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“Não faz sentido replicar nas Caldas as áreas de engenharia que temos em Leiria”, diz Rui Pedrosa

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O Instituto Politécnico de Leiria (IPL) não prevê a criação de cursos ligados às tecnologias de informação na ESAD, por questões que se prendem com as matrizes pedagógicas das escolas e também porque implicaria investimentos que não são comportáveis. Em entrevista à Gazeta das Caldas, Rui Pedrosa, presidente daquela instituição, disse que existem cerca de 100 alunos das Caldas e Óbidos nestes cursos na escola de Leiria, e que acredita que as empresas da região têm capacidade para atrair estes e outros alunos da escola.
Na entrevista, o presidente do IPL faz também um retrato da realidade da ESAD e da ESTM e fala das dificuldades que se avizinham em termos orçamentais caso o governo não reforce a dotação orçamental.

 

 

GAZETA DAS CALDAS: O Oeste tem pólos de empresas tecnológicas que se queixam de falta de recursos humanos. Engenharia Informática é dos cursos com mais procura no IPL. Será possível no futuro ter esse curso nas Caldas, tal como os empresários reclamam?
RUI PEDROSA: O IPL tem mais de 1.500 estudantes na área das TIC. Nos cursos superiores técnicos e profissionais, nas licenciaturas de Engenharia Informática e Jogos Digitais e também em Cibersegurança e Computação Móvel temos mais de 1.000 estudantes. Em Engenharia Informática, entre Óbidos e Caldas a Rainha temos cerca de 100 estudantes em Leiria.

O IPL nasceu das necessidades das instituições e das empresas deste território e mantém um espírito de abertura e de relação sincera com as empresas. Mas não faz sentido replicar as áreas de engenharia que temos em Leiria nas Caldas, nem as artes e o design noutras escolas, até pelos compromissos de estabilidade técnico-científica, mas também financeira, porque requer elevados investimentos nos laboratórios e ter professores altamente qualificados, que cumpram os requisitos legais a que somos obrigados.
Conseguimos ter projectos com as empresas destas áreas, estejam elas onde estiverem, envolvê-las com os estágios e estes diplomados vão trabalhar onde as condições forem mais atraentes. Do que sei, e das conversas que tenho tido, há aqui empresas nas Caldas e em Óbidos com condições de remuneração muito atraentes nesta área da engenharia informática.

GC: Qual a importância que a ESAD e a ESTM têm para o IPL?
RP: Estas duas escolas são determinantes na estratégia global do IPL, porque a nossa força é esta complementaridade de áreas científicas, conseguindo dar uma resposta forte às necessidades das empresas e instituições, e também das pessoas.
Todo o projecto pedagógico, científico e de relação com a sociedade do ponto de vista das artes e design tem o seu coração na ESAD, mas o que queremos é que a relação com a comunidade chegue cada vez mais longe. Tanto que esta escola começa a ter mais impacto noutras cidades deste território. O mesmo acontece em Peniche, onde queremos que o desenvolvimento de produtos da área do mar também influencie e chegue a outras cidades, assim como no turismo.

ESAD COM ALUNOS DE BRAGA AO ALGARVE

GC: De onde vêm a maior parte dos alunos?
RP: Esta questão é relevante na captação de talento para esta região. O número maior dos cerca de 12 mil alunos que o IPL tem são do distrito de Leiria (cerca de 5.000), o segundo é Lisboa (1.500) e depois Santarém (1.000), Coimbra e Aveiro. Temos oito distritos com mais de 100 estudantes e temos alunos de todos os distritos.
Na ESAD a maioria dos alunos são do distrito de Leiria, depois vem Lisboa. Mas este ano houve mais entradas de Lisboa que de Leiria. A escola atrai alunos de Braga ao Algarve porque é reconhecida toda a sua qualidade, assim como dos professores e também do que os diplomados produzem depois de aqui estudarem.

GC: Qual a taxa de empregabilidade na ESAD e na ESTM?
RP: Os dados que temos são pelas inscrições no Centro de Emprego e são taxas de empregabilidade acima dos 90%, de modo global, nestas áreas. Os nossos alunos das artes e do design estão a fazer o seu caminho e a ter actividade, diria que a maioria na sua actividade ligada ao curso. Outros têm outros desafios. Este é um distrito em que a taxa de desempregados está bastante abaixo da média nacional, o que pressiona bastante os nossos diplomados para gerarem o seu emprego e na sua maioria fazem-no na sua área de formação.
Na área do turismo a empregabilidade também é muito elevada, assim como no desenvolvimento de produto alimentar. Nos cursos de ciência e tecnologia do mar a mesma coisa, sendo que muitos destes diplomados acabam por ter carreiras ligadas com a inovação e investigação em núcleos criados em instituições de ensino superior, empresas e outras instituições, quer a nível regional, quer nacional e internacional.

INVESTIGAÇÃO AO SERVIÇO DA POPULAÇÃO

GC: Que projectos de investimento existem para estas escolas?
RP: Em Peniche, em articulação com a Câmara, com a Docapesca e numa parceria com o Biocant – Centro de Inovação em Biotecnologia de Cantanhede, estamos a preparar uma candidatura para a criação de um parque de ciência e tecnologia para o mar, na Docapesca. Será um investimento com apoio de fundos comunitários e suportado pela CCDR Centro, no âmbito do 2020. Na ESAD estamos a submeter um projecto ligado com a eficiência energética e, em parceria com a Oeste Sustentável, vamos substituir a iluminação por lâmpadas LED. Também estamos a melhorar as condições no nosso laboratório em Design e Artes, no nosso centro de investigação.
Estamos a trabalhar com o município na ideia da mobilidade sustentável com o projecto U-Bike, tentando fazê-lo crescer nas Caldas da Rainha. É um investimento considerável nesta mobilidade suave e está a ser feito um esforço do município para acompanhar este investimento. Num dos projectos da Fundação para a Ciência e Tecnologia, estamos a trabalhar com o município para encontrar um espaço para a apresentação de outputs deste projectos nas áreas da cerâmica e dos moldes, o que vai implicar também algum investimento.

