Os 20 anos da Bichinho de Conto, a livraria nos Casais Brancos que “é de todos quantos fazem dela a sua casa”

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O casal Mafalda Milhões e Pedro Maia, juntamente com as filhas Maria e Matilde, são os proprietários da livraria

A primeira livraria portuguesa especializada em literatura infantil e álbum ilustrado faz 20 anos, dos quais 15 instalada numa escola primária no concelho de Óbidos. A promoção da leitura faz-se agora também com livros para adultos e uma loja online.

A livraria Bichinho de Conto, “a primeira filha” do casal Mafalda Milhões e Pedro Maia, como a própria livreira faz questão de afirmar, nasceu há 20 anos em Lisboa. No jantar comemorativo do quinto aniversário comunicaram a intenção de mudar de instalações e o local ficou delineado nessa mesma noite: “tem de ser um sítio onde possamos brincar, que tenha uma árvore com uma copa maior do que a atual livraria, num sítio de onde se veja o mar, com um castelo e que não tenha nada ao pé”. Mafalda e Pedro anotaram as características e começaram à procura desse lugar, até que chegaram a Óbidos, subiram o monte e pararam nos Casais Brancos. “Chegámos já era lusco fusco, demos a volta, não vimos mar, mas tivemos a certeza que era aqui”, recorda a livreira, sentada num banco e virada para a grande janela envidraçada com vista para a Lagoa e para o oceano Atlântico.
O local era a antiga escola primária dos Casais Brancos, um exemplar do Plano Centenário, onde acabaram por se fixar, apesar da vontade do então presidente de Câmara, Telmo Faria, ser instalá-los dentro da vila. Apesar do espaço já estar devoluto, houve a preocupação de manter os materiais e a forma, e não é à toa que a zona de recreio, no pátio, é transformada na maior sala de leitura e onde se realizam diversas atividades e, inclusive, um professor pode dar uma aula.
A escola que é uma livraria é constituída por um atelier de design, onde funciona a editora (atualmente irmanada com a Saída de Emergência) e “irmã” mais velha da livraria e que, em conjunto, integram o projeto editorial Bichinho de Conto. No “coração” do edifício está a Sala Papel, onde são expostos trabalhos de jovens criadores e que está ligada à nova Ogiva, que a livreira vê como um espaço de “encontro, festa e a ideia de se que usufrui das artes. Sempre que descemos à vila vamos para aquela casa, que é a que gostamos de ocupar”.
A livraria, a primeira do país especializada em literatura infantil e álbum ilustrado, possui agora uma prateleira especial com literatura para adultos e poesia. O objetivo é “poder acompanhar os nossos leitores, que agora já são adultos e não os queremos perder”, conta Mafalda Milhões, partilhando que a primeira leitora, que entrou na livraria com sete anos, está prestes a ter bebé, o que também faz deles avós.

Uma amálgama de projetos
“Como livreira o objetivo é manter a casa em pé, não perdendo nunca a matriz e a identidade da livraria, que é uma estrutura muito humanizada”, realça Mafalda Milhões para quem vender livros não é a primeira prioridade. E acrescenta: “20 anos depois a livraria já não me pertence”. A responsabilidade financeira é dela, do marido Pedro Maia, e das filhas Matilde e Maria, um projeto familiar com quatro sócios, mas o “Bichinho de Conto” é de todos os que fazem da livraria também a sua casa, garante.
Os 20 anos vão ser partilhados com quem lhes proporcionou manter-se no ativo: os colegas livreiros, clientes, a comunidade e também as parcerias com projetos autárquicos, nacionais e internacionais. “É como se não fôssemos um projeto sozinho, solitário, mas uma amálgama de projetos onde todos contam”, diz a livreira que sentiu as dores de cada livraria ou biblioteca pública que fechou portas nos últimos anos.
“Somos livreiros com presença no mundo, com preocupações que não têm a ver só com o nosso país porque aqui chegam livros de todos os autores”, partilha Mafalda Milhões, que decidiu continuar a ter os escritores, ilustradores e editores russos nas prateleiras da livraria, nas atividades, programação e rede de contatos. “Aceder à paz pela educação e cultura é um projeto”, sustenta.
O serviço educativo “Educação pela Leitura e pela Arte” irá este ano trabalhar a poesia, numa ligação à exposição que está na Sala Papel, com ilustração de Rachel Caiano e textos de João Pedro Mésseder e Mar Benegas.
A livraria reabriu portas ao público, após a pandemia, em abril do ano passado e tem também continuado o trabalho com as escolas, cujos alunos recebe, às quintas e sextas-feiras, durante o período escolar. No entanto, Mafalda Milhões reconhece que há um pós pandemia e neste período as famílias mudaram, estão mais próximas. “A nossa comunidade está diferente”, considera, acrescentando que juntam, no monte, os clientes que já vêm do tempo da livraria em Lisboa, e que agora já ali vão com os respetivos namorados às compras, e os da região.

Atividades durante todo o ano
A comemorações começaram a 14 de dezembro com a presença de André Gago e a Marina Palácio, tal como há 20 anos, a falar sobre o livro o Circo da Lua. A presença de autores, apresentações de livros para adultos e poesia, teatro, cinema ao ar livre, música, concertos para bebés, atividades de mediação de leitura para famílias, workshops de ilustração, oficinas de leitura, os bailes para as crianças e encontros para brincar, são algumas das atividades a ter lugar durante este ano. Voltam também as feiras de ilustração e querem manter-se unidos a outros pontos ligados à literatura, nomeadamente com Itália, Brasil, Colômbia e Espanha.
A Bichinho de Conto planeia também fazer atividades com projetos que gostam particularmente, como é o caso da Centésima Página e a Ler Devagar. “São dois projetos estruturantes e dois livreiros (o José Pinho e a Sofia Afonso) que nos acolheram desde o princípio e foram muito generosos no acompanhamento”, realça a responsável.
Outra das novidades é a loja online, que permite entregas em 48 horas e, nos concelhos próximos, que os livros possam ser entregues em mão, ou num ponto de recolha acessível para os consumidores. Prevista está ainda a abertura do “Bicho Papão”, uma cafetaria onde a leitura pode ser acompanhada de um café ou chá e bolo à fatia.
A dimensão de um projeto fora de grandes centros urbanos, situado no cimo de um monte num lugar onde todos os leitores são bem vindos – e fazem questão de ir – , continua a mover Mafalda Milhões e foi responsável pela mudança da família para Óbidos. “Talvez este monte tenha sido o que de mais parecido tenho com Trás os Montes”, conta a transmontana natural de Murça, a quem interessa o sentir que tem terra e a pertença a uma comunidade. ■