Combate à obesidade infantil é prioritária no novo plano de saúde pública

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Jorge Nunes, coordenador da Unidade de Saúde Pública do Oeste Norte, diz que há muito trabalho a fazer no que diz respeito à alimentação das pessoas. A obesidade infantil é, neste particular, um problema prioritário. Percursor do movimento Cidade dos Afetos, Jorge Nunes coloca também um alerta em relação à saúde mental das populações.

O médico Jorge Nunes junto a um trabalho relativo à Escola de Afectos, realizado por alunos

A Unidade de Saúde Pública Zé Povinho, que abrange a área do Oeste Norte, vai apresentar no próximo mês de Junho um novo plano estratégico da Unidade de Saúde Pública do Oeste Norte para 2019/2021 e o combate à obesidade infantil é uma das prioridades. “Esta é a nossa grande preocupação e só na nossa unidade de saúde pública já temos três projetos relacionados com este tema nas escolas”, realça Jorge Nunes, coordenador da Unidade de Saúde Pública Oeste Norte.
Jorge Nunes observa que este é um problema que tem consequências ao nível de outras doenças. Apesar de haver hoje uma maior consciência em relação aos hábitos alimentares, a globalização veio introduzir outros produtos e outras dietas que não a mediterrânica, que se estão a mostrar prejudiciais à saúde das pessoas.
A alimentação é, por isso, um dos principais temas a trabalhar no novo plano, em conjunto com o exercício físico. “Não queremos que toda a gente vá para o ginásio, mas é preciso que as pessoas que ficam sentadas no sofá se levantem e se movimentem”, explica.
As áreas da educação para a saúde, do ambiente, da saúde mental e a prevenção das adições e comportamentos de risco, são os outros campos prioritários estabelecidos por este novo plano, que foi elaborado e será posto em prática através de parcerias com as autarquias, os agrupamentos de escolas e a sociedade civil, nomeadamente com associações empresariais e desportivas.
“Se intervirmos nestas áreas todas, vamos de certeza melhorar a saúde das pessoas”, garante, acrescentando que, para se ter uma população saudável, é preciso actuar mais na promoção da saúde, para que não seja preciso tratar da doença.
Jorge Nunes considera também que uma melhor articulação e cooperação entre as unidades de saúde contribuirá para melhorias em algumas destas problemáticas, mas alerta que, para que isso possa acontecer, “é preciso muito trabalho de equipa, que só é possível se as pessoas saírem dos seus gabinetes”.
Para trabalhar estes problemas prioritários, foram definidos quatro eixos estratégicos, encabeçados pelos afectos. “A inteligência emocional e os afectos são fundamentais para promover a alegria no trabalho e nas relações humanas”, afirma. Garantir cuidados de saúde de qualidade de forma equitativa, e promover a sustentabilidade e a inovação nas áreas da saúde, são também eixos estratégicos.

O QUE ESTÁ BEM E O QUE ESTÁ MAL

Jorge Nunes é delegado de saúde pública desde 1985 e coordena a unidade do Oeste Norte há mais de 25 anos. Ao longo deste período, diz que as diferenças na saúde pública da população do Oeste são perceptíveis ao nível dos indicadores. Jorge Nunes realça que há menos toxicodependentes, que as pessoas têm mais preocupação em praticar exercício físico, que há mais cuidados com a saúde oral e que as taxas de vacinação na região são muito elevadas (acima dos 98%).
Mas a grande mudança que sente é sobretudo ao nível da sensibilidade da comunidade ao nível da saúde. “Há uma enorme preocupação das instituições em trabalhar connosco nestas questões da área da saúde pública”, constata.
Se naqueles pontos o Oeste Norte tem bons indicadores, há aspectos que têm que ser entendidos e melhorados. São os casos da incidência de doenças oncológicas e cardiovasculares, bem como os comportamentos aditivos. Sobre estes últimos, destaca o alcoolismo, que, além de ser um problema para o doente, tem outras consequências sociais e familiares, incluindo episódios de violência doméstica.
“Temos uma taxa de suicídio mais elevada que a taxa regional e nacional, temos uma taxa de acidentes de viação mais elevada que a média nacional e doenças cardiovasculares também”, realça Jorge Nunes.
Estas são três realidades que estão já a ser estudadas, “mas ainda não temos um conclusão”, observa.

SAÚDE PÚBLICA
ZÉ POVINHO ABRANGE
180 MIL HABITANTES

A Unidade de Saúde Pública Zé Povinho abrange os seis concelhos do Oeste Norte (Caldas da Rainha, Óbidos, Alcobaça, Nazaré, Bombarral e Peniche), com uma população total que ronda os 180.000 habitantes. É composta por 28 profissionais, dos quais sete médicos de saúde pública, seis técnicos de saúde ambiental, sete assistentes técnicos, quatro enfermeiros de saúde pública, aos quais se juntam mais dois a tempo parcial, e quatro higienistas orais, que não pertencem em termos formais ao quadro, mas o seu trabalho é feito no âmbito da saúde pública e tem a sua coordenação. Além destes profissionais existem ainda uma nutricionista que trabalha ao nível da saúde escolar na área da alimentação.
Se as unidades hospitalares têm por função trabalhar sobre a doença, a unidade de saúde pública tem por missão promover a saúde. Para isso existem quatro equipas principais. A equipa de Observatório da Saúde gere o estado de saúde da população e alguns programas, como os planos de contingência do Verão e do Inverno. A equipa de formação e investigação, que é responsável pelas acções de formação ministradas interna e externamente. Há ainda uma equipa responsável pelo movimento Cidade dos Afetos, ao qual já aderiram Caldas da Rainha, Peniche e Bombarral. Ainda este mês irão aderir Óbidos e Nazaré, faltando apenas Alcobaça, município com o qual já existem conversações para que se possa juntar também.
Além da unidade central, existem unidades local em cada um dos seis concelhos.
Na competência das unidades de saúde pública estão vários programas de cariz nacional e regional, como os de vacinação, cessação tabágica, alcoolemia, de saúde oral, ou de saúde mental. Estão ainda sob alçada destas unidades a vigilância sanitária das piscinas públicas e das zonas balneares, assim como a prevenção da qualidade da água de consumo humano.
Na esfera da unidade estão também programas locais, como os projectos Pão.come e Sopa.come que visam reduzir o teor de sal nestes alimentos, acção que pode ter um impacto muito positivo na redução de riscos de doenças cardiovasculares.