ontem & hoje

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Colecção particular
Joaquim António Silva - 2013

Esta casa na Praça da Fruta faz parte da minha vida e dela guardo recordações marcantes. Nasci em Lisboa, em 1943, mas comecei a vir para as Caldas, para esta casa dos meus avós (Albertina e Jerónimo Ludovice) ainda em criança. Quando comecei a andar na escola, mal chegava o primeiro dia de férias, vinha logo para as Caldas, a minha terra de adopção e onde agora vivo permanentemente, desde que me reformei em 2008.
Os meus avós já habitavam esta casa desde os fins do século XIX. Por ela passaram, as minhas tias (Rita e Maria de Lurdes Ludovice), os meus pais (Albertina e Humberto Santa-Bárbara), o meu irmão José e os meus primos, Jerónimo Gama Lança, Maria Teresa Tarmm e Luís Filipe Ludovice.
Vivia nesta casa nas férias do Natal, Carnaval, Páscoa e nos três meses das férias grandes. Ou seja, quase metade do ano.
Normalmente, nas férias grandes, a minha avó e tias, que a habitavam, alugavam-na à família Brito, que vinha do quente Alentejo passar um mês nas Caldas da Rainha. Lembro-me perfeitamente deles, que traziam sempre uns enchidos alentejanos, que eram maravilha!
Durante o período em que eles lá estavam, mudávamo-nos para a “casa de verão”, que ficava nas traseiras desta, dando para o Largo da Amargura.
Lembro-me também dos vizinhos na altura: a família Sotto Mayor (ele, director da Escola Comercial) e da família Palma (ele gerente do Banco de Portugal) e da célebre “Ginginha Camponesa”, propriedade dos pais do Zé Luís, digníssimo director da Gazeta das Caldas.
Parece-me que ainda estou a ouvir a mãe a chamá-lo “Ó Zé Luís!”. Mais tarde, lembro-me de ela vir cá a casa, a chorar, a dizer que o filho tinha ido para o estrangeiro, para fugir à tropa, o que na altura era normal, pois havia a Guerra Colonial.
Havia também no Largo da Amargura, uma senhora, chamada Flora, que fazia cintas e soutiens, que era muito gorda e cheirava mal da boca.
No Natal de 1947 (passávamos sempre os Natais lá em casa com toda a família), puseram-me no “sapatinho”, um livro que se chamava “As Aventuras do João Pateta”. Eu ia para o Parque,  com uma empregada da minha avó Albertina, que se chamava Conceição Enxuto, e lembro-me de ela  estar a ler-me a história, quando aparecerem dois rapazes que a ficaram a ouvir.
Eles foram os meus primeiros amigos – o Leiria, infelizmente já falecido, e seu o irmão Carlos.
Claro está que fiquei durante vários anos, com a alcunha do João Pateta!
Recordo-me também de numas férias grandes ter ficado com papeira. O meu irmão, com medo de contágio, foi para a Quinta de Santo António, propriedade de uns grandes amigos, a família Sales Henriques. Nessa altura, estava também lá em casa, de férias, um primo meu, que passava o dia na brincadeira, apesar de eu estar doente.
Conclusão: o meu irmão apanhou a papeira e o meu primo não!
Isto passou-se no ano em que vieram às Caldas os Campeões do Mundo de Hóquei em Patins (recordo-me do Emídio, Jesus Correia, Correia dos Santos) jogar com o Sporting das Caldas.
Voltando à fotografia, reconheço a minha avó Albertina (na varanda, está de preto, ao meio) e segundo sei, estão também uns amigos  brasileiros que iam lá para casa e cujo “chefe de família” era um grande entusiasta de fotografia, conforme se pode verificar pela “figura junta”.
Para terminar, a casa foi vendida em 2003, com grande desgosto meu, depois da morte da minha mãe e tias.
Como a conversa já vai longa, fico por aqui, na esperança de que muitos caldenses, sobretudo os mais velhos tenham gostado de ler esta pequena viagem pelo passado.

Fernando Santa-Bárbara