Rosinda e Augusto Carlos têm uma história peculiar. Ambos de Alvorninha, frequentaram a mesma escola primária e, mais tarde, no baile da terra, tornaram-se namorados.
No final dos anos 60, emigraram para França. Ambos falavam francês e possuíam passaporte. O casal partiu de avião até Madrid, onde apanharam um comboio até à gare de Austerlitz. Da primeira vez ficaram 15 anos e depois regressaram para mais seis. Ao todo viveram 21 anos em terras gaulesas.

Rosinda e Augusto Carlos foram colegas nos primeiros anos da escola primária. “Andámos juntos na escola de Alvorninha, que é a nossa freguesia”, disse Rosinda Carlos, de 75 anos. Ela é do Outeiro de Alvorninha e ele da Cumeira da Cruz. Ambos são filhos de agricultores e, na verdade, sentem que se conheciam “desde sempre”.
Entretanto, Rosinda mudou-se para a escola dos Vidais (onde fez a 4ª classe) enquanto que Augusto Carlos fez a 4ª classe na escola primária de S. Clemente.
Anos mais tarde, na juventude, voltam a encontrar-se. Como a larga maioria dos casais daquele tempo, o início do namoro aconteceu num dos bailaricos que aconteciam por todo o concelho. “Dançámos e acertámos!”, conta Augusto Carlos, de 77 anos, explicando que ele tinha 19 e Rosinda 17 quando iniciaram o namoro. Estávamos em 1960 e dois anos volvidos Rosinda dá a conhecer a Augusto que quer emigrar para a Bélgica, onde tinha já uma amiga a trabalhar.
Carlos inicialmente não achou muita graça à vontade da namorada, mas acabou por concordar pois também ele iria migrar para Cascais a fim de trabalhar numa empresa que construía piscinas.
Vivia-se no tempo do Estado Novo e não era fácil emigrar, sobretudo para uma jovem que o pretendia fazer sozinha. Uma advogada caldense ajudou Rosinda a obter o passaporte. No dia da viagem lembra-se de um senhor que se sentou a seu lado no avião – e que hoje supõe que seria da Pide – e que “queria à força” saber se existiria algum motivo para Rosinda querer ficar na Bélgica. Não parecia convencido com o facto da caldense afirmar que apenas ia ao casamento de uma prima e que, a seguir à boda, regressaria a Portugal. É óbvio que isso era mentira. A jovem queria mesmo ficar na Bélgica e assim fez: viveu lá entre 1962 e 1964, trabalhando como doméstica e tendo tido a oportunidade de aprender a falar bem o francês.
Ao fim de algum tempo a viver em Cascais, surgiu a Augusto Carlos uma nova oportunidade: um casal estrangeiro (ele sueco e ela francesa) queria contratar um casal de portugueses. Pediam que os empregados falassem francês e que ele tivesse carta de condução. Augusto Carlos tinha carta de condução e quanto ao francês começou a frequentar um curso em Cascais.
O sueco Ojermark tinha vindo em 1965 com a mulher para Portugal a fim de instalar uma empresa que processava madeira de eucalipto. Tratava-se da Celbi (Celulose Billerud SARL), fundada por iniciativa da empresa sueca Billerud AB que na época se associou a um dos maiores grupos industriais portugueses – a Companhia União Fabril (CUF).
Augusto Carlos informa Rosinda, ela aceita o desafio e antes de irem trabalhar para os Ojermark, os caldenses casam a 20 de Dezembro de 1964.
“O meu marido pertencia à Celbi e eu era empregada da casa”, recordou Rosinda, acrescentando que ganhavam bem e que foram felizes trabalhando para o casal Ojermark. “Ele já era reformado e veio dar uma ajuda para montar a fábrica na Figueira da Foz”, contou Augusto Carlos, recordando que os caldenses tinham uma vivenda no mesmo jardim da casa dos patrões em Cascais. “Eles estiveram cá cinco anos e depois partiram para o sul de França”, disseram.
Augusto Carlos exercia as funções de motorista e ia com frequência buscar engenheiros que vinham da Suécia e do Canadá que tinha que levar para a Celbi, na Figueira da Foz.
Em 1964, vêm de férias a Portugal familiares de Rosinda, que já viviam em França e que os convenceram de que lá vivia-se bem e que conseguiriam “juntar bom dinheiro para construir casa”. Planearam ir apenas dois anos “mas ficámos 15 ”, contou a caldense.

