Uma caldense na Embaixada de Portugal na Índia – histórias de um país estranho

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Ana Patrícia Costeira tem 24 anos e está desde Fevereiro a viver em Nova Deli, a capital da Índia, por onde tem viajado, surpreendida, surpresa, por vezes chocada, com as diferenças culturais daquele país.
Caldense por adopção (nasceu em Coimbra), Ana vive desde pequenina nas Caldas da Rainha, onde fez todos os graus de ensino até ao 12º ano (que concluiu na Secundária Raul Proença). Depois tirou o curso de Economia na Faculdade de Economia de Coimbra e já durante a licenciatura aproveitou para fazer um Erasmus. “Em Varsóvia vivi uma experiência que me abriu horizontes e me fez querer conhecer mais países e culturas”, contou.
Terminado um mestrado em Economia Industrial, Ana Costeira concorreu ao INOV Contacto, um programa apoiado pela União Europeia, que proporciona estágios internacionais para jovens quadros. Foi uma autêntica lotaria porque até ao último momento a jovem não sabia para onde iria, tendo o recebido o “veredicto” – Embaixada de Portugal na Índia – no dia 11 de Fevereiro durante uma apresentação pública.
Numa entrevista à Gazeta das Caldas feita através da Internet, a jovem conta as suas impressões de quase seis meses de vivência naquele país.

GAZETA DAS CALDAS – Quais as primeiras surpresas e choques culturais que sentiu à chegada?
ANA COSTEIRA – Cheguei à Índia no dia 12 de Fevereiro. O primeiro choque que tive foi ao acordar de manhã e ouvir um senhor a “gritar” na rua. Mais tarde  percebi que era um vendedor ambulante e agora até acho piada a este método ainda  tão tradicional de vender fruta e vegetais.
Também fiquei chocada, e ainda hoje fico, com algumas casas-de-banho. Numa das  minhas viagens ficámos num “hotel” onde não existia chuveiro, mas sim um balde por  baixo de uma torneira e outro mais pequenino para nos lavarmos. É assim que a maior parte dos indianos toma banho. Aceito que esta é a sua maneira de o fazer, mas para mim foi, de facto, um choque (nem sabia muito bem como “funcionar” com estas  ferramentas).
Como não poderia deixar de ser, as vacas a passear em liberdade na rua também me causaram alguma surpresa. Contudo, acho sempre imensa piada e faço sempre uma festa quando as vejo a deambular.
Uma outra realidade bem presente, com difícil fim à vista, é a poluição da cidade. Não só a poluição atmosférica, como também a poluição residual, visível na quantidade de lixo nas ruas. Lembro-me de ir a uma loja e perguntar ao funcionário se eu poderia pôr no lixo um papel que tinha na mão. Olhou para mim e apontou para a rua com um ar tão sério, como se o tivesse ofendido com esta pergunta. Aqui na Índia é hábito atirar lixo para o chão. Este é, sem dúvida, um facto que me entristece e que ainda está bem presente nesta sociedade.

GC – Quando regressar a Portugal quais serão as melhores recordações que traz da Índia?
AC – Irei ter imensas saudades de todos os amigos que aqui deixo. Recordo com um enorme sorriso todos os momentos que aqui passámos: desde conduzir nas ruas de Deli em busca de elefantes, até irmos passear à noite até à Índia Gate, só para conviver com os dóceis macaquinhos que são presença certa nestes jardins.
Também todo o ambiente na embaixada, todos os momentos de convívio e a forma como sempre fui bem recebida e tratada, é algo que recordarei com saudade.

“Fui avisada para não dar qualquer tipo de esmola”

GC – E quais as experiências que preferiria não ter vivido?
AC – Não esqueço, embora preferisse não ter que lidar com isso, o facto de que quando vou a locais turísticos (templos, mesquitas, etc) existirem sempre indianos a tirarem fotos aos “white skin” sem sequer pedirem autorização. É extremamente incomodativo e perturbante. Por outro lado, fico deliciada quando as crianças nos dizem um grande olá e ficam felicíssimas com o contacto com pessoas de outras nacionalidades.
Também a situação de pobreza na Índia é uma realidade que não passa despercebida. Paramos nos semáforos, vamos aos mercados tradicionais, e logo aparecem vários pedintes. A melhor maneira de evitar que eles nos perturbem é ignorar completamente e, por vezes, ser rude com eles. Preferia não ter que ser antipática para com estas pessoas e, pelo contrário, gostaria de poder encontrar mecanismos passíveis de ajudá-las a sair da miséria. Contudo, sempre fui avisada para não dar qualquer tipo de esmola pois iria estar a alimentar uma máfia que, dizem, gere toda esta pobreza.
Tendo consciência do que representa esta situação, preferia também não ter visto a quantidade de pessoas que todos os dias dormem na rua. Como se de um dormitório se tratasse, os separadores das estradas servem de cama para inúmeros sem-abrigo em Nova Deli.

