Projecto Escola na Horta desperta interesse por investigadores na área da Educação

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Quinhentos metros quadrados de terreno situado junto ao Complexo do Furadouro (Amoreira) foram convertidos numa horta, cultivada por crianças com idades compreendidas entre os três e os 10 anos. Trata-se do projecto “Escola na Horta”, a decorrer desde o início do ano lectivo, e que preconiza uma metodologia diferente do ensino tradicional, partindo da parte prática para a teórica, em sala de aula.
O projecto, pioneiro no país, foi visitado no passado dia 14 de Maio por dois investigadores espanhóis, em pós-doutoramento, que estão em Portugal a visitar boas práticas ao nível do ensino.

Os meninos começaram a fazer as primeiras colheitas na horta. Na segunda-feira as crianças que frequentam o jardim-de-infância levavam as primeiras alfaces e coentros que tinham plantado há meses atrás.
Antes já tinham medido a passo o perímetro das hortas e marcado, com a ajuda de réguas, a distância das plantações a fazer, aprendendo assim – quase sem se darem conta – uma disciplina chamada Matemática. Os alunos acompanham e documentam o crescimento das plantas, com o desenho livre e, na sala de aula, fazem pequenos textos sobre a horta.
É esta metodologia, que parte da parte prática para a teórica, que constitui uma das inovações do projecto, mas não é a única. A Escola na Horta procura desenvolver outras mais-valias, como o contacto com a natureza, vida ao ar livre, gestão de emoções, espírito de iniciativa, atitude crítica e companheirismo. “O nosso sistema tradicional consiste em teorizar na sala de aula e, de vez em quando, fazem-se experiências para aplicação da teoria, enquanto este é exactamente o contrário”, concretiza a coordenadora do projecto, Matilde Monteiro.
A responsável recorda que o projecto é inovador em Portugal, mas já existem experiências similares nos Estados Unidos e na Inglaterra.
“O ponto principal é que alguma coisa tem que mudar no ensino para que a qualidade das aprendizagens seja feita”, defende Matilde Monteiro, acrescentando que um relatório recente da OCDE vai nesse sentido, recomendando que o sistema de ensino português não seja tão tradicional.

As primeiras colheitas estão agora a ser feitas para alegria dos pequenos “agricultores”

As crianças das oito turmas que frequentam o projecto (quatro do jardim de infância e quatro do primeiro ciclo) também têm aulas de prevenção e segurança no trabalho, no âmbito de uma parceria feita com a Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT). A acompanhar o processo existe ainda uma rede de consultores, desde a vertente da educação à técnica, com especialistas em agricultura biológica, silvicultura, fruticultura e horticultura.
As árvores que foram semeadas no início do ano nos viveiros do Furadouro serão em Outubro plantadas no espaço da horta, assim como a sebe verde. “As espécies são todas estudadas e colocadas de acordo com a nossa região e clima”, explica Matilde Monteiro.
Neste primeiro ano a produção será muito pequena, até porque o terreno precisa de uma maior correcção, mas o objectivo é que os produtos sejam disponibilizados a centros de dia e a famílias que deles tenham necessidade. O projecto tem uma previsão inicial de três anos, com as mesmas crianças, até porque é “importante que os meninos que transitam do pré-escolar para o primeiro ciclo tenham um projecto comum e os professores também já tenham tido esta experiência”, defende a responsável.
Apenas os alunos que agora frequentam o quarto ano não irão continuar, mas os encarregados de educação já fizeram saber que gostariam que o projecto se estendesse ao quinto ano.
Está também prevista a rede de voluntariado, estando já inscritos 12 pessoas. O objectivo é que estas possam partilhar os seus conhecimentos da terra ou, por exemplo, um pai poder dar aulas com os professores na horta.
Os próximos dias 28 e 29 de Maio serão dias abertos para visitar este projecto, ver as crianças a cuidar das suas hortas e conhecer o laboratório. As visitas poderão ser feitas entre as 10h00 e as 12h00 e as 14h00 e 15h00.

“Temos que inovar o ensino”

Tendo em conta a inovação do projecto, Vera Malhão, natural da Nazaré e doutoranda em Didáctica das Ciências no Instituto de Educação de Lisboa, pretende citá-lo como exemplo na sua tese. A jovem investigadora tem vindo várias vezes ao Furadouro para ver o que está a ser feito com estas faixas etárias.
“Acho a ideia brilhante, até porque temos que inovar o ensino para outras formas para além do ensino tradicional, dentro da sala de aula”, defendeu Vera Malhão, acrescentando que está a ser preparado um protocolo entre a sua escola, o Instituto de Educação da Universidade de Lisboa e a coordenação do projecto, para a formação de professores.
Licenciada em Biologia, a jovem acrescenta ainda que “aqui é colocada em prática a interdisciplinaridade que tentamos nos novos modelos educativos”.
E porque considera que é importante passar para o estrangeiro o que se faz de novo em Portugal, acompanhou dois professores da Universidade de Huelva (Espanha) e da do Algarve na visita à horta do Furadouro. Os docentes Francisco Pozuelos e Francisco Miranda estão a fazer uma investigação sobre o intercâmbio educativo na actualidade, em Espanha e alguns locais de Portugal, nomeadamente no Algarve e zona de Lisboa, tendo aproveitado para visitar este projecto e um outro sobre novas tecnologias da informação e biblioteca em Rio Maior.
Francisco Pozuelos explicou à Gazeta das Caldas que a horta escolar era uma tradição muito acentuada em Espanha há cerca de duas décadas, mas que actualmente desapareceu. “A mim interessava-me essa experiencia da horta escolar, educação ambiental e contacto com o meio”, disse.
“Temos a ideia de que a escola tem que ir buscar um novo caminho fora do ensino tradicional, mas que deve ser próprio, adequado ao contexto da sua comunidade”, acrescentou Francisco Miranda.
Ligada ao projecto está também uma jovem estudante da ESAD que, no âmbito do seu mestrado, está a criar uma linha de utensílios para agricultura, feita com materiais ergonómicos e mais seguros para as crianças.

Fátima Ferreira

fferreira@gazetacaldas

Espantalhos povoam espaços de Óbidos
Se vir um espantalho sentado na farmácia ou numa esplanada de Óbidos não se admire. Fazem parte de um conjunto de mais de 60 bonecos que integram a exposição “Intromissões”, que se encontra patente até ao dia 10 de Junho.
O espantalho é o símbolo da Escola na Horta e, com o intuito de mostrar o projecto à comunidade, foi lançado um desafio às escolas do primeiro ciclo e pré-escolar e centros de dia da rede “Melhor Idade”, que responderam com a criação de dezenas de bonecos feitos em materiais recicláveis.
De acordo com Celeste Afonso, responsável pela área cultural do projecto, a mostra é intitulada “Intromissões” porque os espantalhos intrometem-se no quotidiano da vila, para criar algum constrangimento. Haverá um conjunto de actividades ligadas à temática, com performances de alunos das escolas.

F.F.