Viatura Médica de Emergência das Caldas fez quase 12 mil saídas em dez anos

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A VMER – Viatura Médica de Emergência e Reanimação das Caldas fez a sua primeira saída, pelas 22h00 de um 15 de Maio de 2002 para atender uma doente diabética. Desde então já fez 11.900 saídas, a maioria no concelho e para socorrer sobretudo casos de doença súbita e acidentes rodoviários.
Definida pelo seu coordenador, o médico Joaquim Urbano, como uma “unidade de cuidados intensivos em movimento”, a VMER conta com uma equipa de 17 médicos e 14 enfermeiros.

A percepção de que havia vítimas de acidentes e de doenças súbitas que teriam um melhor prognóstico se fossem socorridas no local do acidente levou, há perto de uma dúzia de anos, um conjunto de médicos e enfermeiros a solicitar junto da administração do centro hospitalar caldense a criação de um serviço pré-hospitalar, que viria a ser aceite.
Durante uma formação, que foi ministrada nas Caldas Rainha, a equipa de médicos foi informada de um acidente no viaduto da Fanadia, em Fevereiro de 2002, que andava a ser construído para a A15. Todos os profissionais deslocaram-se imediatamente ao local e levaram a viatura, totalmente equipada, que tinham para a formação. “Houve uma resposta mais rápida, quer da instituição quer da própria equipa e acabou por ser um evento infeliz, mas que demonstrou que era preciso este serviço”, resume Luís Félix, coordenador dos enfermeiros da VMER.
Desta forma, e por um mero acaso, o próprio Centro Hospitalar reconheceu a importância daquela viatura.
Pouco tempo depois, a 15 de Maio, começou a funcionar o serviço, com a equipa sediada no serviço de urgência, num gabinete cedido pelo director de serviço. Alguns meses mais tarde passaram para a base, construída num pré-fabricado de madeira, no perímetro do hospital.
Actualmente a equipa é constituída por 14 enfermeiros e 17 médicos. “Temos a preocupação em ir admitindo novas pessoas embora seja um grupo que tem que ter uma cumplicidade e um conhecimento técnico e pessoal muito grande”, explica Luís Félix, acrescentando que mais de metade do grupo mantém-se desde a sua criação. “No pré-hospitalar não trabalha quem quer, trabalha quem tem perfil”, adianta o médico Joaquim Urbano, especificando que é necessário dominar de forma correcta todo o suporte avançado de vida, haver uma disponibilidade muito grande e um alto costume de solidariedade. Também é preciso “arriscar um pouco e ter espírito de sacrifício porque as condições de trabalho não são as mesmas que debaixo de quatro paredes”, reconhece o médico que, muitas vezes tem que decidir no “momento e bem” sob condições adversas.
Joaquim Urbano realça também que a confiança no colega que vai ao lado, na viatura, é a base de tudo, aliado à necessidade de agir por antecipação para evitar acidentes. “Para quem está à espera, a equipa nunca mais chega e para quem está a ver, andamos muito depressa”, refere.
Ainda assim, os profissionais fazem questão de destacar a ajuda da comunidade, em ceder-lhes passagem e pedem que continuem a fazê-lo pois eles, vão a ajudar outros.