GC – A Índia é um país seguro? Recomendaria às suas amigas para viajarem sozinhas nesse país?
AC – Antes de vir para a Índia vinha com algum receio e desconfiança. No entanto, e como em qualquer cidade do mundo, se soubermos conviver e respeitar as diferenças  culturais, em princípio nada correrá mal. Contudo, não recomendaria às minhas  amigas a viajarem sozinhas pois, quer queiramos, quer não, estamos num país onde as mentalidades e os costumes são diferentes. Diria também que, se não querem ter os olhares dos indianos constantemente fixados nas suas pessoas, para não usarem roupas  curtas ou ousadas. Com o correr do tempo e com o aumento das temperaturas, confesso que a melhor arma é ignorar estes olhares, mas no início é intimidante…

GC – Continuam a ver-se muitas vacas sagradas nas ruas?
AC – O carinho que os indianos sentem pelas vacas é inegável e uma realidade visível.
Indiferentes ao resto do mundo, as vacas são respeitadas por todos e têm a liberdade de fazerem o que lhes aprouver. Toda a liberdade de que gozam parece estranha ao nosso olhar, mas para a população local é banal: interromper o trânsito, derrubar bancas de mercadorias, urinar e defecar na rua, são actos que aceitam com naturalidade.
Para os hinduístas, a vaca é um animal fundamental para a satisfação de todas as necessidades humanas: para além de ajudar no transporte, é uma fonte de alimentação. A manteiga, o iogurte e o leite fresco são sempre bem-vindos por parte dos indianos. Todos os dias vejo indianos a passarem na rua com a vasilha de leite fresco na mão. A urina da vaca também tem utilidade: é bebida pela população porque acreditam ser um ritual de purificação e ser curativo de certas doenças. O estrume é utilizado como fonte de energia: em alguns sítios da cidade é possível vê-lo exposto ao sol, a secar, para mais tarde ser utilizado.

“A abolição do sistema de castas levará muitos anos”

GC – O sistema de castas na Índia é um mito ou uma realidade bem visível?
AC – O sistema de castas, ainda que rejeitado constitucionalmente, está presente na sociedade. Na prática, o Governo indiano recusa-se a apurar e punir os actos  discriminatórios levados a cabo pelas castas superiores, acabando por ser  condescendente com esta discriminação. Não é um sistema que seja falado  frequentemente entre os habitantes, mas está presente e as pessoas sabem disso.
Concebido inicialmente com quatro castas (Bramanes, Xátrias, Vaixás, Sudras + Intocáveis), hoje existem múltiplas subdivisões dentro de cada casta. Sendo impossível a transição entre castas, este sistema determina a vida de uma pessoa desde que nasce até ao final da vida: profissão, casa, casamento. Acredita-se que a natureza de cada pessoa é determinada pelos deuses, havendo um grau de pureza consoante a casta em que cada um nasce.
Ainda se assiste a episódios como o de pessoas de castas inferiores não se sentarem na mesma mesa de pessoas de casta superior; assim como as pessoas pertencentes aos intocáveis não tocarem em nenhuma pessoa porque diz-se serem impuros. Toda esta hierarquização leva a que cada um tenha um papel bem definido na sociedade.
Por serem mais facilmente identificados, posso dizer que ainda se vêem bastantes  intocáveis, ou dalits. Todas os dias vejo indianos a varreram a rua e a pedirem  dinheiro no trânsito. As castas mais elevadas, bramanes, são também reconhecidas devido à cor de pele mais clara e à forma como se arranjam no dia-a-dia. Alguns bramanes apresentam-se, inclusivé, dizendo que pertencem a esta casta.
A abolição deste sistema tão discriminatório é algo que, a ser realizado, levará anos, especialmente quando as forças que deveriam lutar para que a justiça fosse feita, acabam por compactuar com os indivíduos mais poderosos da sociedade.

