ADMIRÁVEIS DESTINOS – CHINA – Palco de uma cultura milenar – Parte I

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Palco de uma cultura milenar, de numerosas e diferenciadas práticas religiosas, centro de aguerridas batalhas, passadas e presentes, local com dezenas de lugares de Património da Humanidade, assim é a CHINA (parte I).

O CORAÇÃO

Começámos a nossa viagem pelo coração da China. Fulcro administrativo, político e também espiritual, Pequim é mais do que uma capital. Encontrámos uma cidade de grandes avenidas que se entrecruzam com outras enormíssimas avenidas. Uma cidade de ruas limpas, prédios de arquitectura arrojada, um intenso tráfego, ordenadamente caótico e um smog constante, intenso e sufocante.
Lamentamos esta eterna e impertinente névoa que cobre toda a China e que, até no dia mais límpido, impede uma visão plena da paisagem. Para completar e dar alma à cidade, lugares míticos, de memórias ancestrais, monumentos históricos de grande representatividade. A par da cidade moderna, os labirínticos hutongs (bairros), resquícios de um passado não muito longínquo.

ESCORPIÃO OU COBRA?

Aqui tudo é imenso, os lugares, a cidade, as distâncias. Mas, incrivelmente, esta cidade de 10 milhões de habitantes, é uma cidade onde é fácil orientarmo-nos. Utilizamos o táxi (barato) ou o metro (baratíssimo) para nos deslocarmos. Andar sem rumo não é opção.
O calor torra-nos a vontade e a humidade amolece os nossos passos. Compreendemos porque é só de manhã ou à tardinha que os parques se enchem de pessoas. Coloca um sorriso no nosso rosto ver centenas de pessoas que nos parques ou na rua praticam a actividade que mais lhes agrada: exercícios físicos intensos, jogos individuais ou de grupo, treino de esgrima, badmington, danças tradicionais, Tai Chi. De tudo um pouco e por tudo nos interessamos, com inveja da falta de pudor que a nós tolhe os movimentos.
As noites são reservadas aos mercados nocturnos, à sua variedade e excentricidade. Para o viajante mais incauto e curioso, há que experimentar as “delícias” que se oferecem a seus olhos. Se os crocantes e estranhos insectos, a cobra ou os escorpiões não nos tentam, não podemos dizer o mesmo dos pratos mais tradicionais. Os aromas deliciosos convidam-nos a experimentar a indubitável deliciosa comida chinesa.

A HISTÓRIA AO VIVO

Atravessamos a praça Tian’anmen, a maior praça pública do mundo com mais de 40 hectares. Num país que não “admitia” praças no seu planeamento, por não permitir locais onde a população se pudesse reunir, esta surgiu quando o caminho desde o Palácio Imperial até ao Templo do Céu foi “limpo”, de ambos os lados, dos edifícios administrativos imperiais e uma das partes do muro foi retirado.
Estava-se a transformar o reflexo de uma sociedade feudal numa capital socialista. Foram construídos edifícios oficiais de estilo soviético, que agora dominam a praça e, em 1976 foi acrescentado no seu centro, cortando a imensidão da praça – o Mausoléu de Mao Tsé Tung.
Passamos a apertada segurança e penetramos no que consideramos um símbolo de opressão, da matança indiscriminada de 1989. Vêm-nos à mente as imagens dos tanques marchando sobre os dissidentes, num massacre sem palavras. Estamos a viver a história. Não compreendemos a profusão de turistas chineses que continuam a fazer deste, um local de peregrinação, ansiosos por um vislumbre do corpo embalsamado do (ainda) adorado Presidente Mao. Passamos simplesmente ao lado e dirigimo-nos para a cidade proibida.
AO SOM DA MÚSICA

Com os acordes (imaginários) da música do filme “O último Imperador”, visitamos o Palácio Imperial, mais conhecido pelo seu nome não oficial e uma referência à sua exclusividade, a mítica Cidade Proibida.
Durante cinco séculos acolheu o reinado de 24 imperadores das dinastias Ming e Qing. O complexo, de oitocentos edifícios e nove mil aposentos, era literalmente o coração da capital e do império. Daqui o imperador, “o Filho do Céu”, emitia as suas ordens com absoluta autoridade aos seus milhões de súbditos. O povo era proibido até de se aproximar dos seus altos muros.
As estruturas mais antigas iniciaram-se na dinastia mongol Kublai Kan, mas a maioria datam do século XV e o planeamento é essencialmente Ming. Imponente e fabuloso, encontra-se contudo despojada das suas riquezas, da sua alma.
Milhares de turistas chineses (ocidentais muito poucos) empurram-se e  gritam na ânsia de serem os primeiros a ver aquilo que recentemente repudiaram.
Durante a infame Revolução Cultural, saquearam-se a si próprios, destruindo uma grande parte da sua história. Agora, atropelam-se e glorificam as sobejantes riquezas, procurando tirar proveito delas. O que diria o Camarada Mao face a esta nova China, indiferente a quaisquer valores, feudais ou socialistas, numa urgência de lucro, completamente rendida ao capitalismo?
É impossível abstrairmo-nos da quantidade de pessoas, e depressa perdemos os nossos pudores e delicadezas ocidentais. Aqui o civismo não tem lugar, nem o respeito pelo espaço pessoal de cada um, nem filas, nem nada. Enfim, optamos pelo bom humor e, se não os consegues vencer… junta-te a eles!

