo poderá contribuir para a diversificação do tecido económico, aumento de emprego e da riqueza do município caldense, podendo funcionar como um meio de projectar e melhorar a imagem do concelho.

Primazia ao complexo termal

GC: Que pressupostos são necessários para o desenvolvimento do turismo?
JSS: Dinamismo, parcerias e articulação na acção; inovação e qualidade; aposta correcta nos produtos potenciais da região; sustentabilidade económica, social e patrimonial; equilíbrio entre os usos turísticos e o bem-estar dos residentes.
Ao abordar as potencialidades turísticas das Caldas tenho que conceder primazia ao complexo termal, que marcou decisivamente o ritmo da cidade como local de vilegiatura. Segundo o meu ponto de vista, o relançamento do termalismo nas Caldas passa pela existência de um modelo eficaz de exploração do complexo termal, não só no plano da gestão, como também na abrangência dos serviços prestados.
À função curativa e de reabilitação, deve-se juntar uma nova valência, ligada às necessidades de repouso e de recuperação de desequilíbrios psicofisiológicos.
A atractividade turística da cidade não se esgota no complexo termal. É possível, tirando partido do seu património cultural, arquitectónico e artístico, criar um verdadeiro roteiro local de museus. Ainda no plano cultural, fará sempre sentido tirar partido das potencialidades dos concelhos limítrofes como Alcobaça, Batalha e Óbidos, numa lógica de complementaridade de factores de atracção turística.
Com uma situação privilegiada, próxima de zonas de praias e com boas acessibilidades, a cidade e toda a zona circundante constituem um polo de grande interesse turístico. Um dos principais pontos de atração é a costa e a Lagoa de Óbidos, onde é possível a prática de actividades e desportos náuticos, cuja procura regista uma clara tendência de crescimento.
Um outro aspecto que assume relevo é a procura da área circundante das Caldas para as actividades de lazer, a que se tem vindo a associar a construção de segundas residências. A já referida proximidade de Lisboa faz desta zona um local apetecível onde é possível à população residente na capital fruir os seus tempos livres num ambiente mais tranquilo, longe do bulício citadino. A estes factos, vem juntar-se a proximidade a alguns campos de golfe que valorizam a zona, diversificando a sua oferta em termos de actividades de lazer e desportivas.

GC: Acha então que a região se poderá transformar num núcleo turístico diversificado?
JSS: A região tem excelentes condições para se transformar como um núcleo turístico diversificado, susceptível de conciliar o turismo itinerante com o de fixação. Para tal, importa adequar a organização da oferta e dos produtos a estas duas formas de turismo não exclusivas.
O touring poderá constituir uma aposta para todo o ano, com o turismo de fins-de-semana a marcar posição de relevo e tendo como grande mercado-alvo os portugueses residentes nas grandes zonas urbanas nacionais. A ligação ao golfe e ao turismo no espaço rural é fundamental, bem como a potenciação da oferta cultural e o aproveitamento do vasto comércio local.
Por outro lado, o turismo de estada tem que encontrar o seu suporte efectivo no termalismo, na praia e na animação consistente durante o Verão e no chamado turismo de lazer, onde o desenvolvimento imobiliário é inevitável, devendo por isso mesmo ser objeto de devida ponderação ao nível dos instrumentos de gestão territorial com impacte no concelho.

GC: Comparativamente a Óbidos, Alcobaça, Peniche e Nazaré, acha que as Caldas se limita a aproveitar a sua boa localização, ou também é, só por si, um destino turístico?
JSS: As localidades que refere não constituem nenhum destino turístico com organização como tal, nem preenchem os requisitos que conduzem à consideração dessa abstracção. Tratam-se de localidades que possuem recursos turísticos importantes, com diversidade ao nível das suas ofertas, pelo que deveriam encarar o desenvolvimento turístico numa óptica de exploração de sinergias e de complementaridades.
No plano de cada localidade, as apostas devem ser diversificadas e consentâneas com as apetências e recursos de cada uma, mas sempre numa lógica clara de integração e de agregação.
Do ponto de vista de estruturação dos produtos turísticos e do desempenho promocional, afigura-se vantajoso dispor de estratégias intermunicipais em territórios mais dimensionados, com integração adequada de produtos locais e com capacidade de afirmação em mercados.
De facto, para este último desiderato, o patamar intermunicipal proporciona condições de eficiência e de eficácia superiores às do nível concelhio, não se devendo traduzir necessariamente em despesas adicionais, mas sim em economias de escala. A abordagem aos mercados internacionais carece em absoluto destas estratégias.

