Um mergulho ao fundo do mar do Oeste

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A Just Dive é uma das empresas que tem explorado o fundo do mar no Oeste

Gazeta das Caldas convida-o esta semana a um mergulho nas águas do Oeste para ficar a conhecer os naufrágios que existem na região até porque, pasme-se, há mais de seis centenas para conhecer

Pelas águas do Oeste, entre a Nazaré e Santa Cruz, existem mais de seis centenas de naufrágios, um dado interessante, que faz desta região um destino de preferência para quem tem o fascínio pelas embarcações que afundaram. Acresce que, entre eles, existe uma grande diversidade que demonstra, por um lado, a evolução e, por outro, a História, nalguns casos, retratando momentos de pânico e de tragédia, como é o caso do mais famoso naufrágio para as gentes das Caldas, o Roumania.
Entre os cerca de 600 naufrágios nesta faixa há uma grande diversidade de embarcações e um local que se destaca: Peniche, até porque, logo à frente, encontramos as Berlengas e os Farilhões, com o Cemitério dos Navios, que ali guarda, até aos nossos dias, os destroços de várias embarcações. Na memória coletiva da população, os naufrágios são sempre momentos marcantes, episódios que não se esquecem e que suscitam a curiosidade. É que, sejam cargueiros ou barcos de transporte de pessoas, cada um é uma história rica que, no fundo do mar, aguardam por ser contadas. Como sabemos, nenhum deles é o Titanic, provavelmente o mais famoso dos naufrágios à escala mundial, mas as histórias que se encontram escondidas nos destroços destes navios ajustar-se-iam bem a qualquer guião cinematográfico.
É o caso, por exemplo, do Highland Hope, um transâtlantico inglês, que naufragou em novembro de 1930 junto aos Farilhões, no arquipélago das Berlengas, no local que hoje é conhecido pelo cemitério dos naufrágios, dada a quantidade significativa de embarcações que ali é possível encontrar. O paquete, da companhia britânica Nelson Lime, trazia mais de meio milhar de pessoas e vinha de Londres em direção à América do Sul. Entre os passageiros, a imagem é semelhante à do Titanic, com três classes diferentes: na primeira a aristocracia e, na terceira emigrantes pobres que procuravam uma vida melhor do outro lado do Atlântico.
Numa noite de nevoeiro, o navio haveria de embater num rochedo e encalhar. Os momentos seguintes são de pânico a bordo. Nessa ocasião haveriam de ser as traineiras e os baleeiros dos pescadores de Peniche e arredores, alertados inicialmente pelo estrondo do casco do navio a embater na rocha, a ajudar a salvar os passageiros, num ato que valeria às gentes de Peniche distinções da coroa britânica, com os pescadores a receberem a medalha de grau cobre da mão do embaixador, distinção que ainda está exposta nas paredes de casas penichenses. Na Gazeta das Caldas, por exemplo, é retratado que “do triste naufragio de que os jornais de todo o mundo tanto falaram, sobresai galhardamente a atitude nobre dos pescadores de Peniche, que com as suas traineiras salvaram a vida a cerca de oitocentas pessoas, que o mar teria talvez levado” e que “pelo mundo fora a imprensa referiu-se entusiasticamente á nobreza de sentimentos dos nossos visinhos, e como isto não chegasse os representantes da Argentina, da Inglaterra e da Espanha apresentaram agradecimentos áquele bom povo, a que os naufragos, eternamente reconhecidos, já tinham agradecido numa expressiva mensagem”.
Aquele que é, provavelmente, o naufrágio mais conhecido da região e um dos que, ainda hoje, permanecem vivos na memória coletiva e, até, espalhado em objetos que foram saqueados da embarcação. Há histórias de penichenses que fizeram faustosas refeições a bordo do Highland Hope (ou, como ficou conhecido por terras de Peniche, o Ingland Hope), já com o barco encalhado. Entre talheres, cobertores, tapetes, cortinados, vários objetos foram retirados. Entre eles destaca-se uma… pianola, que tem a particularidade de ligar na História este naufrágio e a cidade das Caldas. É que, depois de retirado do paquete, uns anos mais tarde o objeto foi adquirido pelo Montepio Rainha D. Leonor, sendo utilizado na realização de bailes até à construção da nova casa de saúde da instituição. Com o final dos bailes, acabou por ser vendida à S.I.R. Os Pimpões, por 1500 escudos, que conserva este autêntico objeto museológico até aos nossos dias, na sua biblioteca, na cidade termal.
