Terça-feira, 3 _ Fevereiro _ 2026, 21:25
InícioCulturaO trauma e as memórias vistos por David Machado

O trauma e as memórias vistos por David Machado

-

“Debaixo da Pele”, assim se designa o último livro de David Machado, autor que esteve nas Caldas no dia 13 de Outubro, na Biblioteca. Durante o dia participou em sessões para as escolas e à noite deu a conhecer uma obra cujas personagens foram vítimas de violência doméstica e da violência no namoro.

São 21h00 e o auditório da biblioteca tem as primeiras filas ocupadas. Há crianças entre os presentes. “São alunos das escolas que trabalharam com David Machado durante o dia e que pediram aos pais para regressar ao serão”, explicou a bibliotecária Aida Reis, acrescentando que vieram alunos do 1º ciclo das escolas EB de Sto Onofre e da Escola do Parque enquanto que, à tarde, foi a vez de EB1 do Bairro da Ponte. Todos tinham trabalhado livros deste autor.
No total uma vintena de pessoas, entre professores, bibliotecários e familiares de alunos que ouviram atentamente o escritor à medida que este respondia às questões colocadas pela anfitriã, a bibliotecária Aida Reis.

A violência doméstica e a violência no namoro deixaram marcas nas personagens de “Debaixo da Pele”. Júlia tem 19 anos e foi vítima de violência no namoro e Catarina, de cinco anos, assiste a várias situações de violência doméstica entre os seus pais. Júlia vê a criança que está à janela (tentando abstrair-se do que se está a passar) e decide resgatá-la daquela situação, raptando-a. “Quer salvá-la e ao mesmo tempo salvar-se a si própria”, disse David Machado a quem interessa a forma como cada uma vai recuperar da violência a que foi sujeita.
Há muito que o autor, de 39 anos, queria colocar-se nos sapatos de personagens femininas e consegue-o neste “Debaixo da Pele”. Para o escritor, o trauma é “uma memória do corpo que é recordada através de pesadelos, terrores nocturnos, choro ou tremuras que a pessoa não sabe porque surgem”. Já em relação às memórias acha que “há coisas que recordamos e que são uma forma de imaginação”. Na sua opinião,  quando tentamos recordar situações que nos aconteceram “algumas esquecemos, outras nem gravámos à partida e outras, sem qualquer malícia, somos nós próprios que as inventamos”, acrescentou.
“Debaixo da Pele” divide-se em três partes. A segunda parte do livro passa-se vários anos após os acontecimentos descritos que envolveram Júlia e Catarina. O narrador vai ser um escritor, natural de Peniche, que vai alugar um quarto a Catarina, 15 anos depois desta ter sido raptada.
A terceira e última parte é narrada pelo filho de Júlia. Ele tem 11 anos e vive isolado com a mãe no Alentejo. O jovem encontrou um gravador e está a ditar a sua história para voltar a ouvir quando for adulto, sem se deixar contaminar pelas memórias que inevitavelmente “todos acabamos por criar”, disse o autor.

“Reconstruímo-nos a partir do outro”

David Machado ainda conversou com o público sobre o seu anterior livro, “Índice Médio de Felicidade” onde conta a história de Daniel, um homem em crise a quem a vida começa a correr mal e em catadupa fica sem emprego, sem casa, sem família e com os seus melhores amigos a viver situações de depressão e de prisão.
Ainda assim, Daniel “nunca perde a ligação ao outro” ao passo que o trauma de Júlia faz com que o seu mundo se desmorone e esta “perca a ligação às pessoas”, disse o autor, explicando que a personagem chega a sentir repulsa quando a sua mãe a tenta abraçar.
Daniel, o protagonista do romance anterior, mantém-se sempre em conexão com os outros, apesar de estar zangado com o mundo. “Ainda assim vai ajudando quem o rodeia”, disse David Machado, explicando que crê que “é através do outro que nos conseguimos reconstruir”. O “Índice Médio de Felicidade” valeu ao seu autor o Prémio da União Europeia para a Literatura 2015 e o realizador Joaquim Leitão decidiu adaptar esta sua obra ao cinema, que teve produção de Tino Navarro. O filme e o prémio deixam-no muito satisfeito pois deram-lhe grande visibilidade, o que lhe permite hoje viajar para vários países para apresentar as suas obras. O “Índice Médio de Felicidade” está hoje traduzido em 10 línguas.
David Machado pertence a uma nova geração de autores que consegue manter a sua profissão relacionada apenas com a escrita. Neste momento, o autor – que passa férias no Baleal desde criança, no que se reflecte nos seus livros que têm várias referências a Peniche – está a escrever um romance juvenil.

Loading

- Advertisment -

Edição #5628

Edição Digital

Capa da Semana


VER CAPA


FAÇA LOGIN

Acesso exclusivo a assinantes
Opção 2: O "Pulso Urgente" (Chama a Atenção) O que faz: O botão de ação "pulsa" suavemente, aumentando ligeiramente de tamanho e emitindo um brilho dourado. Porquê: Cria um sentido de urgência e "convida" ativamente ao clique. É impossível de ignorar na barra lateral.
Gazeta das Caldas

Assinaturas do
Centenário

Condições exclusivas para celebrar 100 anos de história.

Ver Campanhas
Até 31 de Julho de 2026
Visão Geral da Política de Privacidade

Este website utiliza cookies para que possamos proporcionar ao utilizador a melhor experiência possível. As informações dos cookies são armazenadas no seu browser e desempenham funções como reconhecê-lo quando regressa ao nosso website e ajudar a nossa equipa a compreender quais as secções do website que considera mais interessantes e úteis.