Mercado interno é limitado para um 5 estrelas

GC: O que acha do projecto da Visabeira para os Pavilhões do Parque? Acha que as Caldas tem mercado para um hotel de cinco estrelas?
JSS: Não conheço o projeto com o necessário detalhe. Contudo, parece-me altamente interessante a existência de uma solução que viabilize a recuperação e a reabilitação dos Edifícios dos Pavilhões do Parque D. Carlos I, potenciando a valorização do património existente. Se o objectivo passa pela instalação de uma unidade hoteleira de 5 estrelas, necessariamente que a empresa envolvida efetuou os seus estudos de mercado e ponderou a viabilidade económico-financeira decorrente do plano de negócios.
Conhecem-se os dados estatísticos referentes às taxas de ocupação hoteleira na região do Oeste, as quais se situam num plano muito inferior às médias nacionais, pelo que a implementação de uma unidade de 5 estrelas, pelo volume de investimento associado, necessita de uma estratégia de exploração muito dinâmica, com o controlo de custos funcionais garantido, de modo a criarem-se condições para a geração de resultados anuais que permitam a recuperação dos capitais investidos num prazo aceitável.
Neste sentido, e tanto como me foi transmitido, a aposta do promotor reside na criação de uma unidade que possuirá áreas dedicadas à cerâmica e aos recursos hidrotermais, o que se saúda e que me parece valorizador dos elementos distintivos da cidade. Contudo, o mercado-alvo deste estabelecimento hoteleiro irá centrar-se num segmento com poder de compra elevado, o que obrigará a um trabalho profundo de marketing, sobretudo nas dimensões da distribuição e da comunicação.
Com efeito, o mercado interno terá uma resposta limitada em relação à procura que pode gerar para este tipo de unidade, pelo que o foco em alguns mercados internacionais não será fácil, atendendo à propensão de concentração da procura nos destinos nacionais mais marcantes – Algarve, Lisboa e Madeira – e à própria concorrência de outras cidades do país.

GC: Qual a sua opinião sobre o modelo de turismo adoptado para a margem sul da Lagoa de Óbidos, onde se apostou fortemente nos resorts ancorados no golfe?
JSS: Houve um período em que o nosso país atravessou uma fase complicada, onde os interesses do turismo foram completamente submetidos a uma lógica imobiliária, cujas consequências negativas foram pesadas para o sistema financeiro nacional, particularmente com a eclosão da recessão económico-financeira mundial em 2008/09 e a posterior chegada da troika.
Foram vários os projectos de componente maioritariamente imobiliária que faliram, arrastando os seus promotores e a própria banca para situações difíceis. Hoje, felizmente para o turismo, a euforia imobiliária atenuou-se.

GC: O Oeste poderá, alguma vez, ser concorrente do Algarve?
JSS: Sempre discordei dos pontos de vista que pretendiam transformar o Oeste num destino concorrente do Algarve. A dimensão das ofertas existentes são incomparáveis, pelo que, segundo o meu ponto de vista, o Oeste só lucrará se continuar a desenvolver-se adequadamente em função dos seus recursos, rejeitando as soluções que passem por densidades excessivas, com forte peso da imobiliária turística e de lazer.
Não tenho dúvidas que o Oeste possui uma oferta mais diversificada em termos de tipologia de recursos do que o Algarve, o que lhe permitirá apostar num leque mais amplo de produtos, mas sempre à escala da sua dimensão. Mesmo no caso específico do golfe, onde o Oeste possui indubitavelmente uma oferta de qualidade e com margens de crescimento, atente-se sempre que o Algarve dispõe do quádruplo de campos e de uma penetração fortíssima nos mercados internacionais.
Não misturemos as coisas. O Oeste pode tornar-se num destino nacional muito relevante, com uma oferta variada e atractiva, mas nunca se assumirá na globalidade como uma alternativa ao Algarve, o qual será sempre a principal região turística do país, orientada para um turismo diferente, mais massificado. Às lógicas das alternativas, eu prefiro a consistência das complementaridades, e penso que será com esta orientação que o turismo nacional se poderá desenvolver adequadamente.

