Caldas da Rainha – Que desafios? A partir de breves reflexões para pequenos contributos…

“(…) As memórias são
como livros escondidos no pó.
As lembranças são
os sorrisos que queremos rever, devagar (…)”
Memórias de um beijo
Trovante

De alguns anos a esta parte, temos olhado para uma Caldas da Rainha com uma problemática de identidade enquanto cidade/ concelho, com uma falta de desígnio estratégico e com os custos sociais e económicos que isso impacta.

Foi “cidade comercial” e basta andarmos pelo círculo central urbano e observarmos o comércio que temos (ou que vamos perdendo) ou a dinâmica da cidade (ou a falta dela) a partir de determinadas horas do dia. Tenta – se reinventar com o “bairro comercial digital” mas, entretanto, vamos perdendo concorrencialmente com outras cidades ou com alterações de mobilidade e até do próprio perfil da nossa própria população residente ou ainda com a influência do comércio digital.

Foi “cidade termal” e basta percecionar a falta de influência da oferta termal na dinâmica da cidade, apesar da natureza das nossas águas e, por exemplo, da oferta formativa de uma escola profissional. Tentou – se reinventar com a integração num conjunto de fóruns nacionais e internacionais sem que isso acrescentasse valor à própria oferta termal e à sua dinâmica.

Foi “cidade cerâmica” e basta ver a importância da intervenção artística de alguns dos nossos ceramistas a nível nacional e internacional, a pujança de uma ou mais “marcas” nesta área de atividade, a instalação da “rota bordaliana” e a presença de um centro de formação e até de uma universidade muito qualificadas e reconhecidas sem que isso se repercuta significativamente na dinâmica da cidade, na sua produção de valor e na interação com os outros sistemas anteriormente falados.

Sem uma reflexão aberta e abrangente sobre um diagnóstico sobre a cidade, um plano de desenvolvimento a prazo onde seja definido claramente um propósito e um percurso para esse propósito e uma liderança forte nesse propósito e nesse percurso, vamos assistindo a consequentes perdas de oportunidade para a nossa cidade, nomeadamente ao nível da sua identidade cultural, que é aquilo que constitui o “cimento” das nossas comunidades, com as referidas consequências sociais e económicas.

Tudo isto a partir de uma ideia ou de um pressuposto de que temos recursos naturais, ambientais, sociais, económicos e humanos excelentes para projetar um desígnio estratégico diferenciador para as Caldas da Rainha.

Às vezes, temos e realizamos boas ideias que se vão perdendo com o tempo ou com a falta de incentivos – deixando aqui alguns breves e díspares exemplos, a celebração do “falo”, a “festa da cerâmica”, a feira da fruta, o festival de Jazz, a “praça à noite”, a “festa da primavera” (ou das andorinhas), o “Caldas Late Night”, os diferentes espetáculos/ torneios desportivos, a “Gala do Desporto, Exercício e Atividade Física”, Feira do Cavalo Lusitano ou até o centenário da Gazeta das Caldas e outros, assim como a presença de instituições/ associações como os diferentes museus, as diferentes galerias, o Centro Cultural e de Congressos, o Teatro da Rainha, a Banda de Comércio e Industria, as bandas das diferentes freguesias, os clubes desportivos e as associações locais, os agrupamentos escolares, as escolas e centros de formação profissional, a universidade, a Escola de Sargentos do Exército, igualmente entre outras instituições -, constituindo estes como exemplos para a afirmação da cidade, ligando autores/ artistas à identidade da cidade, permitindo encontros e reflexões entre os vários “stakeholders” e com a comunidade.

Estas iniciativas, em minha singela opinião, não têm criado as devidas sinergias ou, pelo menos, não têm sido potenciadas como afirmação de uma cidade e de um concelho porque lhes falta precisamente a sua apreensão cultural pela comunidade e/ ou a lógica de as vermos como um circulo de produção e oferta integrados, abrangendo vários agentes, ou ainda como diria o Dr. António Costa e Silva, a falta de um “ecossistema” que potencie os recursos aqui apontados e a sua energia criativa, traduzindo – se em dinâmica para a cidade e para o concelho.

E isto é importante para o presente no sentido de afirmação da cidade/ concelho, de melhorar a sua dinâmica e a sua comunidade, instituições e empresas mas sobretudo para preparar Caldas da Rainha para o futuro breve, onde se mantêm/ adicionam muitos problemas estruturais por resolver – caminhos de ferro, hospital, termalismo, turismo (incluindo a reabilitação dos pavilhões do Parque), reconceptualização da Praça da República e da atual Praça do Peixe, zona(s) empresarial (ais), Lagoa de Óbidos, preparação para as alterações climáticas, entre outros.

Penso que é necessário uma reflexão sobre esse desígnio estratégico, estabelecendo prioridades de ação e ir construindo sinergias e redes de cooperação até a partir de pequenos exemplos, contributos e iniciativas implementadas noutras cidades/ concelhos. Às vezes, não é preciso “inventar a roda…”, mas é preciso agir e onde uma estratégia de comunicação não é uma questão de menor importância.

António José Ferreira, Sociólogo

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