Com passaportes e a falar francês

“Tínhamos passaportes, fomos de avião até Madrid e depois apanhámos o comboio até à gare em Paris”, contou o casal, explicando que foi desta forma, legal e não a salto (como grande parte dos seus compatriotas naquele tempo), que chegaram à capital francesa.
Augusto Carlos tinha 29 anos e Rosinda, 26 e chegaram a Paris em Outubro de 1969 e já “tínhamos tudo prontinho à nossa espera”. Os familiares de Rosinda já lhes tinham arranjado casa e, por isso, “ao fim de uma semana, cada um já tinha o seu trabalho”. Augusto Carlos começou numa fábrica de embalagens de cartão, onde tinha que colar embalagens de vários tamanhos e que eram transformadas em caixas para presentes.
Rosinda trabalhou numa farmácia e foi nestes empregos que obtiveram os seus primeiros contratos de trabalho, que lhes permitiram legalizar-se. Trabalharam e viveram sempre nos arredores da capital francesa. Primeiro em Saint-Maur-des-Fossés, no Vale de Marne, em Le Plessis-Trévise e posteriormente em Pontault-Combault.
Em França, recordam, começa-se a trabalhar cedo, por volta das sete da manhã. “Eu fazia a limpeza e a reposição dos medicamentos em falta”, contou a caldense, que esteve a laborar numa farmácia durante seis anos. Ao contrário da larga maioria dos emigrantes lusos, Rosinda nunca achou os franceses distantes pois, ao longo da estadia, “sempre me trataram bem”. Só que a farmácia onde trabalhava foi vendida e Rosinda não gosta dos novos patrões e começa a pensar em procurar outro emprego. “Havia sempre trabalho para quem quisesse efectivamente trabalhar!”, contou a emigrante, que depressa encontrou nova ocupação.
Estava no mercado, onde se ia abastecer e legumes e frutas, quando os vendedores lhe perguntaram se conhecia alguém que pudesse trabalhar para eles. “Nem foi tarde nem cedo, acabei por ir eu”, disse, contando que se tornou vendedora ao acompanhar o casal de proprietários que percorria os mercados fechados dos arredores de Paris.
O mercado era feito em várias localidades e Rosinda lembra-se bem das deslocações diárias de autocarro.
Recorda que havia sempre muitos transportes públicos que começavam bastante cedo. “No início fazia uma hora nos transportes públicos”, contou a caldense, acrescentando que mais tarde passaram a haver mais ligações e, com autocarros mais directos, foi possível diminuir o tempo que a dividia entre casa e o trabalho. “Sempre gostei de trabalhar, tanto na farmácia como no mercado. Tudo o que seja trabalho, eu gosto!”, referiu.
Por seu lado, Augusto Carlos deixa a fábrica de cartão ao fim de seis meses. Mas pouco depois é aceite como motorista de uma grande empresa que fornecia bens alimentares aos supermercados FranPrix. “Era um depósito que possuía uma frota de 250 camiões. Ao todo éramos 112 chauffeurs”, contou o caldense, um dos 800 funcionários daquela firma. Levantava-se diariamente às quatro e meia da manhã para conduzir camiões e abastecer os supermercados daquela cadeia. Ia com frequência a Paris, mas também percorria todo o território, chegando com frequência às zonas de fronteira com a Alemanha. “Fornecíamos cerca de 600 supermercados”, conta Augusto Carlos, explicando que levavam paletes de todos os produtos, desde as conservas, vinhos, águas, até aos produtos de limpeza.

Convívios com familiares e amigos

Se em França se começa a trabalhar cedo, por volta das cinco da tarde já estavam de regresso a casa. “Às oito da noite, no Inverno, não se via um gato na rua”, recorda o casal caldense, que gostava muito de alinhar nos convívios que se organizavam aos fins-de-semana com amigos e família. Esses eram os principais momentos de descontração, até porque “não tínhamos grandes afinidades com outro tipo de diversões”, contaram. Havia sempre o aniversário de alguém e, por isso, esses eram fortes momentos de convívio e de algum apoio entre quem se encontrava tão longe da terra natal.
“Acho que convivíamos mais lá do que cá. Quando regressámos tinha muitas saudades daquelas festas, onde éramos mais unidos”, disse Rosinda Carlos, para quem os amigos são muito importantes. “Ainda hoje nos visitamos mutuamente”, referiu a caldense relembrando que mantém amigos dos tempos da emigração.
Gostavam de passar lá o Natal, que é especial pelo foie gras (que hoje é enviado ao casal pelos sobrinhos), o salmão fumado, os escargots (caracóis) ou as ostras. A estas iguarias “nós juntávamos o nosso bacalhau e os fritos”, contam. E se os portugueses não dispensam o bolo rei, os franceses têm a Gallette (bolo de massa folhada). “Nós temos o vinho do Porto e eles o champanhe, que estava sempre à mesa de Natal”, referiu o casal, que sempre preferiu a época natalícia à passagem de ano pois era passada em família.

