Quarta-feira, 21 _ Outubro _ 2026, 9:37
Início Economia Meio século a cuidar dos animais de estimação

Meio século a cuidar dos animais de estimação

0
208
Manuel Ferreira, fundador e proprietário da loja, com as duas colaboradoras

Há 50 anos, abria portas a primeira pet shop das Caldas da Rainha. Manuel Ferreira e o então seu sócio Justino Abreu de Sousa eram colegas no ensino noturno. Manuel, então com 28 anos e experiência na criação de pombos-correio, desafiou o amigo: “E se abrissemos uma loja de aquários?”. Faltaram à aula, procuraram e alugaram o espaço onde criaram o Viveiro, ao lado da atual localização, na Rua Hemiciclo João Paulo II. A renda era de três contos. “Era muito, atenção. Há 50 anos, eram uma boa parte do ordenado”, recorda. Assim nasceu a primeira loja de animais das Caldas da Rainha e, segundo Manuel Ferreira, a sexta do país – só havia duas no Porto e três em Lisboa. Meio século depois, continua a ser uma referência nas Caldas para quem procura alimentação, acessórios, aconselhamento e também alguns animais.
A ideia dos aquários não surgiu por acaso. Manuel Ferreira já tinha uma longa experiência com animais, embora com aves. Já tinha feito de tudo um pouco. Começou a trabalhar aos 12 anos, a vender rebuçados “num tabuleirinho, no teatro Pinheiro Chagas”, conta. Depois disso, vendeu eletrodomésticos, e também mobílias, trabalhou na Secla e também na SEOL, antiga EDP. Mas os animais ‘falaram’ mais alto.
“Eu fui sempre muito dedicado aos pombos-correio. Já tinha aquela “escola” toda de anos a tratar das aves”, conta. Nos primeiros tempos, os aquários ganharam espaço no negócio e foram o seu grande motor. Manuel Ferreira começou a fabricá-los em vidro. “Só havia mais uma pessoa a fazê-los, um senhor em Riachos”, recorda. Desenvolveu diferentes modelos e dimensões. “Comecei a fazer o aquário de metro, depois o de 90, o de 80, o de 70 centímetros, para num aquário de metro transportar cinco, devido aos transportes”, conta Manuel Ferreira, que viu os seus aquários distribuídos para todo o país. “Ainda recentemente fui visitar um antigo cliente a Lisboa que me disse: “ainda estão como os fizeste””, afirma.
Os aquários eram um negócio a florescer devido à elevada procura. “Na altura todos os queriam ter em casa, é como hoje os miúdos com os telemóveis”, compara.
Nessa altura, a Rua Padre António Emílio não existia, estava fechada por um armazém que vendia, precisamente, vidro. “Lembro-me daquele chão à frente de onde é agora a pizaria ser só aquários”, recorda.
No entanto, aos poucos, o Viveiro foi-se transformando numa loja de animais mais abrangente. Cães, gatos, alimentação e acessórios passaram a fazer parte da oferta. Mas a especialização de Manuel Ferreira nas aves continuou, contudo, a ser uma das marcas da casa.
“Eu já tinha o conhecimento das aves, como tenho hoje. Na questão de doenças, tratamentos, como deve ser feito, aconselhar os clientes”, conta. Um conhecimento que foi partilhando com as duas colaboradoras, que estão no Viveiro há 40 e 32 anos. “Na questão das aves, vários veterinários nas Caldas vinham ter comigo, porque tenho esse conhecimento”, realça.

Uma loja que também ensina
A relação com a ornitologia levou o Viveiro para além do balcão. Em 1980, Manuel organizou a primeira exposição de aves do distrito, numa iniciativa que contou com o clube de ornitologia de Esmoriz e que esteve na origem do posterior aparecimento de um clube também nas Caldas.
A loja recebeu também, ao longo dos anos, muitas visitas de alunos das escolas da região. Alguns daqueles que entraram pela primeira vez quando eram crianças, já regressaram mais tarde com os próprios filhos.
Receber a pequenada das escolas é um prazer. “Eles são muito curiosos e fazem muitas perguntas”, conta.
Parte da história do Viveiro fez-se também na Feira dos Frutos e noutros certames da cidade, onde era presença assídua… e notada. Entre as recordações dessa época, guarda fotografias da visita de Ramalho Eanes ao seu stand, que, segundo conta, lhe deu os parabéns pela forma como tinha apresentado e concebido o seu negócio.
A história do Viveiro cruza-se igualmente com a da Gazeta das Caldas. Manuel Ferreira lembra-se que o primeiro anúncio que fez, foi nas páginas deste jornal e tinha uma frase que resumia a novidade que então chegava à cidade: “O Viveiro, a loja que faltava nas Caldas”.
Como columbófilo, “também escrevi algumas coisas para a Gazeta, quando era presidente da Columbófila e entregava classificações. A Gazeta também veio cá quando fizemos 25 anos depois e agora aos 50 anos vieram novamente. Tem sido um jornal com muitos anos de existência, fantástico”, remata.
Hoje, aos 78 anos, Manuel Ferreira continua a trabalhar diariamente na loja. Reconhece que o comércio mudou profundamente e que a concorrência das grandes superfícies e das compras pela Internet tornou mais difícil a sobrevivência dos estabelecimentos independentes. Mas não se mostra cansado.
“Eu sou um apaixonado por aquilo que faço. Quando a gente cria as coisas, nunca se satura”, diz com convicção.
O que procura agora é que o nome que criou há meio século não desapareça com a sua saída. “Estou a ver se consigo aguentar mais algum tempo, para ver se consigo passar o nome que criei.”
Há uma possibilidade na família. “Tenho uma neta que diz que quer tirar medicina veterinária, gostaria que ela continuasse”, aponta.

- publicidade -
Visão Geral da Política de Privacidade

Este website utiliza cookies para que possamos proporcionar ao utilizador a melhor experiência possível. As informações dos cookies são armazenadas no seu browser e desempenham funções como reconhecê-lo quando regressa ao nosso website e ajudar a nossa equipa a compreender quais as secções do website que considera mais interessantes e úteis.