70% dos casos de emergência são doença súbita

A área de influência da VMER é a do centro hospitalar (concelhos de Alcobaça, Nazaré, Caldas da Rainha, Óbidos, Bombarral e Peniche), mas também chegam a prestar serviços em Rio Maior e Cadaval, que estão na zona de atracção. E já tiveram saídas para a Marinha Grande, Lourinhã, Porto de Mós, Santarém, Torres Novas e Torres Vedras.
Em 10 anos de actividade foram realizadas 11.900 saídas, das quais 7.300 (mais de 60%) foram no concelho das Caldas. Os concelhos de Alcobaça, Bombarral e Óbidos totalizaram um conjunto de 1.200 saídas.
A maioria das vezes (8.200) foram assistir vitimas de doença súbita, como é o caso das doenças cardiovasculares ou respiratórias. Os acidentes rodoviários estão em segundo lugar na tabela, com 1.300 casos.
E porque esta é uma zona rural, numa década, a VMER foi chamada para 93 acidentes com tractores. “Trata-se de um número alto e que normalmente resulta em morte, que podia ser evitada”, afirma Luís Félix, que em muitos casos registou que as vitimas não usavam barreiras de protecção ou que estas estavam rebaixadas.
Registaram também cerca de 390 intoxicações, muitas das quais resultam de produtos usados na agricultura, como pesticidas.
A equipa foi chamada a mais de 200 atropelamentos, 74 afogamentos ou quase afogamentos, para 82 trabalhos de parto e 39 acidentes com armas de fogo.
“A VMER é uma unidade de cuidados intensivos em movimento”, resume Joaquim Urbano, destacando que possui todo o material necessário, como o suporte avançado de vida, ventilador de transporte, monitor desfibrilhador, aspirador de pressões e uma seringa infusora para fazer a administração de medicamentos de uma forma contínua.
A viatura é do INEM, que também suporta a sua manutenção. Ao Centro Hospitalar cabe o pagamento do consumo clínico, combustível e vencimentos do pessoal.
Mas as suas preocupações vão além dos cuidados pré-hospitalares, nomeadamente com a sensibilização para os recursos disponíveis (no combate às chamadas falsas) e a educação para a saúde, com acções em escolas básicas e secundárias.
Uma década depois de começar a trabalhar, a equipa continua com o mesmo espírito de vontade de ajudar o próximo, mas precisa de algum estímulo. “Este trabalho não é feito para pedir nada nem para sermos reconhecidos publicamente, mas também gostamos de ser apoiados nesse sentido”, afirma Luís Félix, que gostaria que fossem mais integrados nas forças vivas da cidade.
A VMER está actualmente num processo de integração no serviço de urgência, um modelo que está a ser desenvolvido a nível nacional.

Exposição marca aniversário

A data de aniversário da VMER foi assinalada com uma exposição de fotografia, na sua sede, da autoria do fotojornalista caldense Carlos Barroso. O autor apresentou 60 imagens dos médicos e enfermeiros em momentos de descontracção, já que nos anos anteriores as imagens apresentadas são de momentos de trabalho.
“Este ano decidi que também eles tem direito a uma imagem que os apresente e que mostre à população o factor humano”, disse Carlos Barroso.
As fotografias foram tiradas sempre no seu local de trabalho, na base da VMER no hospital das Caldas, onde cada um, ou em grupo, brincou um pouco com a sua ferramenta de trabalho, desde o carro, à mochila, dando um pouco de ironia ao uso dos seus utensílios.

Fátima Ferreira
fferreira@gazetadascaldas.pt

Jovens profissionais na pré-emergência

O médico Guilherme Mota (à esquerda) e a enfermeira Marta Ribeiro (à direita), junto ao coordenador Joaquim Urbano, são dos mais novos membros da equipa

Guilherme Mota, de 28 anos, é médico interno no Hospital das Caldas da Rainha e faz o internato em Santa Maria (Lisboa). Integrado na equipa da VMER desde Fevereiro, destaca o bom ambiente vivido pela equipa e realça as boas condições que possuem relativamente às outras bases que conhece.
O jovem médico também integra o serviço em Santa Maria e reconhece muitas diferenças no trabalho. “A população, os caminhos e o volume de trabalho são muito diferentes”, diz, acrescentando que gosta particularmente de trabalhar nas Caldas.
Para além de ajudar nos acidentes, Guilherme Mota esteve envolvido no primeiro acidente que a viatura teve, em 10 anos. “Fomos a uma saída à Nazaré e à vinda despistámo-nos e a VMER ficou a um metro de cair num rio”, conta, acrescentando que saíram ilesos do acidente.
A caldense Marta Ribeiro integrou a equipa da VMER há três meses. Enfermeira há 12 anos passou uma década na maternidade e achou que estava na altura de mudar. Veio para a emergência médica pelo apelo de trabalhar na rua, a adrenalina e o improviso.
O sonho antigo está a valer a pena, até porque considera este serviço muito importante. “Chegamos ao doente, apanhamo-lo em estado crítico e trazemo-lo de forma mais estável”, explica.
O caso que mais a marcou aconteceu quando ainda estava a fazer estágio com a equipa e foram socorrer um homem que tinha ficado preso pelas pernas numa britadeira, na zona da Amoreira. “Neste caso a VMER foi essencial para a resolução da situação, e sei que hoje o senhor está bem”, conta.

F.F.