Sol, mar e património

GC: Quais são então as potencialidades do Oeste?
JSS: Na minha óptica, as maiores potencialidades turísticas do Oeste advêm da riqueza e da diversidade do seu património natural, histórico e cultural, da proximidade de Lisboa e da localização de charneira face às cidades do Porto e de Lisboa. Os produtos turísticos identificados na região permitem admitir boas perspectivas ao nível do sol e mar; do turismo cultural ligado ao património histórico, à gastronomia, ao artesanato cerâmico e às rotas do vinho; do turismo desportivo, nomeadamente, o golfe, o hipismo, o ténis, a pesca e os desportos náuticos; do turismo ambiental; do turismo de saúde assente no termalismo e do turismo rural.
Estamos na presença de uma oferta compósita, que implica uma atuação dirigida para a organização concertada dos principais produtos da região, visando a sua valorização. É fundamental a intervenção planeada na estruturação dos produtos, apostando-se fortemente no reforço da qualidade dos recursos humanos e na criação de uma estratégia de comunicação devidamente orientada para os produtos-chave, tendo-se sempre em consideração a preponderância do mercado interno, o qual representa actualmente uma quota elevada da procura na região.

GC: Qual é que acha que deveria ser a marca identitária das Caldas?
JSS: O desenvolvimento das Caldas deve basear-se numa perspectiva multidisciplinar, com clara orientação para o reforço daqueles fatores e sectores que podem induzir dinamismo de competitividade, reduzir as principais debilidades infraestruturais existentes e melhorar a qualidade de vida de todos os residentes neste concelho.
O turismo, pelo seu carácter transversal e pelos importantes efeitos multiplicadores que gera, é claramente um sector susceptível de induzir efeitos positivos, os quais se distribuem pelos planos económico, social, territorial e patrimonial.
No plano turístico, a marca identitária das Caldas tem que residir logicamente no seu núcleo termal, se reorientado para perfis de consumo do turismo de saúde e de lazer. Com efeito, as termas devem revestir um carácter de “projecto âncora” para a cidade e para a zona em que ela se insere, induzindo um crescimento da procura nas actividades complementares de alojamento e restauração, na dinamização dos recursos culturais existentes e, indirectamente, dos restantes sectores.
O turismo poderá constituir uma aposta válida para o futuro das Caldas da Rainha, mas não exclusiva. O progresso das actividades industriais, agrícolas, comerciais e terciárias avançadas é indispensável para o bom desempenho económico da região e para o consequente bem-estar da sua população.

O caminho-de-ferro sempre foi marginalizado

GC: O caminho de ferro e a Linha do Oeste em particular são importantes para potenciar o turismo nesta região?
JSS: Eu não acredito que a falta de modernização da Linha do Oeste seja um elemento que afecte decisivamente o desenvolvimento turístico das Caldas. Com efeito, estamos em Portugal, onde o caminho-de-ferro sempre foi marginalizado nas políticas associadas aos transportes, constituindo claramente a alternativa menos desenvolvida. É uma situação que contrasta com a verificada em muitos países da Europa Central, onde o comboio se assume como o meio de transporte preferencial, inclusive no plano das deslocações turísticas internas. Não acredito, depois de décadas de absoluto marasmo, na revitalização desta componente no nosso país.
Por outro lado, as vias rodoviárias existentes revelam-se suficientes para garantir uma boa acessibilidade à cidade, estando assegurada a ligação às principais autoestradas no eixo Lisboa-Porto. Aliás, o aparecimento destes acessos mais fáceis à região, tornou-a mais propícia para o desenvolvimento do turismo itinerante (e menos de fixação), possibilitando uma maior mobilidade aos utentes da região para fins turísticos, como a utilização das praias, golfe, desfrute da natureza, etc. de quem reside na Grande Lisboa, por exemplo.
Volto a frisar que não obstante a região apresentar alguns factores teoricamente menos positivos para um turismo de fixação e mais favoráveis para o turismo itinerante, não invalida que a fruição dos produtos turísticos existentes e a melhorar, bem como a continuação da criação de polos de atração específica, transformem esta região numa alternativa turística muito interessante.