O DRAGÃO DA CHINA

Claro que nesta primeira abordagem a Pequim não poderia faltar a Muralha da China! Podem-se visitar diversas secções (reconstruídas) da muralha que se estende no Norte da China por 10.000 Li, sendo que cada Li é sensivelmente 500 metros. Cuidadosamente escolhemos uma secção que nos levaria para longe da horda de turistas.
Levantamo-nos de madrugada e, curiosamente, partilhamos o autocarro unicamente com turistas ocidentais, também eles desejosos de um encontro mais espiritual e silencioso. A viagem de três horas é largamente compensada à vista desta que é uma das Sete Maravilhas do Mundo Moderno.
Como um dragão imaginário, subindo e descendo montes, a muralha estende-se, estende-se até perder de vista (assim o subentendemos: a tal névoa).
Desde o mar amarelo, passando o deserto de Gobi, esta obra de engenhariaremonta ao séc. V A.C.. e a sua construção continuou até ao séc. XVI. Caminhamos nesta magnífica construção durante 5 horas, tendo como únicoobjectivo absorver a magia aqui patente.
A cada passo que damos nesta parede de sete metros de altura e sete metros de largura mais uma torre é descoberta no horizonte. Algo impulsiona as nossas pernas em penosos passos para vencer mais uma curva. O calor intenso e as íngremes subidas e descidas levam-nos à exaustão, mas só paramos quando o tempo se esgota! O regresso será passado a dormitar no autocarro, a descansar e a retemperar forças para um serão acrobático.

ACROBACIAS DOLOROSAS

Apesar de não sermos grandes apreciadores, não poderíamos deixar de ir ver esta arte chinesa, a acrobacia, também ela de cultura ancestral. Parece-nos incrível como há pessoas, ainda crianças, capazes de se sujeitarem voluntariamente a tal agressividade ao corpo humano.
Desafiando qualquer lógica de posições ou movimentos e até da relatividade, os acrobatas apresentam números dolorosos para o pobre espectador.
Contorcemo-nos na cadeira sem saber se estamos ou não maravilhados e respiramos de alívio quando tudo termina. Também termina o nosso tempo em Pequim, pelo menos por agora. Já levamos esta capital no coração, cientes que não é representativa do resto da China, preparados para o que virá a seguir.

AZÁFAMA DE PAISAGENS

Em ordem de vencer rapidamente as grandes distâncias, numa urgência em prosseguir e de ver o máximo possível no pouco tempo que temos, recorremos diversas vezes ao avião. Este país não nos dá outra hipótese pela sua imensidão e assim, após 2 horas (dentro do próprio país!) aterramos em Guilin. Esta cidade, como todas as outras que visitaríamos à excepção de Pequim, é enorme, caótica, suja e poluída com uns quantos pontos de interesse.
O nosso objectivo é utilizá-la como centro de distribuição para outros locais. Partimos ao encontro de Yangshuo, ao encontro do rio Li, ao encontro de umas das paisagens naturais mais fantásticas de toda a China.
O rio Li vai serpenteando numa planície semeada de dramáticos pináculos de formação cárstica. As rochas pontiagudas erguem-se do terreno plano compondo um cenário artístico. Flutuamos pelo rio como se de um sonho se tratasse, os sentidos embutidos. Saboreamos o momento, silenciosamente. Na verdade não há palavras para esta beleza estonteante, apenas perturbada pela incontornável horda de turistas.
Trocamos a suposta canoa de bambu por uma mota e continuamos numa procura frenética de… momentos! Reaprendemos os tons de verde nos magníficos campos de arroz que abundam nesta zona. Intrometemo-nos na vida diária das pessoas e, nem uma valente queda de mota nos desmotiva.
Umas quantas nódoas negras e esfarrapadelas, tratadas num posto de saúde, ou seja, numa farmácia, ou seja… não sabemos bem como definir, devolvem-nos à estrada.
Paramos a observar o campo a ser lavrado com ajuda de um búfalo, paramos para ver plantar o arroz, ou para ver o arroz a ser colhido. Paramos a ver a artesanal maneira de descascar, de secar, de dispor o arroz. Paramos para ver a árvore com 800 anos, um jardim glorioso de flores de lótus, numa contínua azáfama de paisagens.
Em Yangshuo apreciamos também a arte milenar de pesca com corvos marinhos (cormorants), apesar de agora ser grandemente utilizada “para turista ver”.
De noite o pescador sai com os seus cormorants que seguem a sua embarcação e vão mergulhando para pescar peixe. Um cordel atado no pescoço impede os bichos de engolirem a sua presa. A cada sete peixes o pescador tem de dar à ave um peixe, ou ela recusa-se a trabalhar… assim o dizem! Contudo foi extremamente interessante ver estas aves que mergulham e nadam graciosamente nas águas límpidas do rio Li. Também a nós nos apetece refrescar do calor húmido, apesar de já ser de noite!