GC – A comida de um restaurante indiano na Índia e num restaurante indiano em Portugal são muitos diferentes?
AC – Quanto à comida sou suspeita em dizer o que quer que seja: não gosto de comida indiana. Tendo como base o “ghee” (gordura da vaca), todos os seus pratos são muito gordurosos e demasiado picantes para meu gosto. No entanto, pelo que eu oiço dos meus colegas portugueses, a comida é diferente. Nos restaurantes em Portugal cozinham de forma a adaptarem-se aos costumes da nossa sociedade fazendo comida muito menos picante do que realmente é aqui.

“O mercado indiano é bastante burocrático e paradoxal”

GC – A Índia é um país emergente do ponto de vista económico. Isso nota-se  quando se está aí?
AC – Não é mentira que a Índia tem um grande potencial económico. Contudo, não é um mercado fácil, sendo bastante burocrático e paradoxal. Esquecendo que existem vários lobbies, há uma grande necessidade de reformas estruturais, políticas e económicas. O potencial económico per si não é um problema. O que é necessário é garantir que haja uma evolução sem uma ruptura social.

GC – Como é viver na Índia como um habitante normal, com casa, transportes  urbanos diários, idas ao restaurante, etc.?
AC – De um modo geral, a vida na Índia acaba por ser agradável e confesso que continuaria por cá por mais um ou dois anos, se pudesse.
Tive grande dificuldade em encontrar uma casa, sem contar que o preço das habitações está excessivamente inflacionado – creio que a continuar assim o país corre mesmo o risco de entrar numa bolha imobiliária.
No que respeita a compras do dia-a-dia, os preços dos produtos importados são elevadíssimos. Os restantes são, de um modo geral, mais baratos do que em Portugal. O mesmo acontece com os restaurantes: os nacionais são baratos, os internacionais têm preços ao nível de Portugal.
Em termos de transporte, utilizo sempre o famoso “tuc tuc”, que é três vezes mais barato do que o táxi. O metro do Nova Deli também é uma opção recomendável. Além de barato, é limpo e organizado, havendo uma carruagem especial para as mulheres – fugir aos olhares dos indianos é sempre agradável, devo dizer.

GC – O seu estágio e o seu contacto com a realidade económica local tem trazido benefícios para o nosso país? Em quê?
AC – O meu estágio na Secção Económica e Comercial da embaixada lida directamente com a diplomacia económica, pelo que acredito que tenha benefícios directos para Portugal. A própria visita do [então] ministro dos Negócios Estrangeiros, Dr. Paulo Portas, no âmbito de uma missão empresarial, e os vários acordos assinados durante esta missão são, em parte, reflexo do meu trabalho na embaixada.
Devo dizer que o mercado indiano não é de todo um mercado fácil. A informação privilegiada que a Secção Económica e Comercial pode facultar às empresas portuguesas é fundamental no processo de internacionalização.

GC – Das viagens que aproveitou para fazer no interior da Índia, qual a que retém como mais interessante?
AC – Destaco a minha viagem a Rishikesh, situada no estado de Uttarakhand. É ideal para respirar ares mais limpos e fugir do calor de Nova Deli. Para além da misticidade do local, torna-se também um ponto de atracção dada toda a história envolvente: o rio Ganges é tão límpido e fresco que é uma tentação nos dias quentes da Índia. Diz-se que gotas de Amrit, o elixir da imortalidade, acidentalmente caíram no rio enquanto estavam a ser transportadas pelo pássaro celestial Garuda. Por este motivo, e segundo as crenças do Hinduísmo, a água do Ganges é a Ganga Maa, a mãe que acolhe, perdoa os pecados de todos os dias e purifica. Os peregrinos compram “barquinhos” cheios de flores e velas acesas e põem-nos a navegar no rio. Depois colocam três gotas de água na boca e mergulham.
E para os apreciadores dos Beatles, esta cidade é também uma fonte de atracção. Foi escolhida pela banda, na década de sessenta, para fazer um retiro espiritual num Ashram – Maharishi Mahesh Yogi Ashram – que, apesar de se encontrar em ruínas, é sempre interessante ver e poder dizer “been there, done that”. Aparentemente foi aqui que compuseram grande parte do “The White Album”.
Para além desta componente holística e espiritual, existe também uma componente  radical, onde tive hipótese de fazer rafting ao longo de 16 quilómetros do rio Ganges, assim como saltar do cimo de um penhasco para o rio.
Outra viagem, diferente desta e mais relacionada com os standards indianos, é o triângulo dourado: Deli, Agra e Jaipur – a viagem que todos os turistas fazem.

Carlos Cipriano
cc@gazetadascaldas.pt