GC: Como foi o seu percurso pelo turismo? Chegou a trabalhar no sector privado ou esteve sempre ligado ao público?
JSS: A minha vida profissional sempre foi no turismo, tendo iniciado a minha actividade em Outubro de 1974, altura em que entrei para a Direcção-Geral do Turismo. Depois seguiu-se uma carreira neste organismo, onde exerci funções como técnico e, mais tarde, como Director de Serviços do Gabinete de Estudos e Planeamento, como Subdirector-Geral e, finalmente, durante quatro anos, como Director-Geral do Turismo. Em paralelo, iniciei a minha colaboração com a Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril desde 1994.
Nos anos mais recentes, após a fusão de organismos que conduziu à criação do Turismo de Portugal, trabalhei nesta instituição como assessor, tendo assegurado em representação de Portugal, a presidência do Comité da Qualidade e Comércio da Organização Mundial do Turismo.
Em 2009 doutorei-me na Universidade de Aveiro em Turismo, tendo passado a concentrar a minha actividade exclusivamente na Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril. No âmbito do Centro de Estudos de Turismo do Estoril, participei em vários estudos e projectos de investigação, tendo também assegurado durante alguns anos a assessoria técnica prestada à Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal. Nunca trabalhei directamente no sector privado, mas tive muitos contactos e parcerias com as empresas turísticas, conhecendo bem o seu perfil e estrutura.

GC: Mantém-se ligado às Caldas da Rainha? Com que regularidade visita a sua terra natal?
JSS: Deixei de residir nas Caldas desde que entrei para a universidade em Lisboa. Posteriormente, a minha vida profissional e familiar conduziu a que passasse a residir na capital. Contudo, tenho mantido sempre uma forte ligação às Caldas, já que os meus pais e irmã sempre viveram nesta cidade.
Actualmente, a frequência com que me desloco às Caldas é menos intensa do que no passado, como consequência da minha vida profissional e pessoal. Contudo, o meu pai, José Augusto Silva, recentemente homenageado pela Câmara e com a bonita idade de 90 anos, continua a residir nas Caldas com a minha irmã, pelo que com a regularidade possível, vou visitá-los. É o meu pai que me transmite todas as novidades sobre as Caldas e que me mostra as alterações ocorridas na cidade.

Perda de aspectos identitários

GC: O que é nas Caldas deve mudar rapidamente para se tornar mais atractiva para o turismo?
JSS: No que respeita à cidade em si, e sem querer ferir susceptibilidades, a cidade das Caldas tem vindo a perder, na minha perspectiva, os seus aspectos identitários e até diferenciadores.
Desde logo, o antigo coração da cidade, muito assente no eixo Rua das Montras – Praça da República – Parque, o qual constitui hoje uma zona pouco valorizada e praticamente sem vida colectiva à noite por parte dos caldenses. Por outro lado, o movimento que as Caldas registava na época de veraneio, com a presença de muitas famílias e pessoas que residiam noutros pontos do país mas que vinham passar um período de férias junto das suas origens, tudo desapareceu um pouco.
A cidade cresceu ao nível do seu perímetro, passando a ser uma cidade como tantas outras, com hipermercados e rotundas, mas sem conseguir potenciar os seus fatores distintivos, desde o termalismo, o património artístico e cultural, a cerâmica e até o comércio local tradicional.
A questão-chave do sucesso reside na necessidade de se proceder a uma organização correcta da oferta turística, inserida num processo de planeamento integrado que envolva os agentes económicos, a autarquia e a Entidade Regional de Turismo, por forma a garantir a compatibilização dos equipamentos turísticos com a sua envolvente, a assegurar a qualidade e a sustentabilidade do destino turístico e a garantir os adequados mecanismos de comercialização, informação e promoção.
Para tal, entendo que deve ser elaborado um documento de referência para o desenvolvimento turístico das Caldas da Rainha, o qual deverá funcionar como um instrumento programático e também incentivador do crescimento equilibrado e sustentável do sector, além de constituir um referencial para a canalização dos necessários investimentos público e privado.