PARAÍSO ESCULPIDO

De volta a Guilin, de volta à estrada para um novo destino, para Longshensg, mais propriamente para a região étnica de Longji. Espera-nos uma paisagem curiosa de montanhas com plantações de arroz em terraços.
Mal pomos o pé fora do autocarro somos abordados (em chinês e em muitos gestos) para irmos para Dhazai, no coração dos terraços. Apesar de ser essa
a nossa ideia para a manhã seguinte, ainda não tínhamos bem a noção de onde estávamos e aquele não era bem o local sobre o qual tínhamos lido. Porém, olhando em volta, não nos agradava ficar mais uma noite numa grande, barulhenta, poluída e caótica cidade, sem nada de interesse.
Resolvemos arriscar e seguimos confiantes quem nos prometia o “paraíso”. Após mais 2 horas de um massacrante percurso…Uau! ficamos deslumbradas pela magnificência que se depara a nossos olhos.
A existência do paraíso afinal não é uma utopia (Gonçalo Cadilhe)… Estamos hipnotizados pela explosão de verde nas encostas esculpidas pelo homem.
Durante séculos Longji viu as suas montanhas serem transformadas em terraços, ora mais largos, ora mais estreitos, trepando até ao seu topo, aproveitando cada pedacinho para cultivar arroz, aninhando nas suas reentrâncias pequenas aldeias. Linhas concêntricas retorcem-se, desenhando padrões extraordinários, num movimento ondulante.
A noite passa lentamente, lá fora a paisagem clama por nós. Um belo dia de sol convida a um longo passeio descobrindo os terraços e as diversas plataformas, as cândidas aldeias e a população rural que trabalha nos campos. Finalmente (e unicamente) deparamo-nos com as faladas minorias que “abundam” na China, de roupagem e semblantes diferenciados.

“AS DOS LONGOS CABELOS”

Cruzamo-nos com as mulheres de minoria Yao, “as dos longos cabelos”. Os cabelos, herança riquíssima, vão passando de geração em geração com vista a serem acrescentados os próprios cabelos (quem disse que as extensões são uma invenção moderna?), já de si compridos.
Estas mulheres oferecem-se para nos mostrarem o seu precioso bem. Não resistimos, aceitamos e, num show privado, apreciamos os longuíssimos cabelos negros que se vão desenrolando aos nossos olhos. A sua extraordinária cor preta parece desmentir as rugas sulcadas nos rostos tisnados. Penteiam-se, vaidosas destes fabulosos cabelos, elaborando um penteado que faz lembrar um chapéu, como parece a uma primeira vista.
Não nos deixam partir facilmente, deliciadas com as próprias imagens que lhes vamos mostrando na câmara digital. Mais uma e outra foto, nesta e noutra posição, com este ou aquele pormenor. Não nos fazemos rogados e mais uma vez damos graças ao digital!

UM DIA BEM PASSADO

Agora munidos de um rudimentar mapa, concluímos que os terraços são em duas zonas distintas. Onde nos encontramos e, atravessando uma longa depressão com montanhas mais pequenas, para onde inicialmente tínhamos planeado ir, para a aldeia de Ping An.
Não nos custa o passeio no meio de tanta beleza e docemente vamos caminhando em direcção à outra aldeia. A beleza da paisagem pertence-nos, respiramo-lo e sorvemo-la, tentamos possui-la para sempre. Do outro lado, mais terraços fabulosos, mais tons de verde que fazem sobressair as aldeias castanhas. As casas são feitas de madeira e, felizmente, não há chapas de zinco.
Uma surpresa agradável por toda a China foi a ausência das feias chapas de zinco que vão substituindo os telhados originais. Ao longe, no cimo de mais uma plataforma (as plataformas chegam aos 2000 metros de altitude), descortinamos a aldeia de Ping An e antevemos o bulício que ali decorre.
Mais turística, com melhores acessos e transporte, a aldeia abriga a costumada horda de turistas chineses. Aqui a minoria é diferente e as mulheres usam um género de pano turco a envolver a cabeça. Os homens abandonaram completamente os trajes tradicionais, aqui e em qualquer outro local.
Os fatos tradicionais proliferam, mas sem terem nada a ver com a zona, disponíveis para quem os quiser alugar. Como num circo, tiram-se fotografias descabidas, mas curiosamente tão do agrado dos “nossos companheiros” turistas. Ficamos muito contentes de a “nossa” escolha ter sido a aldeia menos acessível, que requeria mais esforço. Voltamos contentes, extenuados, para a nossa aldeia. Este foi um dia bem passado!
No dia seguinte, uma chuva miudinha e persistente torna os caminhos de pedra resvalantes e perigosos e “atira-nos” mais cedo para a estrada. Abandonamos o paraíso e partimos novamente, partimos ainda à descoberta deste admirável destino!

Texto e Fotos: Dorabela e Paulo Filipe