Um interregno de dois anos em Portugal

Inicialmente, o casal vinha a Portugal uma vez por ano nas férias em Agosto. Mais tarde passaram a conseguir vir duas a três vezes. Passados 15 anos de vida de trabalho e já com duas casas construídas de raiz (uma nas Águas Santas e uma segunda em S. João do Estoril) pensaram que estava na hora de vir usufruir do que tinham no seu país. E decidem regressar às Caldas em 1984…
Só que volvidos dois anos, e feitas as contas, era preciso juntar mais algum aforro e regressam a França. No início, e tal como da primeira vez, era só por dois anos “mas acabámos por ficar mais seis”, contaram. Voltaram para os mesmos empregos e foram recebidos de braços abertos. Augusto Carlos tinha 44 anos e tinha vindo com direito a dois anos de licença sem vencimento e Rosinda, então com 41 anos, voltou para os antigos patrões, a vender nos mercados de legumes e frutas.
Ao fim de seis anos, em 1992 (quando Augusto Carlos fez 50 anos e Rosinda tinha 47 anos), decidem então regressar de vez. Voltam para as Caldas onde já têm casa construída e Augusto Carlos colecta-se como produtor de flores de corte. “Chegámos a ter um hectare e meio de estufas (15 mil metros)”, disse Augusto Carlos que se dedicou à produção de crisântemos, roseiras e de verdura. Ao todo, chegaram “a ter oito pessoas a trabalhar para nós”, contou o caldense.

“Ajudámos muitos com a papelada”

“A nossa história não é triste, até é bem bonita”, comenta o casal enquanto dá a conhecer as ocupações profissionais e os momentos de lazer que viviam entre familiares e amigos. Dizem que muitos dos seus conhecidos e familiares partiram a salto e tinham muitas dificuldades no quotidiano por não falarem a língua, algo que não lhes aconteceu.
Rosinda e Augusto Carlos tinham trabalhado em Cascais, ela já tinha vivido uma primeira experiência de emigração, portanto a integração foi bem mais fácil. Além do mais, o facto de falarem e escreverem bem a língua, fez com que tivessem ajudado muitos portugueses que tinham problemas relacionados com a documentação. “Em qualquer sítio que íamos havia gente a precisar de ajuda com a papelada”, recordam.
As comunicações, recordam, também não eram nada fáceis. Trocavam cartas com a família e lembram-se que para fazer um telefonema tinha que ser combinado com muita antecedência dado que quem cá estava tinha que se dirigir “à mercearia onde havia um telefone e ficavam à espera que nós telefonássemos”. Nada a ver com as novas tecnologias de hoje que permitem estar quase sempre em contacto com os familiares que por lá permanecem. “E até nos podemos ver com o auxílio da internet”, acrescenta.
Os caldenses não tiveram filhos, “mas deixámos lá ficar os sobrinhos que é como se fossem nossos!”, disseram Rosinda e Augusto Carlos. Ambos gostariam de ter tido descendentes e a certa altura ainda pensaram em adoptar uma criança. Depois acabaram por desistir da ideia até porque “nem sempre os processos de adopção correm bem”. Hoje sentem-se preenchidos com os sobrinhos. Ela tem 12 sobrinhos e o seu marido duas. “São como nossos filhos e estimam-nos muito!”, referiram.
“Já não trocava o nosso país por lá. Já aqui temos o nosso refúgio e os nosso amigos”, rematou a caldense.

Rosinda e Augusto Carlos em 1962, antes de partirem para França

Gazeta das Caldas - Emigrantes
“Éramos mais unidos lá do que cá. Fazíamos muitos convívios com familiares e amigos”