Mas o naufrágio mais mergulhado em Portugal é o Primavera, um cargueiro que transportava mármore e que se afundou perto das Berlengas. No fundo do mar é ainda possível ver os blocos que carregava. E é o mais mergulhado por uma razão muito simples: é que as condições do mar é que ditam se é ou não possível mergulhar e, neste caso, é praticamente sempre possível fazê-lo. Atualmente, a 16-18 metros de profundidade, está bastante destruído, mas tem pontos muito interessantes, por exemplo, a possibilidade de avistar cardumes de peixes lula.
Já o Andreas ou Andrios, que ficou conhecido como o Vapor do Trigo pela carga que trazia, encontra-se atualmente a 28 metros de profundidade e ainda conserva intactas as suas caldeiras. O navio grego é hoje a casa de safios de dois a três metros de comprimento, de lavagantes grandes e é também uma referência por ser o único local nas Berlengas onde se encontra um mero. “É o que apresenta maior diversidade e interesse em termos de fauna e flora, porque, por estar mais afastado da ilha, por ser mais inacessível à pesca, o próprio naufrágio é um recife artificial que serve de abrigo às espécies”, explica Pedro Ramalhete da Just Dive, uma das empresas que na região se tem dedicado à história dos naufrágios. A Just Dive é “a escola que mais cursos deu no país nos últimos quatro anos e a segunda da Península Ibérica”. No último ano foram 1152 pessoas que recorreram a esta escola para se iniciarem no mergulho, para aprenderem mais ou para se certificarem. Nos batismos de mergulho que promovem é possível ver os destroços do britânico Camrose, o navio britânico naufragado em 1914 e que se encontra a cerca de oito metros de profundidade. Já os cursos de mergulho são compostos por quatro dias de formação com quatro mergulhos em mar e, adivinhe-se… um no naufrágio Primavera. Anualmente a Just Dive realiza dezenas de visitas aos naufrágios, sempre com lotação esgotada. No verão chegam a realizar quatro visitas semanais. A empresa tem também uma forte ligação à investigação científica, com uma proximidade grande com a Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar (em Peniche). Os projetos em parceria são diversos, entre os quais, a apanha de artes de pesca fantasma (que foram perdidas ou abandonadas pelos pescadores) para serem transformadas em embalagens utilizadas pela indústria farmacêutica. Outro projeto foram as prospeções nas Berlengas em busca do navio Alcantarense e o mais mediático, o mergulho no que se acredita ser o Roumania, em frente à “aberta” da Lagoa de Óbidos, que trouxe uma novidade: é que o que se achava que era um mastro de um navio, é afinal parte da estrutura do mesmo.
A Just Dive tem um projeto intitulado de Rota dos Naufrágios que pretende manter e candidatar a fundos europeus no âmbito do próximo quadro comunitário (tal como aconteceu no anterior). “Temos mais know-how e mais capacidade, com tecnologia com sondas de varrimento”. Há naufrágios que não são acessíveis a todos os mergulhadores e, nesses casos, procuram criar registos que, posteriormente, pretendem disponibilizar a todos. Uma das ideias é “cartografrar a zona e fazer vídeos de 360 graus de cada naufrágio”, que possam depois ser utilizados, por exemplo, na criação de uma experiência imersiva associada ou não à realidade virtual. Tal possibilitará que historiadores e investigadores que não sejam mergulhadores, mas que se interessam sobre o tema, possam contribuir e informar-se. “É a valorização de um património que queremos dar a conhecer ao mundo”, resume, notando “não há nenhuma zona do país onde existam tantos naufrágios numa área tão pequena e que sejam mergulháveis”, faz notar. ■

Para abrir o apetite…

Primavera
1902 Cargueiro italiano que naufragou ao largo das Berlengas com os blocos de mármore. A 16-18 metros de profundidade é o naufrágio mais mergulhado em
Portugal.

Vapor do Trigo
1926 A 28 metros de profundidade, o Andreas ou Andrios, que ficou conhecido como Vapor do Trigo pela carga que o navio grego trazia, mantém as caldeiras intactas, agora povoadas de vida, com safios de dois a três metros, lavagantes grandes e um mero.

Highland Hope
1930 Transatlântico britânico que naufragou nos Farilhões, com mais de meio milhar de passageiros e que se mantém na memória das gentes de Peniche