GC: Que projectos de investigação o IPL tem na região?
RP: A investigação é uma missão obrigatória das instituições de ensino superior e está ao serviço das populações e da sua qualidade de vida. O IPL tem 15 centros de investigação. Seis em que somos unidade de gestão principal, outros seis em que somos unidade de gestão participante e três em que estamos em associações sem fins lucrativos.
Temos neste momento duas infra-estruturas científicas: o Centro para o Desenvolvimento Rápido e Sustentado de Produto, na Marinha Grande, e o Sete Mares, em Peniche, na área da ciência e tecnologia do mar. Nesta está um dos centros de investigação, o Mare – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente, com 2.000 m2 de laboratórios.
Temos dezenas de projetos aprovados, regionais, nacionais e internacionais, a maioria deles com a participação de empresas. É ali desenvolvida ciência de topo a pensar no futuro e no conhecimento, que possa solucionar problemas sociais complexos e muito relevantes, de modo a que o desenvolvimento de novos produtos possa facilmente chegar ao cliente final.
Associada à ESAD temos o LIDA – Laboratório de Investigação em Design e Artes, que já tem vários projectos financiados pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, projectos transfronteiriços. Em Peniche estamos a fazer o mesmo no CITUR, com projectos ligados ao turismo, muitos deles com parceiros da região, como municípios.

GC: A mobilidade internacional de estudantes está acima ou abaixo da média nacional?
RP: Nos últimos anos temos vindo a crescer nas mobilidades dos estudantes no âmbito dos estudos, mas também em estágios. Somos das instituições com mais estudantes em Erasmus. Temos vindo a crescer também na mobilidade de professores e técnicos administrativos, quer nos que vão, quer nos que recebemos. Comparamo-nos bem em relação à média nacional, mas gostaria de continuar a crescer. Cada vez que um professor, um técnico administrativo ou um estudante sai, seguramente vem com novas ideias e nós, enquanto instituição, vamos ganhar com isso. E o mesmo se passa quando recebemos um estudante, um professor, um técnico administrativo ou um investigador de outros países, com outra cultura e outra visão diferente da nossa.

GC: Quais os principais países de origem e destino?
RP: De um modo geral, os cinco países dos quais recebemos mais estudantes são Brasil, Equador, China, Espanha e Cabo Verde, por esta ordem. Na mobilidade internacional na Europa estamos a falar em Espanha, Itália e Polónia.
A internacionalização é uma aposta fortíssima. Acreditamos que o conhecimento é global, uma academia plena é multicultural e inclusiva. Actualmente já temos aproximadamente 1.200 estudantes em toda a comunidade do IPL com naturalidade estrangeira, de 70 nacionalidades diferentes. Na ESAD temos cerca de 140 estudantes de 30 nacionalidades diferentes.

MAIS DE 50% DE RECEITA PRÓPRIA

GC: Quais as principais receitas do IPL?
RP: Somos das instituições de ensino públicas em Portugal com maior subfinanciamento do Orçamento de Estado. Há instituições de ensino que recebem mais do dobro por estudante que o IPL. De um orçamento de aproximadamente 58 milhões de euros para 2019, contamos com 29 milhões do Orçamento de Estado. Estamos com uma capacidade elevada de gerar receita própria, que já é ligeiramente acima dos 50% do total. Estas provêm das propinas, mas também de projectos de investigação e inovação e serviços, mas estamos a atingir todos os nossos limites. Há coisas que começam a faltar por incapacidade de investirmos, porque somos muito subfinanciados ao nível do Orçamento de Estado.
Há um compromisso com o governo que o aumento da despesa por via das alterações legislativas era compensado no Orçamento de Estado e estamos com um défice a esse nível de 1,1 milhões de euros. Espero que haja um reforço financeiro, pelo menos para compensar esse défice, de outra forma vamos ter um 2019 com muitos constrangimentos.

GC: Quais são esses constrangimentos?
RP: Podemos não conseguir cumprir o que é decorrente das alterações legislativas, nomeadamente em relação a progressões na carreira, aos concursos que estão previstos e que precisamos para cumprir a lei. Estamos a falar da melhoria de laboratórios que claramente precisam, a manutenção dos edifícios que temos e até de executar projectos financiados. Podemos pôr em causa a mais-valia das receitas próprias e dos projectos que temos que executar para suportar a despesa de base – recursos humanos, energia, água – de toda a instituição.

GC: Vivendo nas Caldas, o que gosta mais na cidade?
RP: Vivo nas Caldas desde 2007. É uma cidade que permite uma elevada qualidade de vida, por várias razões. Desde logo a actividade cultural, que julgo que está intimamente ligada com a existência da ESAD. Depois, do ponto de vista da educação, desde a oferta no pré-escolar, tem escolas muito boas e conceituadas. Tem o mar e a lagoa ao lado, o que permite ter qualidade numa cidade que tem elevada qualidade de vida.
Também é uma cidade que permite fazer pontes entre as zonas mais a norte e a sul da região e também com a região de Leiria. Viver aqui permite-me ter uma visão global de todo este distrito e destas duas comunidades intermunicipais.
Muito honestamente vim morar para cá por uma questão prática, ficar entre Leiria e Peniche, porque dava aulas em Peniche e a minha mulher trabalhava na Marinha Grande. Foi uma forma de ficar a meio caminho, mas gosto de viver aqui.

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Edição #5625

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